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Ônibus 174

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.03.2021
2002
Ônibus 174 é o primeiro longa dirigido por José Padilha (1967), que já trabalha na produção de documentários, como Os Carvoeiros (2000), de Nigel Noble (1943). Ônibus 174  insere-se em um conjunto de filmes que, a partir dos anos 1990, voltam-se para a violência urbana, como Notícias de Uma Guerra Particular (1998/1999), de João Moreira Salles (...

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Ônibus 174 é o primeiro longa dirigido por José Padilha (1967), que já trabalha na produção de documentários, como Os Carvoeiros (2000), de Nigel Noble (1943). Ônibus 174  insere-se em um conjunto de filmes que, a partir dos anos 1990, voltam-se para a violência urbana, como Notícias de Uma Guerra Particular (1998/1999), de João Moreira Salles (1962) e Kátia Lund (1966). Debates surgidos depois que o documentário é exibido, como a relação da polícia com a grande imprensa, por exemplo, reaparecem nos filmes da Padilha, inspirando outros cineastas, como Bruno Barreto (1955) e seu Última Parada 174 (2008).

Com base em imagens de arquivo e entrevistas, Ônibus 174 (2002), retraça a história do sequestro do ônibus da linha Gávea – Central do Brasil, por Sandro do Nascimento (1978-2000), na tarde de 12 de junho de 2000. Armado, ele toma o ônibus e faz os passageiros de reféns. Cercado pela polícia, o veículo permanece parado por quase cinco horas na Avenida Jardim Botânico, até que, pouco antes das 19h, o sequestrador sai do ônibus, utilizando como escudo a passageira Geísa Firmo Gonçalves, que morre vítima de quatro tiros, o primeiro deles disparado pela polícia e os demais, pelo sequestrador. O criminoso morre asfixiado na viatura policial, a caminho da delegacia. O episódio foi transmitido ao vivo pela televisão, o que acaba por interferir no desenrolar dos acontecimentos.

O documentário tem duas narrativas entremeadas. Em primeiro lugar, Padilha serve-se da cronologia do sequestro como fio condutor, valendo-se para isso do material gravado pela televisão (Globo, Record e Bandeirantes) e das entrevistas realizadas com reféns e policiais. Depoimentos como o do antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, e de Rodrigo Pimentel1, ex-capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Essas fontes oferecem uma análise crítica da atuação da Polícia Militar (PM) no episódio, apontando falhas técnicas e desvelando o impacto de decisões políticas e midiáticas. Pimentel afirma, por exemplo, que um atirador de elite poderia ter executado Sandro do Nascimento logo no início do sequestro, mas seria desagradável para o telespectador ver um tiro na cabeça transmitido ao vivo – e isso causaria um impacto negativo na opinião pública.

A segunda narrativa é a da vida de Sandro do Nascimento, apresentada de modo não linear, com a ajuda de depoimentos de pessoas que conviveram com ele – a tia, a assistente social, a mãe postiça, o professor de capoeira, outros meninos de rua que cresceram a seu lado – fotografias, imagens em vídeo e notícias de jornal. Aos 6 anos, ele vê a mãe ser assassinada a facadas; aos 15, sobrevive ao caso conhecido como Chacina da Candelária, ação que vitima oito crianças e jovens que dormiam sob a marquise da igreja do centro do Rio2. Passa a infância na rua, cheirando cola e cocaína, praticando pequenos furtos, entrando e saindo de instituições para menores infratores e, mais tarde, da prisão. Algumas escolhas de Padilha para a montagem do documentário são importantes para o papel de Sandro dentro da narrativa. O uso de câmera lenta, minimiza o seu papel na violência do sequestro, trazendo a reflexão sobre sua trajetória. A trilha sonora escolhida, dá ao documentário uma estrutura dramática de suspense e é considerada pela crítica como um recurso apelativo.

O Sequestro do Ônibus 174 transfere Sandro do Nascimento da condição de marginalidade para a de protagonista. Para Luiz Eduardo Soares, o filme opõe a invisibilidade da infância de rua à extrema visibilidade que o sequestrador ganha dentro do ônibus, ecoando o que dissera para a mãe postiça: “vou ficar muito famoso”. A presença ostensiva das câmeras de televisão e fotográficas no cerco ao veículo é fundamental para isso. Em determinada altura, ouvimos uma das reféns, Janaína Lopes Neves (1977), narrar o momento em que o sequestrador pega seu batom e lhe pede para escrever mensagens nas janelas do ônibus. Imagens da TV a mostram escrevendo, de maneira espelhada, “ele vai matar geral”, sinal de uma espantosa consciência de que “todo mundo” a leria, conforme ela afirma no depoimento a Padilha. A cena dá ensejo para que os entrevistados comentem o uso que o sequestrador faz do aparelho midiático e a maneira como essa situação representa uma inversão em sua trajetória. Por quase cinco horas, reféns e algoz evoluem sobre uma linha tênue em que desempenho e vida encontram-se embaralhadas. É provável que o objetivo do sequestrador fosse menos o de escapar com vida – seria praticamente impossível, ele sabia – e mais o de controlar a própria imagem. Na esperança de sobreviverem, as reféns aceitam a mise-en-scène por ele imposta, desesperando-se e fingindo desesperar-se, a ponto de Janaína simular a própria morte, jogando-se no chão do ônibus – ela sobrevive ao sequestro.

Premiado como melhor documentário na Mostra de São Paulo (2002) e nos festivais do Rio de Janeiro (2002) e de Miami (2003), além de ter levado o Emmy Awards (2005) e os troféus da Anistia Internacional em Copenhagen (2003) e Roterdã (2003), Ônibus 174 estreou com grande impacto no Festival do Rio3 e, desde então, tem sido objeto de estudo, sobretudo nas áreas de cinema e comunicação social. Um dos temas de debate é a relação entre violência e espetáculo midiático e a passagem de Sandro do Nascimento da invisibilidade social para a visibilidade midiática extrema. a crítica Esther Hamburger afirma que “a sensação de romper com a invisibilidade que caracterizara sua vida, com a posição recorrente de vítima, testemunha de tragédias absurdas, estimula o menino viciado a desenvolver uma performance para as câmeras”4. Na avaliação das críticas Consuelo Lins e Claudia Mesquita, “no sequestro do ônibus 174, policiais, reféns e sequestrador parecem viver, interpretar e simular diante das câmeras de TV, tudo ao mesmo tempo, como se fosse uma reação imediata, orgânica, sensório-motora. Sofrem e simulam a dor que efetivamente sentem, ameaçam e simulam ameaçar, matam e simulam matar”5.

Ônibus 174 é um filme que estimula “a reflexão sobre o próprio ato de representar”6, oferecendo elementos que ajudam pensar situações em que a imagem midiática predomina sobre acontecimentos de vida e morte.

Notas

1 Pimentel foi entrevistado em Notícias de uma guerra particular (1999), de João Moreira Salles e Katia Lund. Em Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite II (2010), Pimentel aparece como figurante e é fonte de inspiração para o personagem Capitão Nascimento [Wagner Moura (1976)].

2 O episódio conhecido como “Chacina da Candelária” ocorreu na noite de 23 de julho de 1993. As vítimas que dormiam sob a marquise da igreja tinham entre 11 e 19 anos.

3 Cf. Documentário ‘Ônibus 174’ choca Rio BR ao relembrar tragédia. Folha on-line, São Paulo, 4 out. 2002. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/reuters/ult112u22513.shtml >. Acesso em: 9 nov. 2015.

4 HAMBURGER, Esther. Políticas da representação: ficção e documentário em Ônibus 174.MOURÃO, Maria Dora; LABAKI, Amir (Orgs.). O cinema do real. São Paulo: Cosac 7 Naify, 2014. p. 313.

5 LINS, Consuel; MESQUITA, Claudia. Filmar o real. Sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 47-48.

6 HAMBURGER, Esther, op. cit., p. 304.

Fontes de pesquisa 8

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  • DE BRITO E MELLO, Carlos. O espetáculo e a vida infame em Ônibus 174. ECO-Pós, Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, ago./dez. 2006. p. 139-153.
  • DOCUMENTÁRIO ‘Ônibus 174’ choca Rio BR ao relembrar tragédia”. Folha on-line, São Paulo, out. 2002. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/reuters/ult112u22513.shtml >. Acesso em: 9 de nov. 2015.
  • LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
  • NEGREIROS, Adriana. Entrevista com José Padilha. Revista Playboy, São Paulo, n. 398, março de 2008.
  • NODARI, Sandra. Ônibus 174: a Intertextualidade entre Cinema e Televisão. In: < http://www.utp.br/proppe/edcient/BibliotecaVirtual/MCL/Sandra%20Nodari/SNodari.pdf >. Acesso em: 9 nov. 2015.
  • NUNES DA SILVA, João. A construção dos personagens e representação da violência urbana nos documentários: O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas e Ônibus 174. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012.
  • PADILHA, José. Entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. São Paulo, 8 out. 2007. Disponível em: < http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/327/entrevistados/jose_padilha_2007.htm >. Acesso em: 9 nov. 2015.
  • ROCHA, Leonardo Coelho. O caso Ônibus 174: Entre o documentário e o telejornal”. 2004. Biblioteca on-line de ciências da comunicação. Disponível em: < http://www.bocc.ubi.pt/_listas/tematica.php?codtema=42 >. Acesso em: 02 jul. 2007.

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