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Literatura

Galvez, Imperador do Acre

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.08.2016
1976
Primeiro romance do escritor amazonense Márcio Souza (1946), Galvez, Imperador do Acre é publicado em 1976 pela Fundação Cultural do Estado do Amazonas. Trata-se de um folhetim histórico-farsesco baseado na vida de Luis Gálvez Rodríguez de Arias (1864-1935), aventureiro espanhol que se envolveu com as disputas em torno da posse do território do ...

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Primeiro romance do escritor amazonense Márcio Souza (1946), Galvez, Imperador do Acre é publicado em 1976 pela Fundação Cultural do Estado do Amazonas. Trata-se de um folhetim histórico-farsesco baseado na vida de Luis Gálvez Rodríguez de Arias (1864-1935), aventureiro espanhol que se envolveu com as disputas em torno da posse do território do Acre, no final do século XIX. Originalmente concebido como roteiro de cinema, Galvez é resultado de um longo processo de elaboração, que começa na segunda metade dos anos 1960. O livro tem diversas versões até ser finalmente lançado em 1976, bem distante do formato original.

Desdobramento de pesquisas sobre a cultura e o passado da região amazônica, Galvez, Imperador do Acre nasce de um projeto literário disposto a inscrever a ficção amazonense no mapa da modernidade artística brasileira. Para tanto, Márcio Souza alia a revisão crítica da historiografia da Amazônia à busca por novas formas narrativas. Influenciado pelas vanguardas dos anos 1960 e 1970, Galvez, Imperador do Acre envereda pela paródia, alegoria e sátira. Por isso, dialoga com a tradição do romance histórico nacional e com as experiências formais do modernismo paulista – em especial, com a obra de Oswald de Andrade (1890-1954), autor referência para uma ampla gama de manifestações artísticas.

O livro narra o envolvimento de Luis Gálvez Rodríguez de Arias nos conflitos que culminaram com a anexação do Acre ao Brasil – até então uma região sem fronteiras definidas, cobiçada por brasileiros, bolivianos e norte-americanos. Nascido na cidade de Cádiz, em 1864, filho de um militar da Marinha espanhola, Galvez emigra para o Brasil no final do século XIX. Passa pelo Rio de Janeiro e se fixa em Belém, em 1897, no apogeu do ciclo da borracha.

A abertura do romance é feita por um “narrador-editor” que afirma ter encontrado os manuscritos do livro num sebo parisiense, em 1973. Interessado pelas sandices narradas, ele decide editar e publicar o volume. No momento em que escreve suas memórias, Galvez é um idoso que recompõe os caminhos de sua vida no Velho e no Novo Mundo.

Em Belém, Galvez envolve-se com um grupo de conspiradores brasileiros, que formam o chamado “Comitê de Defesa do Acre”. Dispõe-se a colaborar com os conspiradores, furtando um documento secreto do governo boliviano. A partir daí, precipita-se pela aventura que o levará à selva e ao decreto que institui o Império do Acre.

Durante a narrativa, o leitor saboreia os episódios farsescos protagonizados por Galvez, e toma contato com a curiosa fauna humana da belle époque amazônica, a qual circula pelo livro num clima de festa e orgia carnavalesca, à maneira de Oswald de Andrade. Ao fim da aventura, Galvez é destituído do poder por militares e seringalistas brasileiros, incomodados com os “excessos” de seu reinado.

A estrutura narrativa de Galvez, Imperador do Acre não segue um roteiro cronológico predeterminado. À maneira de romances como Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), o relato do anti-herói espanhol é dividido em pequenos fragmentos. O fluxo narrativo é recortado por digressões biográficas, por cenas desprendidas do centro de interesse da ação e por discursos estranhos à voz em primeira pessoa do narrador – textos publicitários, ofícios, matérias de jornal, relatos etnográficos, trechos de obras literárias e óperas etc., inscritos diretamente em suas páginas.


Quando publicado, Galvez, Imperador do Acre gerou escândalo e manifestações da elite amazonense, que pleiteou sua interdição. Ainda assim, o livro se impôs, conquistando adesão da crítica e dos leitores; ganhou traduções e colocou a ficção amazonense no mapa da modernidade literária dos 1970.

Em texto de 1979, o crítico Antonio Candido (1918) refere-se ao livro de Márcio Souza como uma “anti-saga desmistificadora dos aventureiros da Amazônia”1. Sugere que o tratamento dado à epopeia de Galvez aproxima-o do picaresco, pois vai na contramão da expectativa heroicizante das sagas, que procuram consagrar positivamente seus protagonistas. A postura crítica do autor diante das visões redutoras sobre a realidade amazônica traduz o espírito engajado da literatura brasileira da época.

O crítico Davi Arrigucci Jr. (1943) assinala o parentesco do romance com a obra de Oswald de Andrade, sinalizando a retomada de uma “vertente oswaldiana do humor”2, influência que se traduz na perspectiva satírica, na paródia aos gêneros literários e no clima de carnavalização.

A contribuição de Galvez, Imperador do Acre para a história da literatura brasileira pode ser avaliada de duas maneiras. A primeira diz respeito à atualização da literatura amazonense, que o romance promove pela via das vanguardas dos anos 1970. A segunda, refere-se ao diálogo crítico que o livro mantém com a tradição voltada à representação artística da Amazônia. Nesse sentido, a perspectiva de Márcio Souza se contrapõe à visão do maravilhoso dos primeiros cronistas, à hipérbole romântica e ao exotismo regionalista cultivados ao longo dos séculos por diferentes autores.

Notas
1 CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006, p. 241-260
2 ARRIGUCCI JR., Davi. Jornal, realismo, alegoria: o romance brasileiro recente. In: Achados e perdidos: ensaios de crítica. São Paulo: Polis, 1979. p. 79-115.

Fontes de pesquisa 15

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  • ARRIGUCCI JR., Davi. Jornal, realismo, alegoria: o romance brasileiro recente. In: ______. Achados e Perdidos: ensaios de crítica. São Paulo: Polis, 1979. p. 79-115.
  • CAMPOS, Haroldo de Campos. Miramar na mira. In: Memórias sentimentais de João Miramar. Posfácio. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
  • CAMPOS, Haroldo de. Serafim: um grande não-livro. In: Serafim Ponte Grande. Prefácio. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
  • CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: ______. A Educação pela Noite. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006. p. 241-260.
  • CANDIDO, Antonio. Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade. In: ______. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970. p. 57-87.
  • CANDIDO, Antonio. Oswald Viajante. In: ______. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970. p. 51-56.
  • DIMAS, Antônio. Márcio Souza: Literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1982.
  • FAVARETTO, Celso. Tropicália: alegoria alegria. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
  • HARDMAN, Francisco Foot. A Amazônia como voragem da história: impasses de uma representação literária. Estudos de literatura brasileira contemporânea, Brasília, n. 29, p. 141-152, 2007.
  • LIMA, Simone de Souza. A literatura da Amazônia em foco: Ficção e História na obra de Márcio Souza. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
  • PELLEGRINI, Tânia. Gavetas vazias: ficção e política nos anos 1970. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos: Mercado de Letras, 1996.
  • SOUZA, Márcio. A expressão amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo. São Paulo: Alfa-Omega, 1978.
  • SOUZA, Márcio. Entrevista de Márcio Souza ao Jornal Rascunho. Curitiba, set. 2011. Disponível em: < http://rascunho.gazetadopovo.com.br/marcio-souza/ >.
  • SOUZA, Márcio. Entrevista de Márcio Souza ao Programa Roda Viva/TV Cultura. São Paulo, 04 jun. 1990. Disponível em: < http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/457/entrevistados/marcio_souza_1990.htm >.
  • SOUZA, Márcio. Galvez, Imperador do Acre. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.

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