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Terra em Transe

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.03.2017
1967
Considerada uma das principais obras do período, Terra em Transe (1967) é o filme em que Glauber Rocha (1939-1981) aprofunda o estudo da situação nacional. Põe em cena amplo leque de personagens: militantes, militares, intelectuais, políticos e empresários, todos envolvidos na disputa do poder. Cria a fictícia Eldorado, numa conjuntura pré-revol...

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Considerada uma das principais obras do período, Terra em Transe (1967) é o filme em que Glauber Rocha (1939-1981) aprofunda o estudo da situação nacional. Põe em cena amplo leque de personagens: militantes, militares, intelectuais, políticos e empresários, todos envolvidos na disputa do poder. Cria a fictícia Eldorado, numa conjuntura pré-revolucionária com reação golpista de um movimento de direita. Refere-se ao Brasil daquele momento e a países latino-americanos que viveram o ciclo das ditaduras militares.

O protagonista é Paulo Martins [Jardel Filho (1927-1983)], poeta e intelectual ferido de morte no momento do golpe de Estado que põe fim a seus sonhos revolucionários. Ele recapitula a vida política de Eldorado e reavalia a própria trajetória. De início, liga-se a Porfírio Diaz [Paulo Autran (1922-2007)]1, um líder carismático de direita, sempre vitorioso nos jogos de poder de Eldorado. Em dado momento, junta-se ao político emergente Vieira [José Lewgoy (1920-2003)], na província de Alecrim, onde conhece Sara.

A ação e o destino do protagonista ligam-se ao líder populista em ascensão. Trata-se de uma adesão incerta, atravessada por dúvidas quanto à vocação de Vieira e a si próprio. A decepção com o líder populista reconduz Paulo Martins ao decadentismo da elite de Eldorado.

Resgatado desse processo de queda por Sara, reintegra-se ao mundo de Vieira, articulando a campanha desse líder à presidência. O clímax da campanha é uma festa-comício, no terraço do palácio de Alecrim, aberto para a mata tropical. Nele, todos se misturam num desfile carnavalesco: trabalhadores, padres, políticos e empresários. A cena representa a desordenada e frágil frente populista. No meio disso tudo, Paulo mergulha num ceticismo profético.

Julio Fuentes, o magnata que ele e seus amigos haviam convencido a apoiar o líder populista Vieira, muda de lado depois dereceber uma visita do religioso Diaz. O religioso é financiado, por sua vez, pela multinacional Explint. Essa movimentação golpista terá seu ápice no desfile triunfal de Diaz, em carro aberto, carregando um crucifixo que remete à cena inicial do filme. Diaz, à frente de figuras carnavalescas e da cruz fincada na praia, evoca o momento da primeira missa em território recém descoberto.

No final, Terra em Transe completa o flashback e retorna à agonia de Paulo Martins, numa montagem que alterna a morte do poeta e a coroação de Diaz. Neste momento, impõe-se a força de um baile de máscaras grotescas, que anuncia a manutenção dos poderes dominantes.

Sara, que permanece junto ao poeta em sua agonia, exasperada, desafia-o: “o que prova sua morte?”. Ao que Paulo responde, no tom romântico que o acompanha durante todo o filme: “o triunfo da beleza e da justiça!”. Neste momento, em delírio, ele aparece com a coroa de Diaz em suas mãos, sugerindo que, mesclado a seu romantismo, está seu desejo de poder. Encerrando a rápida alternância entre a estrada e a coroação, a imagem final do triunfo de Diaz traz o discurso dele em close: “aprenderão! Botarei estas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização!”. Uma vez enterrada a utopia, voltamos à estrada para a última performance sacrificial de Paulo. Ele, com a metralhadora na mão, compõe a coreografia da impotência.

A crueza do diagnóstico já é suficiente para uma reação tensa por parte da intelectualidade retratada, mas Terra em Transe provoca, também, na forma artística com que conduz a autocrítica. A revisão histórica apresentada no flashback é feita no tom subjetivo de Paulo Martins. Transe histórico e transe subjetivo são indistinguíveis, uma vez que o monólogo interior delirante é a base do relato. Misto de lucidez e delírio, o filme oscila entre a adesão e a crítica ao personagem e à esquerda nele representada. Sobrepostas à causalidade racional dos acontecimentos, atuam forças mágicas. Forças intuídas por um Paulo Martins transtornado e por um Diaz triunfante, com direita e esquerda figurando como duplos no jogo de forças de Eldorado.

Como diz o crítico Ismail Xavier (1947), Terra em Transe é “polêmico até onde um filme pode ser”2. No lançamento, catalisa posições e torna-se um ponto de virada para toda a produção artística brasileira. Segundo os que viveram o momento, como conta, por exemplo, Caetano Veloso (1942), as posições se acirravam em todas as conversas e mesas de bar. A esquerda hegemonizada pelo Partido Comunistra Brasileiro (PCB) acusa Terra em Transe de “irracionalista”, e muitos condenam o que lhes parece uma incitação à luta armada (sem atentar para o sentido, tipicamente moderno, de uma narrativa que, ao mesmo tempo, incorpora, expõe e critica as contradições do protagonista). Ironicamente, cabe ao conservador Nelson Rodrigues (1912-1980), a compreensão da crítica ao populismo e ao acerto do tom de delírio subjetivo na representação de Eldorado (ou seja, do Brasil)3. Terra em Transe chega a ser proibido durante algumas semanas. Os artigos multiplicam-se na imprensa, ecoando um lendário debate sobre o filme no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro.

O grande efeito de Terra em transe, inclui a influência sobre os artistas do tropicalismo. Em Verdade Tropical, Caetano Veloso relata o impacto sofrido por ele. O critico Roberto Schwarz (1938), por sua vez,  insere a virada tropicalista dentro de um amplo painel interpretativo em “Cultura e Política, 1964-1969”.

No âmbito cinematográfico, a interpretação de Terra em Transe e seu contexto está exposta em Alegorias do Subdesenvolvimento, no qual Ismail Xavier analisa a obra e ressalta o estilo barroco de Glauber em sua plena potente articulação entre política e estética.  

Internacionalmente, o filme confirmou Glauber Rocha como um dos principais diretores do cinema moderno. No Festival de Cannes de 1967, Terra em Transe recebeu o prêmio da federação da crítica internacional (Fipresci). No ano seguinte, a revista L'Avant-Scène Cinema, dedicada à decupagem de obras de grande destaque, examina o filme com farta ilustração. Início da atenção internacional voltada para a análise e a interpretação da obra.

Notas
1 O nome do personagem que encarna as forças conservadoras que dominaram o país desde a época colonial é referência direta ao ditador que governou o México por quase 30 anos e fui deposto pela Revolução Mexicana de 1911-1920.
2 XAVIER, Ismail.O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001. p. 70.
3 RODRIGUES, Nelson. A opinião não tem opinião. In: Memórias: A menina sem estrela. São Paulo, Cia das Letras, 1993. p. 228-230. (Originalmente publicado no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 maio 1967.)

Fontes de pesquisa 18

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  • ALENCAR, Miriam; AUGUSTO, Sérgio; AVELLAR, José Carlos; AZEREDO, Ely; LEITE, Maurício Gomes; SHATOVSKY, Alberto. O filme em questão: Terra em transe. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 maio 1967. Disponível em < http://www.memoriacinebr.com.br/arquivo.asp?0070048I00301 >. Acesso em 04 jun 2016.
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  • JOHNSON, Randal. Cinema novo x 5: masters of contemporary brazilian film. Austin: University of Texas Press, 1984.
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  • PELLEGRINO, Hélio. Terra em transe. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 ago. 1981. (Com trechos de texto original do autor, de 1967).
  • PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, São paulo: Papirus, 1996.
  • ROCHA, Glauber. Terre en transe. L'Avant-Scène Cinéma, n. 77, p. 3-40, jan. 1968.
  • RODRIGUES, Nelson. Memórias: A menina sem estrela. São Paulo: Cia das Letras, 1993. p. 228-230 (Originalmente publicado no Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 maio 1967).
  • SCHWARZ, Roberto. Cultura e política: 1964-1968. In: ______. O pai de família e outros ensaios. São Paulo: Paz e Terra, 1978.
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  • VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. Companhia das Letras, 1997.
  • VENTURA, Tereza. A poética política de Glauber Rocha. Rio de Janeiro: Funarte, 2000.
  • XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal. São Paulo: Brasiliense, 1993.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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