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Batismo de Sangue

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.12.2016
2006
O quinto longa-metragem de Helvécio Ratton (1949), lançado em 2006, é uma adaptação da obra homônima de Frei Betto (1944), vencedor do prêmio Jabuti de 1985. O filme retoma o final da década de 1960 no Brasil e denuncia a violência do Estado durante a ditadura militar. Registra o período após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), quand...

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O quinto longa-metragem de Helvécio Ratton (1949), lançado em 2006, é uma adaptação da obra homônima de Frei Betto (1944), vencedor do prêmio Jabuti de 1985. O filme retoma o final da década de 1960 no Brasil e denuncia a violência do Estado durante a ditadura militar. Registra o período após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), quando a tortura passa a ser institucionalizada pelos aparelhos repressivos. Nesse contexto, o filme centra-se na colaboração de um grupo de jovens frades dominicanos com a Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella (1911-1969), principal figura da guerrilha urbana de oposição. Batismo de Sangue traz a perspectiva dos religiosos, suas motivações como militantes de oposição ao regime, a experiência após a prisão e a tortura comandada pelo delegado Sergio Paranhos Fleury (1933-1979).

O filme inicia-se com o suicídio do frade Tito [Caio Blat (1980)] (seu enforcamento em uma árvore) no exílio em Paris, em 1974, para, em seguida, retornar ao início da sua trajetória. Após a morte do frei, acontecimentos se sucedem até que a imagem inicial retorna. Esta retomada tem a intenção de explicar a escolha do frei pela morte: o trauma da violência sofrida na prisão do Destacamento de Operações e de Informações e do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi)1.

Batismo se passa em São Paulo, no segundo semestre de 1968, antes do AI-5, com os primeiros contatos dos frades Betto, Oswaldo, Fernando, Ivo e Tito com Marighella; as missas no convento dos beneditinos; e a colaboração com o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, interior de São Paulo. Com o aumento da repressão, após a promulgação do AI-5, os frades se separam por questões de segurança: Betto esconde-se em um convento do sul, Fernando e Ivo são presos e torturados por Fleury. Após a sessão de tortura, os dois frades acabam por delatar Tito e expor a estrutura montada pela ALN. Marighella, então, é assassinado em emboscada, e o frade, capturado.

A trajetória de Tito e a de seus companheiros de convento na prisão acentua um clima de desumanidade, em contraste com as convicções políticas e religiosas que levam os frades à militância. Para tanto, o espectador fica diante de imagens cruas da tortura dos religiosos. O filme informa os acontecimentos históricos ao espectador, respeitando a ordem cronológica e procurando justificar as ações de seus protagonistas. Batismo tem a preocupação de atingir o maior público possível e denunciar as atrocidades cometidas pelo Estado no período.

Uma sequência didática do filme é a apresentação dos motivos que levaram os frades à luta armada. A cena ocorre na prisão do Departamento de Ordem Política e Social (Dops)2. Nela, há uma missa improvisada pelos religiosos no espaço circundado pelas celas. A montagem intercala a imagem dos “desvalidos” em suas celas, com a fala de Tito, que lê um trecho da bíblia. Ao fundo, ouve-se um órgão que acentua o clima “ecumênico" da cena. As palavras dos freis, que procuram reavivar a fé e a esperança e associam-se com as imagens de dor e sofrimento dos prisioneiros. Enquanto Tito lê, a câmera de fora da cela capta a imagem dos prisioneiros. O corte do plano leva-nos ao ponto de vista da cela, no momento em que Betto discursa. O conteúdo de sua fala procura aproximar o que há de comum entre a causa dos guerrilheiros e a dos religiosos. A mudança de eixo da câmera apresenta o ponto de vista dos prisioneiros e a fala política de Betto. Em certo momento, alguns que estão na cela vaiam os frades por reconhecer neles os delatores de Marighella. A construção da sequência reitera os motivos da colaboração dos religiosos com a esquerda que enveredou para a luta armada.

Em geral, a recepção crítica do filme de Ratton traz como ponto alto a escolha de Caio Blat para interpretar o frade cearense Tito, o cuidado na reconstituição de época, e a sua importância por  divulgar e denunciar as atrocidades da ditadura militar brasileira. Entretanto, houve quem percebesse fragilidades na estrutura da obra. Para o crítico de cinema Inácio Araújo3, o filme deveria se ater à descrição dos fatos em vez de tentar inocentar os religiosos. Já o crítico Cleber Eduardo4 observa na obra um encontro malsucedido entre a forma do filme e os fatos a que ele remete. Esse desencontro seria resultado de uma montagem que não procura o distanciamento crítico.

Notas
1 O DOI-Codi é criado em 1970 depois da criação da Operação Bandeirantes (Oban), de 1969. O Destacamento de Operações e de Informações (DOI) e o Centro de Operações de Defesa Interna (Codi) são dois órgãos governamentais ligados ao exército com a finalidade de coordenar e integrar a repressão a indivíduos e organizações (mais especificamente a esquerda armada) que pudessem representar ameaça ao regime. 
2 Departamento de Ordem Política e Social – ligado ao Ministério da Justiça –, criado em 30 de dezembro de 1924 e extinto em 04 de março de 1983, com o objetivo de controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder.
3 ARAÚJO, Inácio. Filme 'Batismo de Sangue' acerta ao pôr Caio Blat como o frei Tito. Folha de São Paulo, São Paulo, 8 mar. 2014. Ilustrada. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/155337-filme-batismo-de-sangue-acerta-ao-por-caio-blat-como-o-frei-tito.shtml >. Acesso em: 03 ago. 2015.
4 EDUARDO, Cléber. Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton (Brasil, 2006): muita tortura, pouca força. Revista Cinética. Disponível em:< http://www.revistacinetica.com.br/batismodesangue.htm >. Acesso em: 03 ago. 2015.

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