Artigo da seção obras O Beijo da Mulher Aranha

O Beijo da Mulher Aranha

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoO Beijo da Mulher Aranha: 1985 | Hector Babenco
Filme
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O Beijo da Mulher Aranha [cartaz] , ca. 1984
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

O Beijo da Mulher Aranha (1985) é o quarto filme de ficção de Hector Babenco (1946-2016), produzido entre 1984 e 1985, durante uma crise do cinema brasileiro. O encarecimento dos ingressos devido à alta inflação do período e a redução do número de espectadores colocam em xeque o modelo de financiamento estatal. Para ampliar o circuito de exibição, alguns filmes brasileiros começam a falar inglês e cineastas de ponta, como Babenco, buscam a carreira fora do Brasil.

O Beijo da Mulher Aranha almeja a transnacionalidade: o roteirista Leonard Schrader (1943), o coprodutor David Weisman (1942) e os dois atores principais são norte-americanos ou fazem carreira nos Estados Unidos, e a trama baseia-se no romance homônimo do argentino Manuel Puig (1932-1990). Além de aproveitar o sucesso internacional do livro, o filme aborda um tema polêmico na época, amplificado pelo retorno dos exilados políticos brasileiros a partir de 1978. Traz a contraposição entre os anseios libertários da sexualidade e a disciplina rigorosa requisitada na luta pela revolução social ou contra as ditaduras militares.

Em cena, dois homens de hábitos e personalidades distintos dividem a cela de uma prisão. Valentim [Raul Julia (1940-1994)] é um militante realista, fiel à luta contra a repressão e aos companheiros que se recusa a delatar. Molina [William Hurt (1950)] é um decorador de vitrines homossexual, preso por corrupção de menores. Não se interessa por política e encontra no cinema e em suas mulheres fatais a possibilidade de fuga de uma realidade opressora. Considerado fútil e alienado, Molina desconsidera os ataques verbais do companheiro de cela e insiste em descrever, com fantasia, um filme alemão do período da II Guerra Mundial.

Neste filme, uma cantora de cabaré, Leni [Sônia Braga (1950)], depara-se com a situação de Michele [Denise Dumont (1955)], uma jovem vendedora de cigarros assassinada por integrantes da Resistência Francesa. Intimidada, Leni aceita a proteção de Werner [Herson Capri (1952)], oficial do Exército nazista por quem se apaixona. Na tentativa de ajudar o alemão a combater a resistência, é alvejada por um tiro e morre nos braços do oficial.

A narrativa prende a atenção de Valentim e provoca nele uma aproximação afetiva com Molina, sujeito por meio do qual descobre outros tipos de sofrimento e de coerção. O relacionamento estreita-se quando Valentim, enfraquecido, suja-se durante uma crise intestinal. Molina limpa seu corpo e ajeita-o na cama. Valentim, então, dispõ-se a relatar o relacionamento com Marta, uma mulher burguesa (também Sonia Braga), que não compactua com seus compromissos políticos. Rememora o momento de sua prisão e confessa temer a morte.

Um encontro entre Molina e o diretor da prisão [José Lewgoy (1920-2003)] revela que o primeiro é um informante instalado na mesma cela de Valentim para dele extrair informações sobre a organização guerrilheira. Molina, no entanto, joga com as expectativas dos repressores e consegue comida de qualidade com a qual restabelece a saúde do companheiro.

Enquanto Valentim se fortalece, Molina conta a ele as lembranças de dois filmes. O de Leni e outro, no qual um náufrago é acolhido numa praia tropical por uma estranha mulher (Sonia Braga em um terceiro papel), presa a uma teia. As imagens do novo filme parecem fazer parte da cadeia sentimental de Valentim, pois é ele que aparece projetado no corpo do náufrago e que vislumbra Marta, a mulher amada, no corpo de aranha. A empatia entre os prisioneiros atinge o ponto máximo quando Molina se declara apaixonado e pede uma demonstração de amor e Valentim corresponde a esses anseios.

O diretor e o investigador do presídio, porém, conseguem um indulto para Molina como nova estratégia para a obtenção de informações comprometedoras. Libertado, ele carrega a obrigação de entregar uma mensagem para os companheiros de luta de Valentim. A composição dramática muda e cede lugar a um naturalismo mais bruto. O centro da cidade de São Paulo marca o reencontro de Molina com o ambiente de lazer, de trabalho e com os amigos, enquanto percebe a vigilância dos agentes da polícia.

O melodrama do filme alemão une-se à realidade de Molina. Como a heroína de cinema, telefona para os companheiros de Valentim e marca um encontro, durante o qual uma guerrilheira atira contra ele. O investigador despacha o corpo de Molina para um lixão e, no relatório policial, associa-o ao grupo revolucionário. Na prisão, Valentim volta a ser vítima de tortura e tem delírios com Marta retirando-o da prisão e conduzindo-o de barco para a liberdade.

Esse arremate dramático, desagrada alguns críticos. Néstor Perlongher (1949-1992) interpreta-o como destituído de politização, pois o predomínio do “melodrama sentimental da homossexualidade sobre a tragédia épica da guerra [política]” conduz a uma ideia de “sacrifício”, uma espécie de “martiriológio em prol da revolução”1. Já Liliana Marta Fernandez questiona “a visão mitificada da realidade” na qual “não somos como somos mas como nos querem ver”: a “bicha louca em extinção” e o guerrilheiro “troglodita barbado”, imagens norte-americanas de nós, latino-americanos2.

Para a maioria dos críticos, o viés político e a bandeira nacionalista carecem de importância. A resenha jornalística elogia o profissionalismo na produção, o controle da narrativa, a emoção em doses acertadas e o elenco3 do filme. O lançamento no Brasil reproduz o marketing de produções norte-americanas. Promove Sonia Braga como estrela de primeira linha e traz William Hurt para uma entrevista coletiva.

É conveniente destacar as dimensões humanas e estéticas que O Beijo da Mulher Aranha propõe. Uma aguda sensibilidade capta a homoafetividade com a mesma força com que descreve a brutal repressão política e a tortura. Maria Lourdes Cortés, salienta que o uso de “contrapontos entre música e imagem”, “a mesma atriz para três personagens”, mais a proposta de “paródia e carnavalização”, criam uma “ambiguidade textual” que faz com que o filme, à maneira de Molina e do próprio romance original, “se mova entre o engano e a mentira, entre as luzes e as sombras”4.

A a mistura de pragmatismo comercial e inquietação artística produz resultados. William Hurt leva o Oscar de melhor ator, depois de premiado em Cannes e de dividir com Raul Julia o prêmio de interpretação pela Associação de Críticos de Los Angeles. O filme conquista o público no Brasil e no exterior e ganha prêmios nos festivais de Oslo, Tóquio e Huelva.

Notas
1 PERLONGHER, Néstor. O sexo da aranha. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 abr. 1986. Folhetim, p. 4-5.
2 FERNANDEZ, Liliana Marta. Os dois “beijos”. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 abr. 1986. Folhetim, p. 6-8.
3 Ver NAZARIO, Luiz. Lembranças do cinema. Caderno de Crítica, Rio de Janeiro, n.1, p. 13-15, maio 1986, e também PEREIRA, Edmar. Duo de descontentes. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n.45, p. 76-78, mar. 1985.
4 CORTÉS, Maria Lourdes. El espejo roto de la pantalla: narrativa del boom y cine latinoamericano. Cinémas

Ficha Técnica da obra O Beijo da Mulher Aranha:

Representação (1)

Midias (1)

O Beijo da Mulher Aranha (1985) Direção: Hector Babenco
Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (6)

  • CORTÉS, Maria Lourdes. El espejo roto de la pantalla: narrativa del boom y cine latinoamericano. Cinémas d'Amérique Latine, Toulouse, n.6, p. 163-171, 1998.
  • EDUARDO,Cléber. Diretores transnacionais latino-americanos (1985-2007). In: BAPTISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando (Orgs.). Cinema mundial contemporâneo. Campinas: Papirus, 2008. p. 193-211
  • FERNANDEZ, Liliana Marta. Os dois “beijos”. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 abr. 1986. Folhetim. p. 6-8.
  • NAZARIO, Luiz. Lembranças do cinema. Caderno de Crítica, Rio de Janeiro, n.1, p. 13-15, maio 1986.
  • PEREIRA, Edmar. Duo de descontentes. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n.45, p. 76-78, mar. 1985.
  • PERLONGHER, Néstor. O sexo da aranha. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 abr. 1986. Folhetim. p. 4-5.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Beijo da Mulher Aranha. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67646/o-beijo-da-mulher-aranha>. Acesso em: 16 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7