Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Cidade de Deus

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.11.2017
2002
Cidade de Deus é dirigido por Fernando Meirelles (1955), e codirigido por Kátia Lund (1966). Inspirado no romance homônimo, publicado em 1997, de Paulo Lins (1958), a trama é construída com base no crime organizado do bairro Cidade de Deus, subúrbio do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e de 1980. Para compor o elenco, cerca de 110 garotos...

Texto

Abrir módulo

Análise

Cidade de Deus é dirigido por Fernando Meirelles (1955), e codirigido por Kátia Lund (1966). Inspirado no romance homônimo, publicado em 1997, de Paulo Lins (1958), a trama é construída com base no crime organizado do bairro Cidade de Deus, subúrbio do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e de 1980. Para compor o elenco, cerca de 110 garotos, das diversas comunidades do Rio de Janeiro, participam durante oito meses de uma oficina de interpretação criada por Meirelles e Lund. As filmagens foram realizadas durante nove semanas, e a produção do filme tem um custo de  3,3 milhões de dólares, financiado em 85% pela produtora O2, e o restante pela Lei do Audiovisual.  

Cidade de Deus é narrado do ponto de vista do garoto Buscapé, interpretado por Alexandre Rodrigues (1983). A história apresenta um clima violento ligado ao tráfico e ao crime, do qual Buscapé encontra a possibilidade de escapar ao tornar-se – quase que acidentalmente – fotógrafo. Por meio desse personagem, o filme explora a vida na favela: entre a polícia e os bandidos, a população torna-se vítima1, situação trabalhada logo nos primeiros minutos da narrativa. Um churrasco acontece,  ouve-se o som de facas sendo afiadas misturado a pandeiros e cuícas. A música é interrompida e a cena cortada para uma galinha caminhando na rua. “A galinha fugiu! ”, grita Zé Pequeno, interpretado por Leandro Firmino (1978),  um dos chefes do tráfico. Inicia-se uma corrida frenética para recuperar o animal, ao som de instrumentos musicais. Corta-se a cena para dois meninos que caminham e conversam, um deles Buscapé. A música é interrompida, de repente estão todos frente à frente. A câmera gira em torno de Buscapé, e por trás dele vê-se um carro da polícia aproximar-se. O rapaz fica, então, ali parado, entre os bandidos e a polícia, todos empunhando suas armas. A câmera gira 360 graus em torno de Buscapé, e a história retrocede no tempo, mostrando o rapaz criança, na favela que começava a se formar.

Segundo o crítico Ismail Xavier (1947), Cidade de Deus está entre os filmes que “colocam em debate uma corrosão do espaço social, uma crise na construção da cidadania, evidenciando o loteamento das zonas de poder pelo crime organizado”2. O longa-metragem traz para as telas um novo imaginário sobre a violência que prevalece no Brasil, a partir da década de 1990, e do processo de redemocratização. Jornais, novelas e séries passam a tratar exaustivamente da favela, apresentando suas mazelas e confrontos ligados ao tráfico de drogas3. No caso de Cidade de Deus, a violência não é retratada como efeito do Estado autoritário, como nas décadas de 1960 e 1970, mas como resultado do descaso do Estado. No início do filme, Buscapé diz: “A rapaziada do governo não brincava. Não tem onde morar? Manda para a Cidade de Deus. Lá não tinha luz, não tinha asfalto, não tinha ônibus. Mas para o governo dos ricos não importava(...). A Cidade de Deus fica muito longe do cartão postal do Rio de Janeiro”. Essas palavras são ditas após o narrador apresentar o “trio ternura”: três garotos considerados bandidos “amadores”, enquanto os traficantes que disputam o controle da favela desenham-se mais como homens de negócios que levam ao extremo as regras do jogo capitalista4.  Os três garotos que compõem o trio aparecem assaltando um caminhão de gás para os moradores do bairro, e nada têm em comum com os traficantes que controlarão a favela nas décadas seguintes, como profissionais que operam dentro da rede de comércio global do narcotráfico.

Com grande repercussão nacional e internacional o filme leva mais de 3,3 milhões de pessoas às salas de cinema brasileiras, e é indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e a quatro Oscars: Melhor Fotografia, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. Além de receber diversos prêmios da Academia Brasileira de Cinema, e nos festivais de Cartagena, Colômbia, e de Santo Domingo, República Dominicana.

O filme foi alvo de críticas. De acordo com a pesquisadora Ivana Bentes (1964) o filme é um dos principais representantes daquilo que ela intitula “cosmética da fome”, tendência de estetização da miséria, que vigora no cinema a partir da década de 1990, e se contrapõe à “estética da fome”, trabalhada pelo Cinema Novo . Em suas palavras, a“cosmética da fome”, opera uma passagem:

da idéia na cabeça e da câmera na mão (um corpo-a-corpo com o real) ao steadcam, a câmera que surfa sobre a realidade, signo de um discurso que valoriza o “belo” e a “qualidade” da imagem, ou ainda, o domínio da técnica e da narrativa clássicas. Um cinema “internacional popular” ou “globalizado” cuja fórmula seria um tema local, histórico ou tradicional, e uma estética “internacional”.5

A antropóloga Alba Azular (1942) faz críticas tanto ao filme quanto ao romance de Paulo Lins. Para ela, a maneira como as crianças são apresentadas é inverosímil e recai sobre  “a teoria do criminoso nato, que, do ponto de vista da criminologia, já está completamente superada”6. Esse é o caso da história de Zé Pequeno,  “é contada como se ele já tivesse nascido ruim”7. Para Azular, o filme de Meirelles cria a Cidade de Deus, como um gueto, a exemplo do que se faz nos Estados Unidos. Essa estratégia facilita que estrangeiros compreendam a situação, mas não corresponde à realidade brasileira8.

Notas

1. XAVIER, Ismail. Da violência justiceira à violência ressentida. Ilha do Desterro, Florianópolis, n.51, p. 55- 68, jul./dez. 2006. p. 63.
2. XAVIER, Ismail. Op. Cit. p. 56.
3. HAMBURGER, Esther. Violência e pobreza no cinema brasileiro recente: reflexões sobre a ideia de espetáculo. Novos estudos – Cebrap [online], n.78, p. 113-128. 2007. p.120. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000200011&lng=en&nrm=iso&tlng=pt >. Acesso em : 10 out. 2015. 
4. XAVIER, Ismail. Op. Cit.  p.60.
5. BENTES, Ivana. Sertões e favelas no cinema brasileiro contemporâneo: estética e cosmética da fome. Alceu: Revista de Comunicação, Cultura e Política. Rio de Janeiro, v.8, n.15, p. 242-255, jul./dez. 2007. Social. p. 245. Disponível: < http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu_n15_bentes.pdf >. Acesso em:
6. GOIS, Antônio. "Hipermasculinidade" leva jovem ao mundo do crime. Entrevista com Alba Azular. Folha de São Paulo. São Paulo, 12 jul. 2004, Brasil. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1207200423.htm >.  Acesso em : 10 out. 2015.
7. GOIS, Antônio. Op. Cit. 
8. FOLHA DE SÃO PAULO. Diretor de "Cidade de Deus" enfrenta críticas e minimiza a sua pretensão. Folha Online, São Paulo, 30 ago. 2002, Ilustrada. Disponível em : < http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u26965.shtml >. Acesso em: 10 out. 2015.

 

Fontes de pesquisa 7

Abrir módulo

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: