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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Avalovara

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.02.2017
1973
Avalovara (1973) é o romance mais celebrado do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), considerado por muitos sua obra-prima. Representa a virada que inaugura a segunda fase de sua obra, com o conjunto de narrativas Nove, Novena (1966). De acordo com o poeta e tradutor José Paulo Paes (1926-1998), trata-se de um aprofundamento da inflexão ...

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Análise

Avalovara (1973) é o romance mais celebrado do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), considerado por muitos sua obra-prima. Representa a virada que inaugura a segunda fase de sua obra, com o conjunto de narrativas Nove, Novena (1966). De acordo com o poeta e tradutor José Paulo Paes (1926-1998), trata-se de um aprofundamento da inflexão por meio da qual Lins passa a “dedicar-se à pesquisa de novos recursos de expressão”. Isso acontece depois de ter alcançado “o domínio da forma narrativa do conto e do romance” em livros como O Visitante (1955) e O Fiel e a Pedra (1961).

De fato, Avalovara confirma a avaliação da obra de Lins, feita três anos antes pelo crítico Alfredo Bosi (1936), como uma das mais inventivas da prosa brasileira produzida a partir dos anos 1950. Nesse sentido, a pesquisa formal, característica mais evidente de Avalovara, vai ao encontro da tendência ficcional psicológica que adquire força nas últimas décadas no Brasil. Contrapõe-se ao declínio da tendência realista-regionalista ocorrido na década de 1950, e aproxima-se do registro poético-introspectivo da escritora Clarice Lispector (1925-1977). Contudo, longe de se afastar da realidade histórica presente, o espaço narrativo do romance é atravessado por referências diretas à violência e opressão política instauradas pelo regime militar, em forma de inscrições abruptas de acontecimentos apresentados, por exemplo, como fragmentos de notícias de jornal.

Como nota o crítico Antonio Candido (1918), em Avalovara convivem um elemento “calculado”, correspondente à “geometria rigorosa” com que apresenta a estrutura narrativa, e um teor de “imprevisto” presente nas irrupções de “poesia livre”. Uma arquitetura sólida e complexa sustenta a obra, formada pela combinação de figuras como a espiral e o quadrado. Mais que isso, o percurso do romance origina-se em uma frase palíndroma, cujo sentido se mantém. Lida normalmente ou de trás para a frente, é constituída por cinco palavras de cinco letras cada uma e atribuída a um escravo da antiga cidade latina de Pompeia: “sator arepo tenet opera rotas”. Conforme as rotações cada vez mais amplas da espiral, oito linhas narrativas são desenvolvidas, em torno do escritor vindo do Nordeste brasileiro, Abel, e de três mulheres que amou, Anneliese Roos, Cecília e, principalmente, uma personagem sem nome, identificada por um sinal tipográfico. Com isso, sobrepõem-se diferentes tempos e espaços narrativos, de Pompeia ao Brasil da década de 1960, do passado recente de Abel no Recife à infância da personagem sem nome em São Paulo, passando pela perambulação com Cecília pela Europa. As duas figuras (o quadrado e a espiral) e a frase de leitura reversível servem de emblema aos temas centrais do livro, que dialoga com obras da tradição literária. Entre elas, a Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321): a viagem pela realidade histórica e a busca por uma dimensão de transcendência, a fugacidade da trajetória humana fadada à finitude e a contemplação da eternidade do cosmos.

Ao mesmo tempo, os alicerces da trajetória são explicitados por um narrador que tece reflexões sobre o ato de escrever, revelando a autoconsciência crítica que permeia a obra e ilustra a concepção do autor como uma “alegoria da arte do romance”. Em consonância com a revelação do artifício literário, realidade histórica e universo ficcional confundem-se e invadem a linearidade da prosa narrativa pela exploração dos múltiplos sentidos e ressonâncias da linguagem poética. É o que se nota, por exemplo, na construção da amante não nomeada, criatura insólita “nascida duas vezes”, ou de Anneliese, personagem em cujo interior Abel é capaz de vislumbrar cidades de diferentes tipos. Ou, ainda, nas profusas descrições de cenas ou imagens imaginárias, que atestam a dívida do autor com as artes plásticas e esclarecem sua afirmação de que concebe a estrutura do livro como “uma jaula dentro da qual se movem animais selvagens”.

De par com um sucesso comercial imediato, Avalovara obtém amplo reconhecimento crítico logo após o lançamento da primeira edição. Apesar das divergências próprias à recepção de obras de caráter experimental, o livro é recebido por um meio crítico aberto às inovações formais. Essas inovações são identificadas, pouco tempo antes, em Nove, Novena, por comentadores como João Alexandre Barbosa (1937-2006) e Antonio Candido.

É o que constata Candido, na apresentação da primeira edição, em que afirma que “Avalovara representa na literatura brasileira atual um momento de decisiva modernidade”. Momento este que remonta a conquistas anteriores da história literária nacional. Entre elas, a construção de uma linguagem ficcional que leva a matéria social brasileira ao encontro de grandes questões humanas como a moral e o tempo. Exemplos disso são textos como Sagarana (1946) ou Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967). Do mesmo modo, sua pesquisa formal está em sintonia com a tendência a uma dissolução das fronteiras entre gêneros literários, visível no panorama do período, e que, no Brasil, alcança resultados notáveis em textos híbridos entre prosa e poesia, como Água-Viva (1973), de Clarice Lispector, publicado no mesmo ano. Essa característica não diminui a singularidade do romance de Lins na literatura brasileira. Nele, o diálogo profundo e multifacetado com as artes e o conhecimento ocidentais e o ambicioso rigor construtivo mantêm-se como marcas de originalidade até o século XXI.

Fontes de pesquisa 7

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  • ANDRADE, Ana Luiza. Osman Lins: criação e crítica. São Paulo: Hucitec, 1987.
  • BARBOSA, João Alexandre. Nove, novena, novidade. In: LINS, Osman. Nove, novena. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
  • CANDIDO, Antonio. A espiral e o quadrado. In: LINS, Osman. Avalovara. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  • DALCASTAGNÈ, Regina. A garganta das coisas. Movimentos de Avalovara, de Osman Lins. Brasília: Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.
  • FARIA, Zênia de; FERREIRA, Ermelinda (Orgs.). Osman Lins: 85 anos. A harmonia de imponderáveis. Recife: Editora Universitária UFPE; Alagoas: Edufal, 2009.
  • NITRINI, Sandra. O intertexto canônico em Avalovara. Estudos avançados, v. 24, n. 69. São Paulo, 2010.
  • PAES, José Paulo. Palavra feita vida. In: LINS, Osman. Nove, novena. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

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