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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 19.02.2020
1967
Após o sucesso comercial de À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964), o produtor Augusto Pereira1 propõe a José Mojica Marins (1936) um contrato de exclusividade para execução de cinco filmes com o personagem Zé do Caixão. O único filme a sair desse acordo é Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, continuação da película anterior e quarto longa-metrag...

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Análise

Após o sucesso comercial de À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964), o produtor Augusto Pereira1 propõe a José Mojica Marins (1936) um contrato de exclusividade para execução de cinco filmes com o personagem Zé do Caixão. O único filme a sair desse acordo é Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, continuação da película anterior e quarto longa-metragem de Mojica. O filme é realizado de maneira artesanal e independente, em estúdio improvisado em uma sinagoga abandonada no bairro do Brás, em São Paulo.

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver começa do ponto em que termina À Meia-Noite Levarei sua Alma. Os habitantes encontram o sádico agente funerário Josefel Zanatas gravemente ferido no mausoléu de suas vítimas. Depois de sua recuperação, Zé do Caixão, com auxílio do corcunda Bruno, continua a busca pela mulher ideal que lhe dê o filho perfeito. O personagem sequestra seis moças e as submete a uma série de provas, como ao ataque de aranhas-caranguejeiras enquanto dormem. Apenas uma delas, Márcia, não se assusta e é libertada. As demais são atiradas em um poço repleto de cobras. Uma das condenadas, Jandira, promete retornar e encarnar no cadáver do algoz. O agente funerário continua a procura por uma progenitora para seu filho e conhece Laura, filha de um coronel, recém-chegada à cidade. Zé do Caixão seduz e engravida a jovem, mas ela adoece e morre. O coronel Almendes, pai de Laura, decide vingar a morte da filha e, com a população local, persegue Zé do Caixão. Encurralado, o coveiro mergulha em um pântano e afoga-se.

O segundo longa da saga de Zé do Caixão sedimenta o personagem como vilão dentro das tradições do horror, com um ideário próprio, acompanhado de um fiel escudeiro corcunda e servil (nos moldes de Igor, assistente de Frankenstein, célebre figura de histórias de terror). Para o personagem, a criança é pura e, por isso, deve ser preservada e protegida. O problema é que crianças sofrem má influência e tornam-se seres ignorantes, supersticiosos e inferiores, tal qual os concidadãos de Zé do Caixão. Por considerar-se superior, o personagem quer gerar um filho perfeito, seguindo princípios eugênicos.

Mojica radicaliza o personagem em relação ao filme anterior e ressalta os atributos do psicopata sádico e violento. Zé do Caixão, caracterizado pela crueldade e pela satisfação perversa no planejamento do mal, entretanto, ganha tons melodramáticos. Com esse recurso, o diretor procura aproximá-lo do público, já conquistado por esse gênero consagrado. Mojica grava, em cores, uma longa cena de pesadelo, na qual explora o tom psicodélico no cromatismo e nos recursos cenográficos de encenação. Na cena, Zé recebe em seu quarto a visita de uma figura macabra e é arrastado até o cemitério da cidade, onde os mortos puxam-no para dentro de suas covas. Ele cai no inferno gelado, onde pedaços de corpos em movimento decoram as paredes, e seres bestiais espetam com tridentes e espancam com chicotes pessoas nuas cobertas de gelo. Ouvem-se apenas gritos. A imagem é banhada por luzes artificiais, como o verde, o azul e o vermelho. O cineasta filma a cena de maneira crua e direta, alternando planos gerais e detalhes. A partir desses recursos, evidencia o grotesco, o sangrento e o mau gosto, questionando padrões estéticos normativos.

A forma como filma, considerada como naïf pela imprensa da época, divide a crítica especializada entre os que vislumbram traços de genialidade e os que desabonam a produção.  Em O Estado de S. Paulo, o crítico Alfredo Sternheim (1942) aponta que o filme só serve para desprestigiar o cinema brasileiro perante o público e não consegue ser nem uma boa continuação da película predecessora. Rubens Francisco Stopa, no Shopping News, classifica o filme como péssimo: “o mau gosto e o primarismo imperam na fita toda”4. Entretanto, Rogério Sganzerla (1946-2004), no jornal Artes, vê no longa “o esplendor e a glória da mise-en-scène brasileira”5, e Salvyano Cavalcanti de Paiva (1923-2000), no Correio da Manhã, compara a “eclosão do cinema de Marins” à mesma dimensão do que se tem “como pacífico a respeito de Humberto Mauro”6.

O final do filme incomoda o Serviço de Censura de Diversões Públicas. Na versão original, Zé do Caixão, ao morrer, confirma a descrença em Deus. Para a película ser liberada, o personagem precisa redimir-se e declarar arrependimento e fé em Deus. A cena ganha uma nova fala2, escrita pela censura e inserida na dublagem. Uma cartela de texto também foi acrescida3 e cenas mais violentas foram cortadas. Finalizado em setembro de 1966, o filme é liberado e estreia em 13 de março de 1967 em São Paulo.

O sucesso de bilheteria consolida o personagem Zé do Caixão, que se promove na mídia e expande a carreira para a televisão e os quadrinhos.

Notas

1. Também conhecido como Augusto Sobrado ou Augusto de Cervantes.

2. “Deus, Deus... Sim, Deus é a Verdade! Eu creio em Tua força! Salvai-me! A cruz, a cruz, padre! A cruz, o símbolo do Filho...”.

3. “O homem só encontrará a verdade quando ele realmente quiser a verdade”.

4. BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Zé do Caixão: Maldito – a biografia. Rio de Janeiro: DarkSide, 2015, p. 231.

5. Ibidem, p. 235.

6. Ibidem, p. 234.

Fontes de pesquisa 6

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  • BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Zé do Caixão: Maldito – a biografia. Rio de Janeiro: DarkSide, 2015.
  • CARNEIRO, Gabriel. Entrevista com José Mojica Marins. Revista Zingu!, São Paulo, out. 2008. Disponível em: http://revistazingu.blogspot.com.br/2008/10/djmm-entrevista.html. Acesso em: 01 set. 2016
  • CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – Uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Multimeios) – Instituto de Artes da Universidade de Estadual de Campinas, Campinas, 2008.
  • FERREIRA, Jairo. Candeias. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000.
  • PUPPO, Eugenio (Org.). Horror no cinema brasileiro. São Paulo: Heco Produções, 2009.
  • PUPPO, Eugenio (Org.). José Mojica Marins: 50 anos de carreira. São Paulo: Heco Produções, 2007.

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