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Madame Satã

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.05.2017
2002
Madame Satã, lançado em 20021, é o longa de estreia de Karim Ainöuz (1966), cineasta brasileiro radicado nos Estados Unidos. O longa marca o lançamento no cinema do ator baiano Lázaro Ramos (1978),  intérprete de Satã, tornando-o conhecido do grande público. O filme é distribuído pela Miramax e coproduzido pela Wild Bunch, produtora francesa, ta...

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Análise

Madame Satã, lançado em 20021, é o longa de estreia de Karim Ainöuz (1966), cineasta brasileiro radicado nos Estados Unidos. O longa marca o lançamento no cinema do ator baiano Lázaro Ramos (1978),  intérprete de Satã, tornando-o conhecido do grande público. O filme é distribuído pela Miramax e coproduzido pela Wild Bunch, produtora francesa, também responsável pela produção de Cidade de Deus (2002). Madame Satã é lançado em mais de 15 países.   

Para desenvolver o roteiro sobre o marginal negro e homossexual, João Francisco dos Santos, o Madame Satã, o cineasta faz pesquisa no Arquivo Nacional, em fontes jurídicas e conversas com pessoas que o conheceram nas cadeias e na Lapa, onde vivia e atuava.  Ainöuz também visita o túmulo da mãe de João Francisco no agreste pernambucano.  Dos depoimentos do cartunista Jaguar, que o conhece na época do Pasquim, de um ex-namorado e de colegas de malandragens, são construídos os personagens do filme. Exceto o protagonista, todos são fictícios.

A narrativa de Madame Satã centra-se no período de formação de João Francisco, início da década de 1930. O longa de Ainöuz acontece no ano de 1932, com João preso e o rosto desfigurado, para apresentar o cotidiano do malandro: a vida como negro e homossexual na boemia da Lapa, a relação familiar com uma prostituta [Marcélia Cartaxo (1963)] e outro homossexual [Flávio Bauraqui (1966)], a relação com o amante Renatinho [Fellipe Marques],  e o trabalho como assistente com a vedete a quem admira Josephine Baker (1906-1975) [Renata Sorrah (1947)]. Ao ver João dançando com suas roupas, a vedete o humilha. Em resposta, o malandro a agride, vai atrás de seus salários atrasados e foge.  Ao se ver perseguido pela polícia, pela acusação de ter roubado os seus antigos patrões, torna-se foragido. Renatinho, então, convence-o a se apresentar à polícia. Ao retornar da cadeia, descobre que o namorado morreu. Ele se alia a Amador, dono de um boteco na Lapa, e faz sua primeira apresentação. Após a segunda apresentação, é humilhado por um dos frequentadores, mata-o com dois tiros nas costas, e é novamente preso. O filme termina com João Francisco, depois ser solto em 1942, numa apresentação de carnaval, com a fantasia Madame Satã, inspirada no filme Madame Satan (1930), de Cecil B. de Mille (1881-1959), protagonizado pela atriz Kay Johnson (1904-1975).

O filme acentua dois traços da personalidade do malandro João Francisco: a homossexualidade e a agressividade. Tais características conduzem suas ações durante a narrativa. Ambas são armas para sua sobrevivência, por isso, nos momentos em que é humilhado, sua resposta o leva à prisão.

O início e o fim da obra simbolizam a transformação de João Francisco em Madame Satã. No primeiro plano, assiste-se ao rosto de João desfigurado na cadeia e, no último plano, à performance de Madame Satã. Fecha-se, assim, o percurso da personagem. O resultado é a composição intimista distante da biografia oficial, procurando expor as razões que o levam a construir a personagem mítica Madame Satã, que reina no bairro da Lapa da década de 1930. Assim, o longa  é uma ficção inspirada em fatos históricos que constrói, por meio de planos próximos e desfocados, a subjetividade do malandro em relação ao mundo que não o aceita.

A sequência depois da segunda apresentação de Satã, que o leva à prisão, é simbólica por acentuar a agressividade como resposta ao preconceito por sua orientação sexual. Ela é feita em planos próximos e com a câmera na mão, recurso padrão do longa. O início é um diálogo com o dono do bar, em que João se mostra feliz e otimista com o sucesso. Eles dançam e cantam felizes. Planos se intercalam com um cliente que observa de longe, impaciente para ser atendido. Alcoolizado, aproxima-se de João e começa a destratá-lo por ser negro e homossexual. Depois de ser chamado de “viado”, o rosto de João muda de feição e se torna mais agressivo, para, finalmente, responder aos berros: “ eu sou bicha por que eu quero e não deixo de ser homem por causa disso não.” Amador tenta apaziguar os ânimos e pede que Satã pense no espetáculo seguinte. Ambos se afastam. João vai para o camarim, retira a maquiagem em silêncio e decide responder à agressão. A câmera apresenta os dois personagens na rua. Assim que o homem é retirado por Amador, ouvimos, um samba em off cantado por Satã, que associa a ação presente com a apresentação anterior. João persegue seu detrator. Um plano apresenta os dois subindo uma viela da Lapa. A música cessa quando ouvimos os tiros do revólver de João. O homem cai. O discurso de João em defesa de sua sexualidade não impede que seu impulso agressivo se realize.

A recepção crítica de Madame Satã à época seu lançamento é positiva. Elogia a atuação de Lázaro Ramos como protagonista; a fotografia de Walter Carvalho (1947); a direção de arte de Marcos Pedroso (1965) na construção da atmosfera “escura e brilhante”; e o tratamento dado à personagem Satã, que causa simpatia e admiração no espectador. Daniel Caetano2 reconhece que os problemas e encantos dos personagens centrais, em vez de tratados como folclóricos ou ridículos, são humanos e comuns a quem é posto à margem.

Madame Satã recebe prêmios no Brasil e no exterior, como: o Prêmio Especial para primeiro longa-metragem para Karin Ainöuz e Prêmio Coral de melhor Direção de Arte, no Festival de Havana, Cuba (2002); Prêmio Colombo de Ouro de Melhor Filme; Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Biarritz, França (2002); prêmios de Melhor Diretor e de Melhor Ator pela Associação Paulista de Críticos de Arte (Apca) (2003); menção honrosa para o ator, no Festival Internacional de Cinema de São Paulo (2002), prêmios de Melhor Ator e Melhor Fotografia no Festival du Film de Mons, Bélgica (2003).

Notas

1 Em 1973 é lançado A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura (1939), filme inspirado na personagem de Madame Satã. No caso, a Rainha é um negro homossexual, interpretado por Milton Gonçalves (1934), chefe de uma quadrilha de homossexuais que domina o tráfico na região. Apesar das semelhanças, os filmes são distintos em relação ao estilo e à textura.

2 CAETANO, Daniel. Madame Satã, de Karim Aïnouz. Contracampo, 2002. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/43/madamesata.htm >. Acesso em: 22 set. 2015.

Fontes de pesquisa 7

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