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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Revista Malasartes

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 21.07.2022
09.1975
06.1976
Embora de vida curta, com apenas três números - editados entre setembro de 1975 e junho de 1976 -, a revista Malasartes ocupa um lugar importante no panorama artístico brasileiro, em função de sua qualidade e, sobretudo, de seu caráter crítico e tom irreverente, já anunciado no título. Editada no Rio de Janeiro por um grupo de artistas e crítico...

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Embora de vida curta, com apenas três números - editados entre setembro de 1975 e junho de 1976 -, a revista Malasartes ocupa um lugar importante no panorama artístico brasileiro, em função de sua qualidade e, sobretudo, de seu caráter crítico e tom irreverente, já anunciado no título. Editada no Rio de Janeiro por um grupo de artistas e críticos de arte do Rio de Janeiro e de São Paulo, a publicação coloca seu foco de atenção nas artes visuais, embora contemple outras expressões, como poesia, cinema e música. O objetivo da revista é interferir no debate da época, ao analisar a situação da arte contemporânea brasileira e propor alternativas para os seus impasses. Trata-se de uma revista sobre "a política das artes", declara o editorial do primeiro número, mas que não pretende empunhar bandeiras ou anunciar movimentos, ao contrário de outras publicações. "Tradicionalmente, as revistas nas quais os artistas são maioria", diz o editorial, "defendem um movimento, um ismo. Vindos de formações diferentes, e com uma produção pessoal não menos diferente entre si, o que nos une é um consenso sobre o papel que a arte desempenha no nosso ambiente cultural e o que ela poderia desempenhar". Se o grupo que concebe e produz a revista é heterogêneo, os seus integrantes se aproximam do ponto de vista geracional, tendo vários deles atuado juntos em outros contextos. Luiz Paulo Baravelli (1942) e José Resende (1945), alunos de Wesley Duke Lee (1931-2010), participam da experiência da Escola Brasil:, em São Paulo. Rubens Gerchman (1942-2008)Carlos Vergara (1941) e Carlos Zilio (1944), por sua vez, integram a importante coletiva Nova Objetividade Brasileira (1967). Ronaldo Brito (1949), que estréia como crítico no semanário Opinião, em 1972, participa também, com Zilio e Resende, do jornal A Parte do Fogo. Compõem ainda o grupo de editores da Malasartes, os artistas Waltercio Caldas (1946) e Cildo Meireles (1948), além do poeta e letrista Bernardo de Vilhena (1949), integrante - com Chacal (1951), Ronaldo Bastos (1948) e outros - do grupo Nuvem Cigana, expressão importante do movimento da poesia marginal dos anos 1970.

Sob a responsabilidade do jornalista Mário Aratanha, a revista é impressa em tamanho 23 x 32 cm, off-set, preto-e-branco, com cerca de 40 páginas e uma tiragem de 5 mil exemplares. Em termos de conteúdo, a publicação traz artigos de autores nacionais e estrangeiros, a reedição de textos antigos, além de trabalhos de artistas contemporâneos, apresentados em geral na seção Exposição. O texto de Ronaldo Brito que abre o primeiro número, Análise do Circuito, esboça um ponto de vista crítico em relação ao sistema de arte vigente nos anos 1970 que, de certo modo, permite apreender o tom mais geral da publicação, na medida em que repercute em outros textos (no A Formação do Artista no Brasil, de José Resende, publicado no mesmo número) e também na seleção de obras e artistas a serem divulgados e discutidos. Trata-se de intervir no circuito de arte nacional, introduzindo novos nomes no debate e abrindo espaço para "uma produção teórica destinada a recolocar a arte brasileira e internacional como objeto de discussão em nosso ambiente cultural". Ampliar o circuito; abri-lo aos artistas contemporâneos; tirar do mercado o lugar do controle da produção e do gosto; produzir uma crítica rigorosa que permita ajustar os juízos e definir parâmetros; são esses os móveis do artigo de Ronaldo Brito, especificamente, e da publicação, em geral. O primeiro número traz ainda a tradução de uma análise de Terry Smith (ArtForum 1974) sobre a política cultural em países subdesenvolvidos; a republicação da Teoria do Não-Objeto, de Ferreira Gullar (1930-2016) - texto histórico sobre o neoconcretismo, publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 1959 -; trabalhos de Waltercio Caldas e Carlos Zilio; além de poemas de Antonio Carlos de Brito (1944), Roberto Schwarz (1938), Eudoro Augusto (1943) e Ana Cristina Cesar (1952-1983).

Os dois números posteriores seguem, em linhas gerais, o modelo do primeiro. A reedição, no segundo número, do ensaio Introdução a Volpi, de Mário Pedrosa (1900-1981), apresentado como "o mais importante crítico de arte brasileiro" falando sobre "um pintor-chave de nossa arte moderna", indica a escolha de possíveis parâmetros para a orientação da crítica no cenário nacional. O anseio pelo debate se faz presente pela edição de um artigo que polemiza com o de Joseph Kosuth (1945), publicado no número anterior, e por outro, do crítico de arte italiano Achile Bonito Oliva (1939), em vias de organizar uma grande exposição internacional no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Em lugar da poesia, nesse número figuram o cinema (artigo de Sérgio Santeiro) e música (texto do compositor contemporâneo Jaceguay Lins). O terceiro e último número da série (abril/maio/junho de 1976) abre-se à discussão do design e do happening (uma leitura contemporânea do design por Marc Le Bot, e um texto de Allan Kaprow, 1927). Traz ainda um esboço do livro de Ronaldo Brito sobre o neoconcretismo - Vértice e Ruptura, cuja primeira edição é de 1985 -, como faz no número anterior, quando também antecipa parte do livro A Querela do Brasil - publicado em 1982 -, de Carlos Zilio, além de trabalhos de Tunga (1952-2016)Mário Ishikawa (1944) e Chacal, e de depoimentos de diversos artistas sobre a sala experimental proposta pelo MAM/RJ, voltada para uma nova produção, "não abrigada pelas galerias, dada sua incompatibilidade com os interesses do mercado". Um dos destaques desse número é a publicação do Manifesto de 1975 contra o Salão Arte Agora I, organizado pelo crítico Roberto Pontual. Com isso, é possível afirmar que, do mesmo modo como abre o seu número inicial em tom de crítica ao circuito de arte, Malasartes encerra sua curta participação no cenário cultural propondo uma discussão sobre o sistema de arte nacional.

O surgimento de Malasartes em meados da década de 1970, ao lado de outras revistas especializadas em artes visuais, parece indicar um incremento dessas publicações. Podem ser lembradas, entre outras, a revista Vida das Artes (de maio de 1975 a junho de 1976), dirigida por José Roberto Teixeira Leite e editada também no Rio de Janeiro; a nova fase da Galeria de Arte Moderna, em 1976, relançada sob a direção de Alexandre Sávio e Duda Machado; a Arte Hoje (1977), editada no Rio de Janeiro por Wilson Coutinho e Milton Coelho da Graça; o relançamento da revista Módulo, que, embora dedicada à arquitetura, reserva espaço permanente para as artes plásticas. Ainda que diferenciadas em termos de projeto e orientação, e em geral com vidas curtas, as revistas criadas no período sinalizam a ampliação do número de profissionais envolvidos com as artes no Brasil e de um público não apenas consumidor de produtos artísticos, mas também interessado no aprimoramento da formação e da informação artísticas.

Fontes de pesquisa 4

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  • COSTA, Cacilda Teixeira da. Livros de arte no Brasil: edições patrocinadas. São Paulo: Itaú Cultural, 2000. 112 p., il. color., p&b.
  • HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. 5. ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.
  • MALASARTES, Rio de Janeiro, 3 números, setembro de 1975/ junho de 1976.
  • MORAIS, Frederico. Cronologia das artes plásticas no Rio de Janeiro: da Missão Artística Francesa à Geração 90: 1816-1994. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

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