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Expresso 2222

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.02.2017
1972
Gilberto Gil (1942) lança o LP Expresso 2222 em 1972, pela gravadora Philips, meses depois de retornar ao Brasil do exílio de dois anos e meio em Londres. Muitas canções são escritas durante a estada dele e do parceiro, Caetano Veloso (1942), na Europa: “Ele e Eu” e a faixa título são compostas em Londres; “O Sonho Acabou”, na Ilha de Glastonbur...

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Análise

Gilberto Gil (1942) lança o LP Expresso 2222 em 1972, pela gravadora Philips, meses depois de retornar ao Brasil do exílio de dois anos e meio em Londres. Muitas canções são escritas durante a estada dele e do parceiro, Caetano Veloso (1942), na Europa: “Ele e Eu” e a faixa título são compostas em Londres; “O Sonho Acabou”, na Ilha de Glastonbury; “Oriente”, na Ilha de Formentera, Espanha. Segundo Gil, o disco apresenta elementos explorados ao longo de sua carreira, como o uso da guitarra no samba [na versão de “Chiclete com Banana”, de Gordurinha (1922-1969) e Almira Castilho (1924-2011)] e no forró [na versão de “O Canto da Ema”, de Ayres Viana, Alventino Cavalcante (1920) e João do Vale (1933-1996)]. Tal característica é desenvolvida nos discos Refazenda (1975) e Refavela (1977). Pode, ainda, ser encontrada em canções mais introspectivas e reflexivas, como “Ele e Eu”, de inspiração semelhante a “Pai e Mãe”, e “Super-homem – A Canção”.

Expresso 2222 é gravado no Estúdio Eldorado, centro de São Paulo, um dos poucos que possui mesa com 16 canais de áudio. Guilherme Araújo (1936-2007), empresário de Gil, é o diretor de produção e interfere em alguns arranjos. Roberto Menescal (1937), então diretor artístico da Philips, é o coordenador de produção. Além de Gilberto Gil (voz e violão), participam da gravação: Lanny Gordin (1951) na guitarra, Tutty Moreno (1947) na bateria, Bruce Henri (1949) no baixo e Antonio Perna (1944) no piano e teclados. Por sugestão de Araújo e Menescal, Lanny Gordin toca baixo em “Chiclete Com Banana”, no lugar do norte-americano Bruce Henri, por ter mais intimidade com os ritmos brasileiros. Gal Costa (1945) canta em “Sai do Sereno” [de Onildo Almeida (1928)]. Tutty Moreno e Lanny Gordin participam da gravação de outros dois discos importantes lançados em 1972: Transa, de Caetano Veloso, e Jards Macalé, do artista Jards Macalé (1943).

O LP é gravado ao vivo (com os músicos tocando juntos) depois de muitos ensaios na casa de Gil. Nas três últimas músicas, “Expresso 2222”, “O Sonho Acabou” e “Oriente”, a banda sai de cena, com os arranjos reduzidos à voz e ao violão de Gilberto Gil. Na faixa título, são acrescidos alguns instrumentos de percussão. Nas três faixas, é perceptível  um refinamento técnico de Gil como violonista, decorrente da dedicação ao instrumento durante o exílio.

A volta ao Brasil leva o artista à música nordestina. Das nove faixas do repertório, quatro são desse cancioneiro. A primeira música do disco é a instrumental “Pipoca Moderna”, tocada pela banda de Pífanos de Caruaru, gravação que Gilberto Gil conhece ainda nos anos 1960. Em 1975, Caetano Veloso faz letra para a melodia grava-a no disco Joia (1975). Gilberto Gil inclui “Sai do Sereno” no disco quando ouve a música em uma versão do sanfoneiro paraibano Abdias dos Oito Baixos (1933-1991). O disco traz ainda “Chiclete Com Banana” e “O Canto da Ema”, ambas sucessos na voz de Jackson do Pandeiro (1919-1982). Gil considera essa referência fundamental na concepção de Expresso 2222.

As outras cinco faixas são de autoria do próprio Gil. “O Sonho Acabou” é composta com inspiração explícita na frase “The Dream is Over”, que o cantor inglês John Lennon (1940-1980) eterniza na canção “God”. O verso de Lennon transforma-se em uma espécie de lema, associado ao fim do sonho hippie. Gilberto Gil reflete sobre a afirmação do ídolo britânico e conversa sobre o assunto com Caetano Veloso ao longo de 1971. Ele escreve a letra em junho daquele ano e usa a frase de Lennon para fazer analogias com os quadrinhos Marvel (Dr. Silvana), o cinema do dirertor norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999), especialmente o filme Dr. Fantástico (1964), e as lembranças de sua memória afetiva quando distante do Brasil (melaço de cana). Diz a letra:

O Sonho Acabou Desmanchando
A Transa do Doutor Silvana
A Trama do Doutor Fantástico
E o Meu Melaço de Cana.

“Oriente” traz versos que saúdam o estilo hippie de cair na estrada: “

Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão.

A faixa “Expresso 2222” é sobre uma viagem de trem ao futuro que, segundo Gilberto Gil, é uma metáfora relacionada às experiências com drogas alucinógenas:

Começou a circular o Expresso 2222
Da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso
Pra depois do Ano 2000.

Na parte instrumental, o violão e os instrumentos de percussão emulam o som de um trem em movimento. “Back in Bahia” é um rock que rememora situações do cotidiano londrino e a saudade do Brasil no período do exílio:

Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando cabelo, nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair.

A capa do disco é desenvolvida pelo artista plástico Edinizio Ribeiro Primo (1945-1976). Assim como Transa (lançado por Caetano Veloso, no mesmo ano), apresenta design arrojado, com bordas circulares e dobráveis nas quatro faces. Quando abertas, deixam a capa com formato arredondado. Esta escolha encarece o projeto e dificulta seu êxito comercial.

Fonogramas

1. Pipoca Moderna - (Caetano Veloso e Sebastião Biano) - participação: Banda de Pífanos de Caruaru
2. Back In Bahia - (Gilberto Gil)
3. O Canto da Ema - (Alventino Cavalcanti, Aires Viana e João do Vale)
4. Chiclete Com Banana - (Gordurinha / Almira Castilho)
5. Ele e Eu -  (Gilberto Gil)
6. Sai do Sereno - (Onildo Almeida) - Participação: Gal Costa
7. Expresso 2222 - (Gilberto Gil)
8. O Sonho Acabou - (Gilberto Gil)
9. Oriente - (Gilberto Gil)

Fontes de pesquisa 3

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  • ALMEIDA, Hamilton. O Sonho Acabou, Gil Está Sabendo de Tudo. O Bondinho, número especial, São Paulo, n. 34, p. 16-33, 03 a 16 fev. 1972.
  • PRETO, Marcus. Trilho sem fim: inovador nos temas, na composição rítmica e no design, disco Expresso 2222 ganha reedição. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 ago. 2012. Ilustrada. p. E1.
  • VESPUCCI, Ricardo. Silêncio! Gravando! Até 1973, Tchau! O Bondinho, São Paulo, n. 41, p. 19-30, 11 a 25 mai. 1972.

Como citar

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