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Mosteiro de São Bento

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.11.2021
1590
O Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro é fundado, em 1590, pelos monges beneditinos Pedro Ferraz e João Porcalho, vindos de Salvador, Bahia. O eminente exemplar do barroco colonial brasileiro ocupa um dos quatro morros – Castelo, Santo Antônio, Conceição e São Bento – que marcam por séculos os limites da cidade de São Sebastião do Rio de Jane...

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O Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro é fundado, em 1590, pelos monges beneditinos Pedro Ferraz e João Porcalho, vindos de Salvador, Bahia. O eminente exemplar do barroco colonial brasileiro ocupa um dos quatro morros – Castelo, Santo Antônio, Conceição e São Bento – que marcam por séculos os limites da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A igreja de Nossa Senhora de Montserrat, construção principal do Mosteiro, está aberta ao público.

O engenheiro-mor português Francisco de Frias da Mesquita (ca.1578 - ca.1645) é o autor do projeto original, de 1617. Por ele são executados o frontispício da igreja e a ala sul do mosteiro (portaria). De formas geometrizadas e linhas retas, a fachada contém duas torres laterais encimadas por pirâmides quadrangulares. O desenho de Frias da Mesquita orienta a construção até 1668.

A partir de então, a direção das obras passa a ser de frei Bernardo de São Bento Corrêa de Souza (1624-1693). “Este incansável monge elaborou projeto para ampliação da igreja que Frias da Mesquita projetara para o mosteiro. Talvez seja mais correto dizer que a partir da igreja do engenheiro-mor fez uma igreja inteiramente nova”,1 afirma o arquiteto e professor Benedito Lima de Toledo. Frei Bernardo adapta a estrutura “nos moldes singelos da tradição quinhentista”2 para “ampliar a igreja e o mosteiro, acentuando-lhes a solidez e a monumentalidade”,3 como destaca Lucio Costa (1902-1998). Cabe a frei Bernardo de São Bento refazer, em 1669, a galilé – ambiente coberto, ao ar livre, entre a fachada e os portões da nave.  Além disso, acrescenta oito arcos laterais à nave de Frias da Mesquita, permitindo a construção de oito capelas e, por fim, concebe a sacristia.

Tendo em vista as dificuldades da edificação tal como planejada, frei Bernardo elabora um memorial de construção: Declaraçoins de Obras (1684). Autores como Dom Clemente Maria da Silva-Nigra4 e Benedito Lima de Toledo atestam  que esse memorial contém citações de tratadistas como o arquiteto e teórico de arquitetura italiano Sebastiano Serlio (1475-1554), e o engenheiro-mor e militar português Luís Serrão Pimentel (1613-1679), autor de Methodo Lusitanico de Desenhar Fortifícaçoens e Praças Regulares, & Irregulares, Fortes de Campanha, e Outras Obras Pertencentes à Architectura Militar, publicado em Lisboa em 1680.5 O rigor e a coerência entre as partes do Mosteiro de São Bento devem-se, em grande medida, ao texto de Declaraçoins de Obras que permite o prosseguimento da construção segundo o risco de frei Bernardo, mesmo após seu falecimento em 1693.

A ornamentação interna do Mosteiro de São Bento é executada, por dois contemporâneos de frei Bernardo: o escultor e entalhador português frei Domingos da Conceição da Silva (ca.1643-1718), e o pintor alemão Frei Ricardo do Pilar (ca.1635-1700).

A partir de 1669, frei Domingos é responsável por desenhar e esculpir a talha dourada da nave, das capelas, do arco-cruzeiro (que separa a capela-mor da nave) e os retábulos da capela-mor, renovados, posteriormente, pelo mestre Inácio Ferreira Pinto (1765-1828). As três portas principais da igreja de Nossa Senhora de Montserrat também são de autoria de frei Domingos, tal como as grades, balaústres e as esculturas de São Bento, da Virgem de Montserrat, de Santa Escolástica, imagens de Cristo e de outros santos que ocupam o interior da edificação. Frei Domingos dedica-se ao Mosteiro de São Bento até seu falecimento, deixando maquetes das talhas pelas quais se guiam auxiliares e sucessores como os entalhadores José da Conceição, Simão da Cunha, Alexandre Pereira e Caetano da Costa (responsáveis pela conclusão do entalhamento, em 1736). Desse modo, a riquíssima talha dourada segue a concepção original de frei Domingos, com sua profusão de elementos: de folhas, flores e rocalhas, passando por representações em baixo relevo de anjos, santos, papas e abades da ordem beneditina. Todos os ornatos e imagens entrelaçam-se sob o dinamismo das formas curvas, seguindo a caracterização plástica em voga do barroco.

Por sua vez, frei Ricardo do Pilar pinta os painéis do forro da capela-mor, tendo como tema a aparição de Nossa Senhora aos beneditinos Santo Ildefonso (605-667), Santo Anselmo (1033-1109) e Santo Alberto (1193/1206-1280). Também é de sua autoria o grande painel da sacristia Senhor dos Martírios (c.1690).

O claustro do Mosteiro é reconstruído pelo arquiteto e militar português José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765), com conclusão em 1755. Atribui-se a Mestre Valentim (ca.1745-1813) a autoria dos dois lampadários de prata da capela-mor.

É relevante o contraste entre o esplendor do interior e a sobriedade da parte externa do Mosteiro. Tal fato atesta que não há função estrutural nas talhas, nas esculturas de formas curvas que indicam movimento, ou mesmo nas colunas torcidas de madeira (tal como o barroco baldaquino da Basílica de São Pedro no Vaticano, de autoria do artista e arquiteto italiano Gian Lorenzo Bernini). A estrutura do edifício está desvinculada da ambiência barroca de seu interior. A exuberância da ornamentação reside no uso ostensivo do ouro, folheando a talha em madeira. O brilho do douramento, a diversidade de ornatos, a dramaticidade da luz escassa e indireta da igreja, promovem o êxtase emocional nos que vivenciam aquele ambiente barroco.

A ordem beneditina é notória pela erudição de seus monges, de modo que, em 1858, é fundado o Colégio de São Bento, que passa a dividir a colina com o Mosteiro. O Mosteiro de São Bento é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1952.

Notas
1 TOLEDO, Benedito Lima de. Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. Cotia: Ateliê Editorial, 2012. p.136.
2 COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995. p.478.
3 Idem, ibidem.
4 SILVA-NIGRA, Clemente Maria da, Dom. Três Artistas Beneditinos. Salvador: Tipografia Beneditina, 1950.
5 TOLEDO, Benedito Lima de. Op.Cit. p.137.

Fontes de pesquisa 8

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  • BARBOSA, Dom Marcos. O Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Agir, 1955.
  • BAZIN, Germain. A Arquitetura religiosa barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1956.
  • BAZIN, Germain. O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1963.
  • COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995.
  • LIMA DE TOLEDO, Benedito. Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. Cotia: Ateliê Editorial, 2012.
  • OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • SILVA-NIGRA, Clemente Maria da, Dom. Três artistas beneditinos. Salvador: Tipografia Beneditina, 1950.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.

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