Artigo da seção obras João da Matta

João da Matta

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoJoão da Matta: 1923 | Amilar Alves
Filme

Análise

João da Matta (1923) é mais um filme brasileiro do período silencioso que não existe mais. Restam apenas alguns fragmentos da obra dirigida por Amilar Alves (1881-1941) e produzida pela Phênix Film. O filme foi rodado em Campinas, cuja recente urbanidade inspira artistas e técnicos locais. No fim do século XIX, a cidade de Campinas é alçada a centro econômico com o advento do ciclo do café. Até então, a função principal da região é ser um rancho para tropeiros. Com o café se esboça o desenvolvimento e tudo o que ele comporta, inclusive o divertimento que, acompanhando um movimento mundial do capitalismo, se amplia para as camadas populares. Surgem os exibidores ambulantes de cinema e, em seguida, as salas se fixam. Esse processo é característico dos chamados ciclos regionais.

Para a realização de João da Matta, Amilar Alves, teatrólogo de Campinas, se serve de sua autoridade como intelectual bem relacionado com o poder e de sua experiência no teatro amador. Além da notoriedade como diretor do grupo de teatro católico local, Alves também é jornalista e secretário da prefeitura. Para o filme, ele reúne a soma necessária para a empreitada com capitalistas locais e, com a colaboração decisiva de Felipe Ricci (1900-1988) e Tomás de Túlio, adapta para o cinema sua peça teatral homônima.

Seu enredo é muito próximo da peça teatral, O matuto João da Matta é desapropriado de suas terras por um desonesto coronel. Acusado de roubo, ele foge. Tempos depois, tendo descoberto o passado obscuro de seu algoz, João retorna para regularizar sua situação. Para isso, exige do coronel – na verdade, um assassino fugido da Bahia – uma declaração que o absolva. O vilão tenta resistir e oferece dinheiro a João que, incorruptível, insiste na declaração. O coronel a escreve, mas ameaça acusá-lo novamente. Porém o herói revela o passado do coronel que, indignado, saca um revólver. Mas, com destreza, João lhe toma a arma. Acuado, o coronel investe contra ele que, enquanto inutiliza o revólver, recebe um golpe na cabeça. Fora de si, João estrangula o coronel até a morte. Mas a polícia chega e o perdoa, pois havia matado um ladrão perigosíssimo. E a paz volta a reinar.

A partir da avaliação dos fragmentos, pode-se destacar os letreiros e sua referência ao universo do caipira. Realizados por Felipe Ricci, também montador do filme, os intertítulos, com uma grafia particular, são inspirados no linguajar da população do interior de São Paulo e procuram dignificar o drama da gente caipira. Sem apelar para o aspecto cômico da fala inculta, eles ressaltam a injusta condição de João e reforçam sua rigidez moral. Para explicitar que se trata de uma elaboração de estilo, todas as palavras que ferem a norma culta são sublinhadas. Quando João se indigna com o coronel, surge na tela o intertítulo: “Mais dá reiva, dá ódio na gente um comprometimento deste. Tudo as coisas que o coronel diz é verdade e o que a gente diz é mentira?!... Mentira proquê semos pobres?!”.

Outro aspecto importante do filme é o elenco, formado por atores do teatro amador local e por não profissionais. Na luta final, a maior sequência que restou do filme, quando João enfrenta o coronel, a verossimilhança da luta se destaca mais pelo jogo dos atores do que pela montagem. A câmera a capta de diversos ângulos, ora se aproxima para filmar os rostos, ora se distancia para enquadrar os corpos que se atracam. Apesar dos planos fixos, a variação proximidade-distância, junto aos movimentos convulsos dos atores, imprime agilidade às cenas. A decupagem – diferentes recortes do mesmo espaço ficcional – dessa sequência sintetiza o esforço do cinema silencioso brasileiro em se equiparar à linguagem desenvolvida pelo cinema norte-americano.

O despojamento dos interiores faz par com as interpretações e as vestimentas rudes dos personagens. Esses elementos dão ao filme uma forma artesanal, e a simplicidade do conjunto sugere o estágio do cinema brasileiro na década de 1920. A figura do coronel resume em si a concepção da trama, transposta do teatro para o cinema sem uma distinção precisa dessas linguagens. Os fragmentos remanecentes evocam esse tipo de teatro filmado. O coronel enverga um terno surrado de linho, sob uma pesada maquiagem que destaca suas negras suíças e seu grosso bigode. A caracterização exagerada reforça a polarização entre bem e mal. O uso dos animais também sublinha essa oposição, traduzindo as disposições morais, como no cinema norte-americano. O homem puro é relacionado com o sabiá e o homem perverso com a serpente.

O filme tem sua primeira exibição no cinema campineiro Rink, no dia 8 de setembro de 1923. Em seguida, João da Matta é exibido no Rio de Janeiro e a revista Para Todos saúda a realização:

Possui shots maravilhosamente artísticos e de notado bom gosto, mostrando, paralelamente ao interessantíssimo enredo, como nos dá a colheita de café e da pedreira de Capivari, que são muito felizes, toda a nossa pujança e beleza natural, como mesmo deve caracterizar os nossos filmes para que eles tenham o duplo efeito de interesse e propaganda1.

O texto empolga tanto os produtores da Phênix que eles mandam imprimir um cartaz do filme reproduzindo os elogios cariocas e os de Oduvaldo Viana. Este último lamenta a transposição da peça teatral para o cinema, mas parabeniza a iniciativa. Diz ele: “Posta em fita, perdendo embora o brilho do diálogo, ele [o diálogo] se desenvolve por aquelas oito partes, prendendo sempre a atenção do espectador encantado ante os seus quadros, as suas figuras e o seu assunto deveras empolgante”2.

Após a experiência da Phênix, surge em Campinas a APA Film, a Condor Film e a Selecta Film, que produzem respectivamente Sofrer para Gozar (1923), Alma Gentil (1924), A Carne (1925) e Mocidade Louca (1927), encerrando o ciclo cinematográfico de Campinas.

Notas

1 Para Todos, 17 nov. 1923. Apud: SOUZA, Carlos Roberto de. O cinema em Campinas nos anos 20 ou uma hollywood brasileira. Dissertação de mestrado. São Paulo: ECA/USP, 1979.

2 SOUZA, Carlos Roberto de. O cinema em Campinas nos anos 20 ou uma hollywood brasileira. Dissertação de mestrado. São Paulo: ECA/USP, 1979. p. 57.

Ficha Técnica da obra João da Matta:

Fontes de pesquisa (8)

  • VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro, MEC/INL, 1959.
  • CINEMATECA BRASILEIRA. Entrevistas sobre o ciclo de Campinas. São Paulo: s.d.
  • JOÃO DA MATTA, um documento. Direção de Marcos Craveiro e Luisa Pena, 1982, filme.
  • MACHADO, Rubens. Ciclo de Campinas. In: RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • MACHADO, Rubens. O cinema paulistano e os ciclos regionais sul-sudeste (1912-1933). In: RAMOS, Fernão. História do cinema brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.
  • ORTIZ, Carlos. João da Mata. In: BARRIEl, Carlos Eduardo Ornelas. Carlos Ortiz e o cinema brasileiro na década de 50. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura: Departamento de Informação e Documentação Artísticas: Centro de Documentação e Informação sobre Arte Brasileira Contemporânea, 1981.
  • SOUZA, Carlos Roberto de. O cinema em Campinas nos anos 20 ou uma hollywood brasileira. Dissertação de mestrado. São Paulo: ECA/USP, 1979.
  • UM DRAMA CAIPIRA dedicado a Caio Scheiby. Direção de Carlos Roberto de Souza e José Motta. Cinematográfica Filmaí; ECA/USP, São Paulo, 1973, (28 min), 35mm, b/p. 

Como citar?

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  • JOÃO da Matta. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67365/joao-da-matta>. Acesso em: 16 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7