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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Os Ratos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.02.2017
1935
Com Os Ratos (1935), Dyonélio Machado (1895-1985) consagra-se um dos prosadores fundamentais da literatura brasileira. Machado, psiquiatra de formação, registra uma perspectiva própria e apurada do Brasil e da sociedade pós-revolução de 1930. Talvez por isso o estilo conciso volte-se para os meandros da consciência.

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Análise

Com Os Ratos (1935), Dyonélio Machado (1895-1985) consagra-se um dos prosadores fundamentais da literatura brasileira. Machado, psiquiatra de formação, registra uma perspectiva própria e apurada do Brasil e da sociedade pós-revolução de 1930. Talvez por isso o estilo conciso volte-se para os meandros da consciência.

O romance tem protagonista e enredo prosaicos. Trata-se de um dia na vida de Naziazeno Barbosa, funcionário público de parcos recursos, casado e pai de um menino pequeno, ocupado em conseguir 53 mil-réis para pagar a conta do leiteiro. Diante da dívida e sob o risco de ver o filho sem alimento, Naziazeno parte para um angustiante périplo pela cidade. Durante a jornada, cada situação e personagem confrontados ativam sentimentos de dúvida e impotência reveladores de seu estado de espírito e sua visão de mundo. O acanhamento diante dos vizinhos; a vergonha no bonde a caminho do trabalho; a ansiedade e a humilhação de tratar com o chefe (“O senhor pensa que eu tenho uma fábrica de dinheiro”, diz ao subordinado); a procura desesperada pelos amigos e a observação impotente dos negócios nebulosos, dos quais participa num misto de oportunismo e inadequação ingênua. Por fim, consegue a quantia, obtida quando abdica da iniciativa própria. Cada episódio da busca de Naziazeno apresenta um universo desesperança, desorientação e isolamento, vividos com o peso de um obstáculo intransponível. Além disso, a cada elemento do tempo e espaço (uma sombra fresca, o fio de suor que lhe cinge a cabeça sob o chapéu, as formas que o sol e as nuvens tomam) surge a necessidade de fornecer um sentido e um conserto que, no entanto, não se sedimentam.

O habilidoso processo narrativo dá mais força à paranoia do protagonista. Relatado em terceira pessoa, no discurso indireto livre, as palavras surgem em chave dupla. São índices da consciência do protagonista em seu desespero e matéria-prima de uma estrutura que destaca o questionamento da própria voz. Com livre acesso aos pensamentos de Naziazeno, a narrativa contém toda a distorção que permeia a consciência da personagem. Assim, Os Ratos incorpora procedimentos literários próprios ao expressionismo, em particular, a deformação subjetiva de tempo, espaço e ambiências, apresentados como tais pelo ponto de vista do protagonista.

A essa marca formal, aspecto da modernidade da prosa brasileira da década de 1930, soma-se a própria caracterização épica. À maneira de Ulysses, de James Joyce (1882-1941), ou Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin (1929), Machado constrói o protagonista na condição amesquinhada e anônima do homem na cidade moderna. Sem quaisquer traços que insinuem uma exemplaridade, a história de Naziazeno Barbosa alcança universalidade por meio do registro das relações de troca e interesses que permeiam a vida social.

O crítico literário Davi Arrigucci Jr. (1943) assinala, na caracterização da pobreza e impotência de Naziazeno, um percurso similar à vida dos pobres sob a presidência autoritária e paternalista de Getúlio Vargas (1883-1954), o “pai dos pobres”, nos anos que precedem o Estado Novo (1937-1945). Coloca a obra ao lado de Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos (1892-1953), como correlato urbano de uma miséria humana identificada na materialidade e na impotência de seus protagonistas. Seguindo a mesma linha, porém mais detalhista quanto às relações do romance de Machado com o horizonte literário da época, Fernando Cerisara Gil coloca Os Ratos na tríade das obras representativas do que chama de “romance da urbanização”. Ou seja, narrativas baseadas no binômio modernidade/atraso para o qual a história brasileira sempre tenta algum nível de conciliação. Nessa tríade, além de Os Ratos, estão Angústia (1936), de Graciliano Ramos, e O Amanuense Belmiro (1937), de Cyro dos Anjos (1906-1994). Na sequência, passa à investigação de “experiências de personagens de origem social rural ou ao menos não urbana”, presas à cidade e suas determinações sociais, sem possibilidade de realização que não signifique a aniquilação da subjetividade. É o caso de Naziazeno e sua nostalgia rural, em cujo silêncio residem as tensões inerentes à modernidade que assimila de forma alienada.

Pela maestria da execução técnica, o aporte de uma cultura literária, a atualidade do enfoque da vida social brasileira, Os Ratos merece destaque entre os grandes romances da literatura nacional do século XX.  

Fontes de pesquisa 3

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  • ARRIGUCCI Jr., Davi. Posfácio. In: MACHADO, Dyonélio. Os Ratos. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.
  • GIL, Fernando Cerisara. O romance de urbanização. Porto Alegre: Edipuc/RS, 1999.
  • GIL, Fernando Cerisara. O romance de urbanização: a modernidade a contrapelo. In: Organon (Revisitando o cânone: questões de historiografia e crítica literária), v. 15, n. 30-31, 2001. Disponível em: < http://seer.ufrgs.br/organon/article/viewFile/29715/18372 >. Acesso em: 30 out. 2014. p. 79-86

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