Artigo da seção obras Iracema: lenda do Ceará

Iracema: lenda do Ceará

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoIracema: lenda do Ceará: 1865 Local de criação: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | José de Alencar
Livro
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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Análise

Publicada em 1865, Iracema (Lenda do Ceará) é uma das mais importantes obras do romantismo brasileiro e de seu autor, José de Alencar (1829-1877), romancista, dramaturgo, cronista e jornalista. 

Seguindo a temática indianista que rende ao autor o sucesso de O Guarani (1857), Iracema remete ao primeiro momento de formação da sociedade brasileira. Utiliza um argumento histórico: o que se lê como “lenda do Ceará” tem por fundamento a documentação da chegada dos primeiros portugueses ao Nordeste e sua tentativa de assentamento. Com base em bibliografia historiográfica, Alencar chega às figuras de dois líderes históricos da ocupação colonial de seu estado natal, Ceará, no início do século XVII: o índio Poti e o cabo português Martim Soares Moreno. O primeiro é filho do líder das tribos potiguares do litoral do Rio Grande do Norte e do Ceará, posteriormente convertido com o nome de Antonio Filipe Camarão. 

Da moldura realista, pautada pelo interesse de investigação do passado colonial, o romancista passa à “lenda do Ceará”, mais especificamente, da índia tabajara Iracema, que encontra Martim na mata e, assustada com sua presença, flecha-o. Submisso, apesar do ferimento, Martim merece a confiança de Iracema e é levado para a aldeia para receber cuidados. O interesse entre os dois firma-se logo. Alguns interditos, porém, aparecem. Iracema, consagrada a Tupã e portadora do “segredo da Jurema e o mistério do sonho”1, tem sua virgindade vinculada aos rituais do grupo indígena. Já Martim tem uma “noiva”2 que o aguarda no Velho Mundo e é amigo do grupo potiguara, oponente dos tabajaras.   

Os interditos não impedem que a paixão entre ambos floresça. O pai de Iracema, o pajé Araquém, e o irmão, o guerreiro Caubi, não veem mal no relacionamento do casal. Entretanto, Irapuã, guerreiro tabajara que deseja declarar guerra aos brancos e aos potiguaras, considera o contato entre a índia e o português uma ameaça. Estão assim dispostas as peças do drama: a relação entre Iracema e Martim estreita-se à sombra da confiança de Araquém e Caubi. Numa cerimônia em que ministra a todos o licor alucinógeno de jurema, a índia faz Martim experimentar a bebida e entrega-se a ele. Acossados pela tribo tabajara, os dois fogem ao lado do potiguara Poti, que ronda a aldeia tabajara em busca do amigo. Por fim, enquanto Iracema, grávida, recolhe-se no litoral sob a proteção da tribo inimiga, Poti e Martim (este já desejoso de retornar à terra natal) lideram os potiguaras contra os tabajaras, saindo vencedores da disputa. Solitária à espera do desenlace das batalhas, Iracema dá à luz Moacyr (o “filho da dor”) e, apesar da saúde fragilizada, procura cuidar da criança. É exaurida que Iracema – após obter ajuda secreta de Caubi – recebe os vitoriosos Poti e Martim. Entrega-lhe o filho e morre. Martim parte com Moacyr para Portugal, retornando, posteriormente, saudoso da terra em que vivera seu grande amor. Reencontra Poti – já Antonio Filipe Camarão – para fundar um povoamento e lutar contra os holandeses em Pernambuco.

Em Iracema, a exemplo de em O Guarani e Ubirajara (1874), Alencar faz justiça ao que Antonio Candido (1918-2017) assinala como o esforço ideológico do indianismo, “racionalizando alguns aspectos de nossa mestiçagem física e cultural e contribuindo para consolidar uma consciência nacional”3. Ao mesmo tempo, ajuda a consolidar as primeiras balizas artísticas do romance nacional. Nesse sentido, Iracema supera o esquematismo narrativo de O Guarani e a erudição do estudo etnográfico de Ubirajara. Iracema contrapõe ao recorte histórico e antropológico das obras anteriores um apurado trabalho poético. Nele, a exposição do enredo depende de como sentimentos e atmosfera se constituem com o estilo metafórico, afetando a percepção ingênua e natural dos nativos. É na radicalidade da forma quase poética da narrativa que incidem muitos dos elogios e críticas ao livro. 

“Pela primeira vez”, escreve o português Pinheiro Chagas (1942-1985), “aparecem os índios, falando a sua linguagem colorida e ardente, pela primeira vez se imprime finalmente o cunho nacional num livro brasileiro”4. Franklin Távora (1842-1888) assinala o “inchaço” do estilo e os “atropelos” imagéticos de “um esbanjamento da imaginação”5 que coloca a cultura e o talento do romancista acima do retrato verossímil de suas personagens. Polêmicas à parte, fato é que o construto linguístico de Iracema torna-se ao longo do século XX um aspecto bastante explorado pela crítica. Em seu estudo da década de 1960, Manuel Cavalcanti Proença (1905-1966) demonstra o apuro de José de Alencar na elaboração linguística das personagens, marcando as diferenças civilizatórias mediante usos pronominais. Por exemplo, diferentemente de Martim, Iracema, como os demais índios, não se refere a si mesma em primeira pessoa. Alencar explora o sentido etimológico de termos indígenas para sublinhar a concretude primitiva do pensamento nativo, indiferente às abstrações subjetivas do europeu. Por meio de símiles, metáforas e perífrases, baseadas em elementos da natureza, a heroína se torna parte da paisagem.

Apesar da musicalidade e da plástica exemplares, Alencar marca em sua prosa os preconceitos de um homem de seu tempo. Celebra a conversão de Poti, dissolve Iracema na sensualidade da própria paisagem e faz a violência do colonizador desaparecer sob ideais cavalheirescos. Nas palavras de Paulo Franchetti, trata o passado nacional como simples “fonte de poesia, peças a combinar livremente na construção de uma genealogia nacional, um modelo de sociedade senhorial e um ideal de vida social pautado pela ética pré-industrial”6. Ainda assim, cabe a Iracema um lugar de destaque no cânone literário brasileiro. Dá-se novo passo no caminho de consolidar a literatura brasileira pela experimentação formal. 

Notas

1. ALENCAR, José de. Iracema (lenda do Ceará). 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2010. p. 109.

2. Idem, ibidem. p. 118.

3. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). 2 v., 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000. p. 192. (grifo do autor)

4. Citado por Paulo Franchetti na apresentação do livro. In: ALENCAR, José de. Iracema (lenda do Ceará). 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2010. p. 13.

5. Idem, ibidem. p.14.

6. Idem, ibidem. p. 83.

Ficha Técnica da obra Iracema: lenda do Ceará:

  • Data de publicação
    • 1865
  • Autores
  • Local de publicação
    • Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
  • Editora
    • Typographia de Vianna & Filhos
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (2)

  • ALENCAR, José de. Iracema (lenda do Ceará). 3. ed. Apresentação de Paulo Franchetti; notas e comentários de Leila Guenthel; ilustrações de Monica Leite. Cotia: Ateliê Editorial, 2010.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). 2 v., 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000. 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • IRACEMA: lenda do Ceará. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67459/iracema-lenda-do-ceara>. Acesso em: 28 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7