Artigo da seção obras Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoLavoura Arcaica: 2001 | Luiz Fernando Carvalho
Filme

Análise

Lavoura Arcaica (2001) é o primeiro longa-metragem de Luiz Fernando Carvalho (1960). Com roteiro escrito pelo diretor, baseia-se na obra homônima do escritor Raduan Nassar (1935), publicada em 1975. O longa é rodado no distrito de São José das Três Ilhas, em Belmiro Braga, cidade mineira da Zona da Mata.

O filme centra a narrativa numa família de imigrantes libaneses no interior do país. Pedro [Leonardo Medeiros (1964)] é o filho mais velho encarregado por sua mãe [Juliana Carneiro da Cunha (1949)] de trazer de volta para casa André [Selton Mello (1972)], o quinto dos sete filhos da família. O reencontro entre os dois se dá em um pequeno quarto de pensão interiorana, no Brasil dos anos 1940.

O aparecimento do irmão leva André a relembrar os momentos que viveu com a família desde a infância e os motivos que o levaram a sair de casa: a moral rígida e repressiva do pai [Raul Cortez (1931-2006)] e a relação com uma mãe de ternura excessiva. Há ainda uma razão mais séria: a relação incestuosa entre André e sua irmã Ana [Simone Spoladore (1979)].

Para comemorar o retorno do filho pródigo para casa, a família realiza uma festa. Esta, no entanto, é o evento que marca a desagregação definitiva da família. Ana surge, dançando de forma lasciva e vulgar, usando as quinquilharias que André havia recolhido em seus encontros com prostitutas. Pedro vai em direção ao pai, para confessar o tabu do incesto cometido pelos irmãos. A violência irrompe, e o pai termina a dança da filha com um golpe de foice.

Há um momento representativo do elaborado diálogo entre imagem e som, uma das principais características do filme. Ele ocorre quando Pedro, depois de contar o impacto que a partida do irmão causou nos pais, fala sobre a transformação radical que se deu com Ana: “Foi só você partir, e ela se trancou em preces na capela, quando não anda perdida num lado mais recolhido do bosque, ou então escondida de um jeito estranho lá pros lados da casa velha”. Descobrimos, depois, que é nesta casa que André e Ana fazem sexo.

Nesse momento, as feições de André são tomadas pela angústia. Pedro termina a descrição do estado da irmã dizendo que “ninguém lá em casa consegue tirar nossa irmã do seu piedoso silêncio, ninguém em casa nos preocupa tanto...”.

A cena que entremeia este diálogo é a de Ana deitada, languidamente, sobre a palha da casa velha. A câmera devolve-nos para o quarto de pensão, mas parece esticar a imagem, distorcendo-a. Cortes rápidos, elemento pouco presente na encenação, surgem para acentuar a repentina explosão emocional que toma conta de André. Este, dominado pela fúria, grita com o irmão e se confessa epilético – um amaldiçoado.

Vemos tomadas intercaladas que ilustram as falas de André – seu encerramento numa casa pelo pai e pelos irmãos e o lamento das irmãs pela sua condição. Conforme as falas do rapaz aumentam em agressividade, as imagens vão se encadeando com velocidade crescente.

Notável é a profusão de sons que domina a trilha sonora neste momento. A voz de André se eleva cada vez mais, quando ouvimos o som de uma locomotiva em movimento. Ao utilizar este efeito sonoro nesta passagem, Luiz Fernando Carvalho associa a partida do filho pródigo e o incesto que o levou a sair de casa com o ruído que melhor representa o gesto da partida – o barulho do trem.

Para o crítico Renato Tardivo (1980), o som do trem é o signo que representa o retorno ao passado. Pedro, que traz para dentro do quarto da pensão todo o peso da família, tem sua chegada antecipada pelo som da máquina. No auge do desespero de André, despertado pela rememoração de Ana, mais uma vez o ruído da locomotiva retorna1.

Ainda sobre o som no filme, Luiz Zanin Oricchio nota que a trilha sonora, composta por Marco Antônio Guimarães (1948), é essencial. Ela estabelece um diálogo com a narrativa, colaborando com o desenvolvimento da história. Na sequência em que Ana aparece deitada sobre a palha, a melodia que ouvimos é tão sensual quanto os movimentos de seu corpo. A música de Lavoura Arcaica jamais é reiterativa. “Ela não se limita a reforçar um elemento já evidente pelas palavras ou pela imagem. Ela existe, não ao lado ou à parte, mas de maneira integrada a cena”2.

O crítico Ismail Xavier (1947) comenta o equilíbrio entre duas formas cinematográficas que, num primeiro momento, podem parecer distantes: o cinema clássico e o moderno. Para ele, Lavoura Arcaica é uma obra clássica na medida em que organiza os motivos dos personagens de forma clara, pela maneira como impõe sua diegese e pela continuidade da narrativa. Ao mesmo tempo, configura-se como cinema moderno pela maneira como trabalha “a duração da cena, o movimento do olhar, o andamento da fala, a impostação dos gestos tensos, com notável articulação entre o drama (a cena visível) e a narração em voz over, esta em disciplinada sintonia com a música de fundo”3.

Sobre a fotografia realizada pelo diretor Walter Carvalho (1947), a crítica Ana Carolina Roure Malta de Sá afirma que é dominada por contrastes entre luz e sombra. Para a pesquisadora, essa estratégia reflete as diferenças entre os personagens. “A interioridade sombria de André, a sua personalidade ambígua, o seu sofrimento também são metaforizados pela fotografia marcada pelo uso intenso de claro-escuro”4.

O filme recebe os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Fotografia e Melhor Música Original no Festival de Brasília de 2001. É premiado como melhor longa brasileiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2001 e com o prêmio especial do júri no Festival de Biarritz de 2002, França, além de melhor contribuição artística no Festival des Films du Monde de 2001 de Montreal, Canadá.

Notas

1 TARDIVO, Renato Cury; GUIMARÃES, Danilo Silva. Articulações entre o sensível e a linguagem em Lavoura arcaica. Paidéia, v. 20, n. 46, p. 75-76, mai./ago. 2010.

2 ORICCHIO, Luiz Zanin. Música ajuda a colocar a história em plano mítico. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 04 mar. 2002. Caderno 2, p. D-8.

3 XAVIER, Ismail. A trama das vozes em Lavoura Arcaica: a dicção do conflito e a da elegia. In: FABRIS, M.; GARCIA, W; CATANI, A. M. (Orgs.). Estudos de cinema SOCINE: ano VI. São Paulo: Nojosa, 2005. p. 14.

4 SÁ, Ana Carolina Roure Malta de. A linguagem poética de Walter Carvalho: um diálogo entre fotografia no cinema e artes plásticas. Dissertação (Mestrado em Arte e Cinema) – Faculdade de Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Universidade de Brasília, Brasília, 2014. p. 105-106.

Ficha Técnica da obra Lavoura Arcaica:

Fontes de pesquisa (23)

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  • CARRILHO, Arnaldo. A redenção do tempo. Cinemais, n. 29, p. 25-39, mai./jun. 2001.
  • CARRILHO, Arnaldo. Grandeza literária a serviço do bom cinema. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 out. 2001. Caderno 2. p. D-6.
  • CARVALHO, Luiz Fernando. Sobre o filme Lavoura arcaica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.
  • CARVALHO, Luiz Fernando. Imaginar é um ato de liberdade e cidadania. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 ago. 2001. Caderno 2. p. D-7.
  • CARVALHO, Walter. Fotografias de um filme. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • COELHO, Marcelo. ‘Lavoura’ e os indícios de uma obra-prima. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 nov. 2001. Ilustrada. p. E-8
  • CONTI, Mario Sergio. A lavoura do artista. Folha de S.Paulo, São Paulo, 09 nov. 2001. Ilustrada. p. E-1.
  • CONTI, Mario Sergio. Duração da fita afetou produção. Folha de S.Paulo, São Paulo, 09 nov. 2001. Ilustrada. p. E-1.
  • CONTI, Mario Sergio. Luiz Fernando Carvalho faz obra de arte. Folha de S.Paulo, São Paulo, 09 nov. 2001. Ilustrada. p. E-3.
  • COURI, Norma. Carvalho consegue sintonia perfeita com Nassar. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 03 mai. 2001. Caderno 2. p. D-3.
  • COUTO, José Geraldo. Dia-a-dia em fazenda vira laboratório para a equipe. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 set. 2001. Ilustrada. p. E-3.
  • COUTO, José Geraldo. Filme radicaliza linguagem. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 set. 2001. Ilustrada. p. E-3.
  • COUTO, José Geraldo; FELINTO, Marilene. Da semente ao fruto. Folha de S Paulo, São Paulo, 24 set. 2001. Ilustrada. p. E-1.
  • DIAS, Mauro. O mundo de Raduan Nassar em forma de música. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 04 mar. 2002. Caderno 2. p. D-8.
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  • LIMA, Felipe Crespo de. O diálogo entre o literário e o cinematográfico: uma análise do romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, e de sua adaptação fílmica, de Luiz Fernando Carvalho. Revista Palimpsesto, v. 10, n. 12, p. 1-18, 2011.
  • MATTOS, Carlos Alberto. Canadá vê ‘Lavoura’ antes do Brasil. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 ago. 2001. Caderno 2. p. D-7.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LAVOURA Arcaica. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67768/lavoura-arcaica>. Acesso em: 18 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7