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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Orfeu da Conceição – Trilha Sonora da Peça Musical

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.12.2016
1956
Além de selar o primeiro encontro entre a poesia de Vinícius de Moraes (1913-1980) e a música de Tom Jobim (1927-1994), o musical Orfeu da Conceição (1956) é considerado um dos precursores da bossa nova, movimento que propõe uma leitura modernizante do samba. A peça transporta o mito helênico de Orfeu e Eurídice para a favela carioca, pondo em e...

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Além de selar o primeiro encontro entre a poesia de Vinícius de Moraes (1913-1980) e a música de Tom Jobim (1927-1994), o musical Orfeu da Conceição (1956) é considerado um dos precursores da bossa nova, movimento que propõe uma leitura modernizante do samba. A peça transporta o mito helênico de Orfeu e Eurídice para a favela carioca, pondo em evidência a população do morro, sua fala, seus costumes e sua música. A lira grega é substituída pelo violão; a poesia órfica; pelo samba, e Hades, pelo clube carnavalesco Maiorais do Inferno. Com cenários de Oscar Niemeyer (1907-2012), direção de Léo Jusi (1930) e elenco composto por atores negros, Orfeu da Conceição inaugura uma interpretação que põe os negros e pobres em evidência, elegendo a música como sua manifestação mais autêntica.

Essa visão retoma os ideais do modernismo nacionalista dos anos 1920 e 1930, presentes na obra de Mário de Andrade (1893-1945), que procura a expressão da cultura brasileira nas manifestações musicais populares. Enquanto no primeiro modernismo a música portadora da nacionalidade provém do folclore, a ser retrabalhado por meio de processos eruditos, no modernismo bossa nova a música eleita como representativa de nossa cultura é a urbana, especialmente o samba, relido por meio de processos da moderna música popular.

Baseada nos padrões dos musicais da Broadway, nos quais diálogos alternam-se com números de dança e de música popular, a peça mescla passagens instrumentais a trechos cantados. No primeiro caso, destacam-se a ouverture, o número da macumba ou a “Valsa de Eurídice”, composta anos antes por Vinícius de Moraes para a filha, Suzana de Moraes, transformada em tema da protagonista. Já os trechos cantados, em sua maioria sambas, são registrados pela gravadora Odeon num LP lançado poucos dias após a estreia da peça. O disco conta com a participação de Luiz Bonfá (1922-2001) no violão e Roberto Paiva (1921-2014) nos vocais de todas as canções - um cantor de empostação convencional que contraria a modernidade do projeto. Além deles, coro e uma orquestra de 35 músicos regidos por Tom Jobim, a qual inclui uma base sinfônica (cordas, madeiras, metais), piano, bateria e percussão (pandeiro, tamborim, bumbo, cuíca e agogô).

Na estreia, o cronista musical Cláudio Murilo, do Correio da Manhã do Rio de Janeiro, critica a distância entre a música da peça e o samba de morro, caracterizado pela “maleabilidade, dolência e espírito de negro”[1]. A “falta de molho”, “de sal” e “de personalidade” da trilha é atribuída pelo crítico aos arranjos de Tom Jobim. A rítmica das escolas de samba também teria sido deturpada, por meio de uma “batucada acadêmica (no mau sentido)” no segundo ato. O mesmo julgamento é feito pelo crítico teatral Miécio Táti, para quem nem a música (que considera boa) nem as letras das canções são fiéis ao morro. Tais críticas revelam o debate suscitado pela peça num momento em que a música popular se torna um dos principais objetos dos debates nacionalistas. De um lado, os defensores da pureza e da autenticidade do samba, reunidos em torno da Revista da Música Popular, editada por Lúcio Rangel[2] (1914-1979) entre 1954 e 1956 e, de outro, os partidários da evolução da música popular e sua apropriação para a construção de uma linguagem musical nacional e moderna. Entre estes, figuram Tom Jobim, Vinícius de Moraes e o maestro Radamés Gnattali (1906-1988), ele próprio um modernizador do samba dos anos 1930, que escreve  nota elogiosa sobre a peça na imprensa.

De fato, o que se ouve nas canções da peça, gravadas no lado A do disco Odeon, é uma estilização do samba. A primeira faixa, “Um Nome de Mulher”, preserva o caráter do gênero por meio da batida do violão e da percussão característica, mas dele se afasta por conta das harmonias e da orquestração, que traz uma base de piano jazzística e sofisticados contracantos feitos pelas cordas e madeiras. O mesmo se pode dizer de “Mulher, Sempre Mulher” e “Lamento no Morro”, em que piano e violão mimetizam a batida do samba sobre acordes dissonantes. “Eu e meu Amor” procura mimetizar as composições características das escolas de samba por meio da batucada, dos vocais femininos (que fazem as vezes das pastoras) e da orquestra de metais, ao estilo de Pixinguinha (1897-1973). No final da gravação, contudo, o coro abandona o canto agudo e em uníssono, e, apoiado por vozes masculinas, dobra os acordes finais dos metais, numa nítida referência aos conjuntos vocais então em voga nos Estados Unidos. O mesmo tratamento coral é dado no final do samba-canção “Se Todos Fossem Iguais a Você”, faixa do disco que mais se aproxima da “música de boate” dos anos 1950.

No lado B, a “Ouverture” apresenta os temas dos principais personagens da peça, numa prefiguração sonora da trama. Após uma introdução orquestral imponente, na qual Jobim se vale de escalas modais[3] e cadências plagais[4] para se remeter ao ambiente helênico em que a peça se inspira, ouve-se a “Valsa de Eurídice” em solo de violão de Luiz Bonfá e pela orquestra. A abertura apresenta ainda os temas de Mira e Aristeu, antes de se encerrar com o samba “Lamento do Morro”, que surge de forma lírica nas cordas para se transformar em batucada, ao som da qual abrem-se as cortinas, revelando o morro, cenário da peça. Na mesma face, Vinícius de Moraes recita o monólogo de Orfeu, acompanhado pelo violão de Bonfá, que toca o tema de Eurídice.

A importância do disco, contudo, não se resume às polêmicas que ele suscita em torno da autenticidade ou da “jazzificação” do samba. Outra contribuição da trilha de Orfeu da Conceição é a coloquialidade das letras de Vinícius de Moraes, que encontra nas melodias de Jobim um veículo de espontaneidade, em que o canto imita a fala. Essa combinação, unida à econômica batida de violão de João Gilberto(1931) algum tempo mais tarde, é responsável pelo surgimento de um dos principais gêneros musicais brasileiros do século XX.

Notas
[1] MURILO, Claudio. A música de Orfeu da Conceição. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 06 out. 1956. p. 11.
[2] Ironicamente, Lúcio Rangel é responsável pela formação da dupla, apresentando Tom Jobim a  Vinicius de Moraes, que procurava um parceiro para a trilha de Orfeu da Conceição.
[3] Escalas modais: escalas de sete notas que se diferenciam das escalas tonais (maior e menor) em função da posição dos tons e semitons. Utilizadas na música ocidental desde a Idade Média, elas se inspiram nas escalas criadas pelos gregos antigos, chamadas modos, mas não correspondem exatamente a elas.
[4] Cadência plagal: chama-se de cadência uma sequência de notas ou acordes que, apresentada no final de uma frase, seção ou obra musical, define a tonalidade ou modo em que a peça é escrita. A cadência plagal caracteriza-se pela sucessão dos graus IV e I do tom ou modo (numa peça escrita em dó, por exemplo, a cadência plagal é formada pela sucessão dos acordes de fá e dó). 

Fontes de pesquisa 6

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  • DAMATTA, Gasparino. Orfeu da Conceição. Revista O Globo, Rio de Janeiro, p. 25-31, 3 nov. 1956.
  • DIAS, Fabiana Quintana e CARRASCO, Ney. Da ideia à criação de Vinicius de Moraes: uma análise da música original da peça ‘Orfeu da Conceição’ (1956). Revista Científica FAP, Curitiba, v.7, p. 99‐118, jan./ jun. 2011.
  • FAOUR, Rodrigo. Texto de encarte do CD Orfeu da Conceição, Edição Comemorativa dos 50 anos do primeiro álbum da parceira de Tom Jobim & Vinicius de Moraes, EMI, 2006.
  • MORAES, Vinícius de. Contracapa do LP Orfeu da Conceição, Odeon, 1956.
  • MURILO, Claudio. A música de Orfeu da Conceição. Correio de Manhã, Rio de Janeiro, 5 out. 1956. p. 11.
  • SANTOS, André Domingues dos. Cinco cantos de vanguarda: populares e eruditos em luta pela brasilidade moderna. (Doutorado em História Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

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