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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Ópera dos Mortos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.01.2017
1967
Análise

Texto

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Análise
Publicado em 1967, Ópera dos Mortos é o mais importante romance do escritor Autran Dourado (1926-2012). Trata-se de uma trilogia que tem continuidade quase duas décadas depois nos volumes Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992). A narrativa tem por centro a família Honório Cota e apresenta (embora ainda não nomeada) a cidade fictícia de Duas Pontes, explorada em obras subsequentes, como O Risco do Bordado (1970) e Novelário de Donga Novais (1976).

Tendo por narrador uma voz coletiva, “a gente”, a narrativa expõe a um interlocutor a história dos Honório Cota com foco nos últimos ocupantes do casarão da família. Rosalina é neta do paulista Lucas Procópio, chegado ao sul de Minas com a decadência da mineração (entre fins do século XVIII e início do século XIX). Ali, Procópio cerca as terras de sua fazenda e funda o vilarejo com uma igreja de inspiração barroca, um largo e, diante de ambos, o casarão. Além da brutalidade do bandeirante, a genealogia de Rosalina remonta aos poderes políticos tradicionais: ela é filha do influente João Capistrano, cuja riqueza provém do cultivo de café. Dos Capistrano a protagonista herda o ressentimento e o orgulho ferido por uma traição política: na tentativa de ampliar o poder político do clã, o progressista João Capistrano candidata-se à presidência da Câmara da cidade. A eleição, porém, fraudada por adversários, leva-o ao isolamento político e social. Depois da morte da mulher, dona Genu, enclausura-se no casarão com a filha-herdeira. Com o falecimento do pai, Rosalina (já mulher) permanece fechada na casa, limitando seu contato humano às visitas esporádicas de Emanuel Ciríaco, que lhe administra os bens, e a negra muda Quiquina, filha de escravos da fazenda, cujas funções incluem a venda das flores de pano com que Rosalina ocupa seus dias, enquanto reserva as noites à leitura e à bebida.

A situação muda com a chegada de José Feliciano. Fugido do norte de Minas em circunstâncias misteriosas e sem muito interesse em trabalho pesado, prefere vagar e viver de caçadas, aventuras e pequenas empreitadas. Cego de um dos olhos, encanta-se com a imponência do casarão dos Honório Cota. Sabendo da história por um morador da cidade, Feliciano oferece seus préstimos à porta da casa, na esperança de ser feito agregado. Apesar da suspeita de Quiquina, o forasteiro é contratado por Rosalina. Homem de prosa fácil, dado a causos e sempre interessado na vida alheia, Feliciano faz de Duas Pontes seu lugar, aproximando-se dos moradores da cidade e tenta, sem sucesso, conquistar a intimidade de sua senhora. Num momento de fragilidade, carente do amor que Emanuel não lhe pudera dar, Rosalina o convida a beber. O encontro resulta num beijo interrompido por Quiquina. Dias depois, Feliciano torna a procurar Rosalina, visitando-lhe o quarto. É a primeira das muitas noites de paixão que resultariam numa gravidez. Longe dos olhos da cidade, Rosalina dá à luz a um menino com a ajuda de Quiquina. Esta, contrária aos encontros do casal, teme os desdobramentos do nascimento para a vida de Rosalina, decide matar a criança. Resta a Feliciano enterrar o bebê clandestinamente e deixar a cidade. Rosalina enlouquece e deixa o casarão com o auxílio de Emanuel, para ser tratada longe de Duas Pontes.

A palavra “ópera” aproxima-se, primeiramente, de seu sentido etimológico, como plural de “opus”, “obra” em latim. Só com a recuperação das “obras dos mortos”, a narrativa passa ao segundo sentido de “ópera”, o musical, amparado pelo valor que as personagens e o narrador plural dão à voz humana. Voz como “canto”1, “voz quente”, feita de “melodia” e “embalo”2, que se presta mais ao encantamento do que ao argumento. Tomando a tragédia grega por modelo, Autran Dourado molda seu narrador coletivo à maneira de um coro, voz legal e moral da pólis, cujas leis religiosas e de organização social, são feridas por aqueles que deveriam protegê-las.

Como personagens de uma história que as transcende, Rosalina, Quiquina e José Feliciano têm suas falas estruturadas em discurso indireto livre, assimiladas à consciência da coletividade. Essa coletividade representa uma ordem autoritária, com raízes latifundiárias e escravistas. Em relação a ela, cada personagem se define por um elemento de transgressão: Rosalina ocupa um lugar eminentemente masculino, condição marcada pelo coro, que procura na personagem características terrível Lucas Procópio ou do ensimesmado João Capistrano. José Feliciano é recordado como estrangeiro e desterrado; Quiquina, descendente direta de escravos, ignora sua condição de destituída de poder e torna-se a única defensora da ordem quando sua senhora mostra impotência. Nesse sentido, mais do que marcadas pelo fatalismo (o universo latifundiário e escravocrata em que vivem), as personagens estão submetidas ao poder que o próprio coro representa e ao qual, por fim, cedem. É a loucura final de Rosalina que permite aos que a protagonista chama de “gentinha” (em contraponto à boa autoimagem que o coro conserva de si, “gente pacífica, cordata, amante do progresso”3), tomar posse do casarão.

Aliando a tradição trágica (sobretudo a Antígona de Sófocles) à análise social e histórica, Autran Dourado atinge excelência e originalidade estrutural, sem perder de vista a precisão do olhar do romancista. Duas Pontes, cidade prestes a ser engolida por terríveis voçorocas, é também vítima da devastação inerente à história de sua gente. A loucura da Rosalina traz em si a hýbris trágica de uma vida condenada à reprodução das estruturas de mando e poder. Assim, Autran Dourado retrata com verdade um aspecto da formação da sociedade brasileira. 

Notas
1 DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 95.
2 Idem, ibidem. p. 127.
3 Idem, ibidem. p. 93.

Fontes de pesquisa 4

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  • DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.
  • FERNANDES, Liduína Maria Vieira. “A saga da família Honório Cota.” In: Anais do IV Colóquio Internacional Cidadania Cultural: diálogos de gerações (22, 23 e 24 de setembro de 2009). Campina Grande: Editora EDUEPB, 2009. Disponível em: < http://pos-graduacao.uepb.edu.br/ppgli/?wpfb_dl=79 >. Acesso em: 02 dez. 2014.
  • SEGALLA, Cristiane Barnabé. Ópera dos mortos: uma narrativa em quatro atos (o desdobramento do espaço social através da linguagem). Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
  • SOUZA, Maria Antônia de. Ruína e reificação em Ópera dos mortos, de Autran Dourado. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2009.

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