Artigo da seção obras Cinema, Aspirinas e Urubus

Cinema, Aspirinas e Urubus

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoCinema, Aspirinas e Urubus: 2005 | Marcelo Gomes
Filme

Primeiro longa-metragem do pernambucano Marcelo Gomes (1963), Cinema Aspirinas e Urubus faz parte da chamada geração árido movie, responsável pela renovação do cinema pernambucano nos anos 1990 e começo dos anos 2000. O longa é um road movie1 inspirado nas memórias do tio-avô do diretor, Ranulpho Gomes, e retrata o encontro improvável entre dois personagens de origens distintas no sertão. Além de Gomes, o roteiro é escrito por Paulo Caldas (1964) e Karim Aïnouz (1966), também produtor associado, nomes destacados dessa geração do cinema nordestino. Filmado em Patos, Vila dos Picotes, Pocinhos e Cabaceiras, no sertão da Paraíba, o longa é uma coprodução da pernambucana REC Produtores Associados e da paulista Dezenove Som e Imagens.

A história de Cinema Aspirinas e Urubus passa-se em 1942. Johann [Peter Ketnath (1974)], um alemão que foge para o Brasil antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, viaja pelo sertão da Paraíba, em direção a Triunfo, em Pernambuco, promovendo um novo medicamento, o analgésico Aspirina, “o fim de todos os males”. Para divulgar a droga, monta uma tela na qual projeta filmes turísticos e de propaganda. Em seu caminhão, dá caronas a diferentes pessoas por onde passa. Uma delas é Ranulpho [João Miguel (1970)], morador de uma pequena vila, que deseja sair do sertão e buscar uma vida melhor na capital Rio de Janeiro. Johann contrata Ranulpho como seu ajudante e se tornam amigos. Em Triunfo, após vender todo seu lote de aspirinas a um comerciante local, Johann recebe um comunicado oficial dizendo que o Brasil entrou em guerra com a Alemanha, dissolveu a diretoria da empresa fabricante de medicamentos, a Bayer, e que ele deve voltar para a Alemanha ou se apresentar a um campo de concentração em território brasileiro. Johann deixa com Ranulpho o caminhão para que ele siga seu caminho e parte num trem em direção a Amazônia, para trabalhar na produção de borracha para os aliados.

O longa busca quebrar estereótipos de cenário e personagens. Em vez do sertão como local de  miséria, ou de histórias de cangaceiros, Gomes mostra um lugar assolado pela seca, mas chama a atenção para um sertão intimista e receptivo, a partir da perspectiva do estrangeiro. Cinema Aspirinas e Urubus é também retrato da solidão de seus personagens. Suas origens distintas colocam-nos em lugares isolados no mundo, sem um par que entenda seus conflitos. Gomes constrói seu filme em planos que valorizam apenas um personagem por vez, raramente compondo planos conjuntos, como quando Johann anuncia que foi picado por uma cobra. Depois de ele gritar, a câmera vira para sua direção e centra nele. Os outros personagens obstruem a visão da câmera e ela, prontamente, corrige o foco para Johann. Cada vez que um personagem fala, a câmera é dirigida em sua direção, com poucos cortes. Estão, quase sempre, sós. O mesmo se dá na construção dos diálogos. Os momentos em que refletem sobre suas vidas são construídos quase como monólogos. Um dos personagens discorre longamente, enquanto o outro apenas ouve, sem intervir.

Marcelo Gomes faz de Cinema Aspirinas e Urubus um filme lacônico em que a economia de vozes constrói o ritmo da narrativa. Isto enfatiza a solidão dos personagens e marca um tempo dilatado e contemplativo. O mascate alemão viaja por um lugar que lhe é desconhecido, aspecto evidenciado logo na primeira cena do filme, que já estabelece a cor do longa. O filme abre com a tela toda em branco, só com o barulho do caminhão na estrada. Aos poucos, a imagem vai ganhando cor, vê-se Johann no retrovisor do caminhão e um pedaço do caminho. Só depois o cenário aparece. O filme explora a cor como elemento de significação na fotografia, em tons terrosos, quase monocromático, com céu esbranquiçado. As cenas diurnas têm luz estourada e claridade intensa, que cega e oprime os personagens, sem sombras, nos moldes do que o Cinema Novo apresentou nos anos 1960, em filmes como Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos (1928). No rádio, toca Serra da Boa Esperança (1937), de Lamartine Babo (1904-1963), na voz de Francisco Alves (1898-1952), contraposta a uma paisagem árida, em que há apenas areia. A câmera na mão acompanha Johann. Depois da canção, apenas o silêncio da estrada. A viagem já assinala que, para se conhecerem, os personagens precisam sair de seu lugar de origem.

Cinema Aspirinas e Urubus estreia em maio de 2005, dentro da mostra Un Certain Regard, do 58º Festival de Cannes, onde ganha o Prêmio da Educação Nacional, concedido pelo Ministério da Educação da França. No Brasil, o filme é exibido no Festival do Rio, levando o prêmio especial do júri e de ator (João Miguel)]. Na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa se consagra como o primeiro brasileiro a ganhar na categoria de Melhor Ficção. Também recebe o prêmio da crítica e um especial, do júri, para João Miguel2. O filme é lançado em 11 de novembro de 2005, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Recife, levando pouco mais de 105 mil espectadores aos cinemas. Em 2006, é escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na disputa pelo Oscar.

O filme tem recepção positiva por parte da crítica. José Geraldo Couto (1957), na Folha de S.Paulo, aponta para a destreza no retrato do sertão: “Desde ‘Vidas Secas’, não se via num filme realista brasileiro (Glauber é outra história) ambientado no sertão com  tamanha adequação entre estética e tema, entre ação narrada e modo de narrar”3. Por sua vez, na revista digital Contracampo, Eduardo Valente (1975) elogia a aparente simplicidade e a crença do cineasta naquilo que narra. Por conta disso, vê o filme com um lugar especial na história do cinema brasileiro. Escreve ele: “A melhor maneira de descrever seu impacto é afirmar que Cinema, Aspirinas e Urubus está fadado a ser um filme-paradigma no cinema brasileiro recente. Divisor de águas a partir do qual uma determinada condescendência não pode ser mais permitida”4.

Notas

1. A história dos filmes do gênero road movie ou filme de estrada se passa durante uma viagem pela estrada. Os conflitos surgem e são resolvidos a medida que a viagem avança.
2. ARANTES, Silvana. “Urubus” se torna primeiro brasileiro a vencer a Mostra. Folha de S.Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005. Ilustrada.
3. COUTO, José Geraldo. ‘Road movie’ sertanejo celebra a diferença. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 nov. 2005. Ilustrada, p. E4.
4. VALENTE, Eduardo. O primado da ficção. In: Contracampo, Rio de Janeiro, nº 75/76, nov. 2005. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/75/cinemaaspirinas.htm. Acesso em: 15out. 2015.

Ficha Técnica da obra Cinema, Aspirinas e Urubus:

Fontes de pesquisa (29)

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  • ARANTES, Silvana. “Urubus” se torna primeiro brasileiro a vencer a Mostra. Folha de S.Paulo, São Paulo, 4 nov. 2005. Ilustrada.
  • ARAÚJO, Inácio. ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’ revela talento de João Miguel. Folha de S.Paulo, São Paulo, 16 set. 2014. Ilustrada, p. E6.
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  • VIEIRA, Marcelo Dídimo Souza. O sertão utópico do cinema brasileiro contemporâneo. In: XIII Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 2, São Paulo: SOCINE, 2012. p. 22-35

Como citar?

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  • CINEMA, Aspirinas e Urubus. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67602/cinema-aspirinas-e-urubus>. Acesso em: 20 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7