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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Ronda

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.03.2021
1945
“Ronda” é a principal canção do repertório de Paulo Vanzolini (1924-2013), gravada por mais de 30 intérpretes, e uma das referências do cancioneiro da cidade de São Paulo. O compositor escreve a canção em 1945, período em que estuda de medicina, serve o Exército e inica sua vida na boemia. Em suas andanças noturnas por São Paulo, testemunha as h...

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“Ronda” é a principal canção do repertório de Paulo Vanzolini (1924-2013), gravada por mais de 30 intérpretes, e uma das referências do cancioneiro da cidade de São Paulo. O compositor escreve a canção em 1945, período em que estuda de medicina, serve o Exército e inica sua vida na boemia. Em suas andanças noturnas por São Paulo, testemunha as histórias que lhe servem de matéria-prima para sua obra, a exemplo do livro de poesia Tempos de Cabo (1981).

Sem dominar nenhum instrumento e sem conhecimento teórico de música, em seu processo de criação Vanzolini costuma cantarolar as melodias que cria e pede que músicos amigos as transponham para partituras. No caso de “Ronda”, a ajuda vem do pianista Túlio Tavares, irmão mais velho do maestro Mário Tavares (1928-2003).

“Uma coisa que sempre me aborreceu muito na noite foi a prostituição. ‘Ronda’ é sobre prostituição”, comenta Vanzolini. Ele conta que, enquanto patrulhava as ruas da zona do meretrício, viu uma mulher abrir a porta de um bar na avenida São João, espiar atentamente cada uma das mesas, como se estivesse à procura de alguém. A cena rende ao compositor um samba-canção de narrativa cinematográfica. Nele, uma solitária personagem feminina conta em primeira pessoa seu périplo pela noite paulistana na busca por seu amado, que ela supõe que estará bebendo e se divertindo com outras mulheres. O suspense se mantém inclusive no desfecho, que é a um só tempo ameaça e crime consumado. A palavra “sangue” no penúltimo verso sugere agressão e ferimento, mas não dissipa a dúvida sobre o destino dos protagonistas. Eis a letra:

De noite eu rondo a cidade

A te procurar, sem encontrar.

No meio de olhares espio

Em todos os bares – você não está.

Volto pra casa abatida, desencantada da vida,

O sonho alegria me dá, nele você está.

Ai, se eu tivesse quem bem me quisesse,

Esse alguém me diria:

“Desiste, essa busca é inútil" – eu não desistia.

Porém, com perfeita paciência, volto a te buscar

Hei de encontrar

Bebendo com outras mulheres,

Rolando um dadinho, jogando bilhar.

E nesse dia, então, vai dar na primeira edição:

Cena de sangue num bar da avenida São João.

Apesar dos poucos recursos musicais do compositor, a canção tem a harmonia bem construída, conforme analisam os musicólogos Zuza Homem de Mello (1933) e Jairo Severino no livro A canção no tempo:

‘Ronda’ tem a virtude de conquistar o ouvinte logo a partir das notas iniciais, o que se deve ao charme produzido pela descida de meio em meio tom, nas notas mi, mi bemol e ré, que recaem sobre as sílabas ‘da’, de ‘ci-da-de’, no primeiro verso, ‘rar’ e ‘trar’ das palavras ‘pro-cu-rar’ e ‘en-con-trar’, no segundo, respectivamente harmonizadas com acordes de lá menor com sétima, dó menor com lá no baixo e ré com sétima.

A canção ganha seu primeiro registro fonográfico em agosto de 1953, de maneira inusitada. Naquele ano, a cantora paulistana Inezita Barroso (1925-2015) recebe convite do selo RCA Victor para viajar ao Rio de Janeiro e gravar seu primeiro disco. Para essa estreia, a intérprete seleciona apenas uma música – a “Moda da pinga (Marvada pinga)”, do compositor Ochelsis Laureano (1909-1996) –, pois imagina tratar-se de um disco de acetato, formato que armazena uma única faixa.

Dentro do estúdio, Inezita descobre que o lançamento seria um 78 rotações, com uma canção de cada lado. Como a burocracia das gravadoras exige a autorização do(s) compositor(es) para o registro de uma música, quem a socorre é o amigo Paulo Vanzolini, que viaja até o Rio com a esposa para acompanhar Inezita naquela gravação. A intérprete, que já conhecia a canção, escolhe “Ronda” e recebe imediatamente a permissão do autor. Dessa maneira, os dois estreiam juntos em disco. No entanto, talvez por não ter tido tempo para ensaiar aquela nova faixa, ou então afoita para encerrar logo a gravação, Inezita comete alguns deslizes na letra e acaba trocando palavras dos versos da primeira parte da música. Ela canta:

No meio de olhares espio

Nas mesas dos bares – você não está.

Volto pra casa abatida, desenganada da vida,

No sonho eu vou descansar, nele você está.

Os músicos que acompanham a intérprete na gravação original são Abel Ferreira (1915-1980) na clarineta, Zé Menezes (1921-2014) no cavaquinho, Garoto (1915-1955) no violão-tenor, Dino Sete Cordas (1918-2006) no violão de sete cordas e Chiquinho do Acordeom (1928-1993).

Como o disco não desperta a atenção da crítica ou do público naquele momento, “Ronda” permanece desconhecida pelos anos seguintes, a não ser nos ambientes boêmios, onde é cantada pelos amigos do compositor.

Em 1967, ao lançar o disco-brinde Onze Sambas e uma Capoeira, dedicado ao repertório de Vanzolini, o publicitário e produtor Marcus Pereira seleciona “Ronda” para uma das faixas, a cargo da cantora Cláudia Moreno (1932). A gravação dá início ao sucesso da música, que nas duas décadas seguintes ganha versões expressivas nas vozes de Marlene (1922-2014), Nora Ney (1922-2003), Cauby Peixoto (1931-2016), Jair Rodrigues (1939-2014), Emílio Santiago (1946-2013), Jards Macalé (1943), Ângela Maria (1929), Carmen Costa (1920-2007), Premeditando o Breque e Maria Bethânia (1946). O registro consagrador é de 1977, com a calorosa interpretação de Márcia (1943), no álbum que a cantora batiza justamente de Ronda.

Em 1978, Caetano Veloso (1942) aproveita a melodia da frase final da música no encerramento de “Sampa”, composição de sua autoria dedicada a São Paulo. Vanzolini, que confessa não admirar o artista baiano, faz ressalvas à citação, que ele avalia como plágio: “Se foi homenagem, eu acho esquisito”.

Apesar do sucesso de “Ronda” e da projeção que ela deu ao restante de sua obra, Vanzolini diz, em várias entrevistas, não gostar da canção por considerá-la piegas. 

Fontes de pesquisa 3

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  • CALADO, Carlos. Paulo Vanzolini, o samba com a cara de São Paulo. Cliquemusic, São Paulo, 16 jan.2001. Disponível em: < http://cliquemusic.uol.com.br/materias/ver/paulo-vanzolini--o-samba-com-a-cara-de-sao-paulo >. Acesso em: 20 jul. 2015.
  • PEREIRA, Arley. Inezita Barroso: a história de uma brasileira. São Paulo: Editora 34, 2013. (Todos os cantos).
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. (Coleção Ouvido Musical).

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