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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Bicho de Sete Cabeças

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.04.2019
2000
Bicho de Sete Cabeças (2000) é um filme dirigido por Laís Bodanzky (1969). O primeiro longa-metragem da diretora é inspirado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno (1957-2008), lançado em 19901. A película é produzida em parceria com a Fabrica Cinema, centro de pesquisa em comunicação, mantido pelo Grupo Benetton, em Treviso,...

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Análise

Bicho de Sete Cabeças (2000) é um filme dirigido por Laís Bodanzky (1969). O primeiro longa-metragem da diretora é inspirado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno (1957-2008), lançado em 19901. A película é produzida em parceria com a Fabrica Cinema, centro de pesquisa em comunicação, mantido pelo Grupo Benetton, em Treviso, na Itália.

O filme apresenta a história de Neto, interpretado por Rodrigo Santoro (1975), um estudante que é internado em um hospital psiquiátrico pelo pai, Wilson, interpretado por Othon Bastos (1933), por ter encontrado um cigarro de maconha nos pertences do filho. Neto é um jovem de classe média baixa, habitante da cidade de São Paulo e inserido na cultura urbana do skate e da pichação. O pai desaprova o estilo de vida, os amigos e a namorada do filho. A relação dos dois é marcada por conflitos e violência. A intimidação física também é exercida pelo Estado: ao ser detido por pichar paredes, o jovem tem corpo e rosto pichados por policiais como forma de punição. Os abusos cometidos no sistema manicomial da época tornam-se cada vez mais brutais, e a narrativa ganha um ritmo angustiante.

A figura do pai rígido, conservador e violento representa a versão doméstica da violência institucional do manicômio. Neto nunca é ouvido ou compreendido por seu pai, que não consegue escutá-lo, nem se interessa por ele. A figura paterna autoritária é reforçada pelas convenções sociais e preconceitos que o personagem representa.

Os médicos tampouco escutam os apelos incessantes de Neto: ele afirma não ter problemas com drogas e confessa apenas fumar maconha. O manicômio é retratado como lugar abominável, marcado por corrupção e negligência médica. Neto implora em vão para que a família o tire daquele lugar. Ao sair, os efeitos dos medicamentos e dos eletrochoques constroem a imagem de um rapaz incapaz de dar continuidade à própria existência. Com o passar do tempo, ele melhora e começa a trabalhar como corretor de seguros. Durante uma festa, entretanto, o rapaz, atormentado pelas lembranças da instituição manicomial, quebra o banheiro da casa, e é internado novamente. As cenas de horror repetem-se entre medicamentos e dias na solitária, e o personagem torna-se cada vez mais desconectado de si mesmo.

À sucessão dos episódios da vida de Neto, o filme intercala a cena na qual Wilson lê a carta do filho:

Pai, as coisas ficam muito boas quando a gente esquece. Mas eu não esqueci o que você fez comigo. Eu não esqueci a sua covardia. Agora, você vai me ouvir. Estou te mostrando a porta da rua, para você sair sem eu te bater. Lembra de uma frase que você me disse uma vez? “Eu cheguei onde cheguei; quero ver onde você vai chegar”. Pois é: eu cheguei aqui. Aqui é o meu lugar. Você conseguiu, me fez menor que você. Seu mundo aí fora é grande demais para mim.

Ao tratar dos abusos do sistema manicomial no filme, Laís Bodansky afirma:

Não queria fazer uma ficção. Eu tinha medo de fazer um filme que se passasse nos anos 70 e que as pessoas fossem para casa felizes da vida imaginando que isso não acontece mais. Por isso, resolvi trazer o personagem para os anos 90, para cutucar o espectador, dar um alerta. Minha preocupação foi fazer com que o espectador saísse do cinema com vontade de mudar a realidade2.

O filme estreia no Festival Rio BR, em 2000, e ganha apresentações na 24ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no mesmo ano. Bicho de Sete cabeças alcança um público de cerca de quatrocentas mil pessoas e recebe diversos prêmios, entre eles o de melhor filme no Festival de Brasília e no Festival de Recife, e de melhor filme de diretor estreante, no Festival de Trieste.

Notas

1 Na obra, o autor denuncia a violência que sofre durante as internações em hospitais psiquiátricos. Em 2002, a venda do livro é proibida em território nacional, resultado de processo movido pela família do falecido psiquiatra Alô Ticolaut Guimarães, diretor do hospital Bom Retiro, na época em que Carrano é internado. Cf. MILANI, Robledo. “Bicho de 7 cabeças”. In Papo de cinema, 27 de fevereiro 2013./ Agência Estado. “Justiça mantém o “Canto dos Malditos” proibido. In. “Cultura”, 16 de agosto de 2002.

2 BODANZKY, Laís.  Choque estético. IstoÉ online, s.d. Disponivel em: < http://www.terra.com.br/istoetemp/1628/1628vermelhas.htm >. Acesso em: 8 jul. 2016.

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