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Cinema

Os Trópicos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.10.2020
1967
Análise

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Análise
Trópicos é o primeiro longa-metragem dirigido pelo italiano Gianni Amico (1933-1990), que chega ao Brasil, em 1962, e participa do cinema novo.  Torna-se um dos principais divulgadores dos filmes brasileiros cinemanovistas na Itália. O tema central de Os Trópicos tem como base o livro Os Dois Brasis, do sociólogo  francês Jacques Lambert, publicado no Brasil em 1959. Nas palavras do próprio diretor, a “saga” de Lambert consiste numa das “primeiras tentativas de ler o Brasil através de suas contradições de país rico-pobre, moderno-arcaico, urbano-desértico”. Amico procura desenvolver em seu filme uma representação abrangente da realidade social brasileira, a qual ele designa como uma “terra plena de contrastes”, evocando assim o título de um outro livro influente aqui publicado também em 1959: Brasil, Terra de Contrastes, do sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974). O filme mescla documentário e ficção e é narrado em italiano, pois é produzido para se veiculado na televisão estatal  Radiotelevisione Italiana (RAI). 

A narrativa de Os Trópicos é articulada em torno de Miguel (Joel Barcellos, 1936), um homem que vive no sertão nordestino, com sua mulher e duas crianças. As primeiras cenas monstram o estado de pobreza em que vivem. Atormentado pela falta de emprego e sem enxergar perspectivas de melhora, Miguel decide se mudar com sua família para o Recife. Eles peregrinam pela caatinga. Do sertão, o filme faz um corte brusco para a cidade grande e mostra a chegada da barca Rio-Niterói lotada de trabalhadores. Uma voz off, em italiano, inicia um discurso sobre a heterogeneidade da formação étnica e cultural do povo brasileiro. De forma didática, a narração expõe o problema do êxodo rural, as condições dos trabalhadores e a atração que os grandes centros urbanos exercem com suas melhores ofertas de emprego. Acompanhando a narração, mostram-se  imagens das pessoas nas ruas, exemplificando o cotidiano das cidades. Ao fim dessa pequena sequência documental, o filme retorna a Miguel e sua família no sertão. Em Recife, a mulher de Miguel e as crianças catam caranguejos no mangue e vendem na feira. Sem emprego e moradia, Miguel continua a amargar uma situação de pobreza ao lado família. Uma nova sequência documental se inicia com a narração em off, a respeito das origens coloniais do Brasil. Destaca se  economia baseada na monocultura, voltada para a exportação e seus ciclos: a cana-de-açúcar, o ouro,  o café e a borracha. No fundo musical ouve-se a marchinha Invenção do Brasil, de Lamartine Babo (1904-1963). Imagens de edifícios históricos e igrejas antigas das cidades de Recife, Salvador, Ouro Preto e Rio de Janeiro vão sendo mostradas enquanto o narrador perfaz uma brevíssima história do Brasil, até culminar em tomadas aéreas dos prédios de arquitetura moderna de Brasília, com o narrador discorrendo a respeito da industrialização dos anos 1960. “A sintética revisão demonstra assim as fases de uma economia atrelada ao capital estrangeiro e forjada sobre a exploração de uma mão de obra barata”.

Em Recife, Miguel recebe a proposta para trabalhar na construção civil em São Paulo. Em um caminhão lotado de outros emigrantes, ele e sua família partem para capital paulista. O trajeto é marcado por uma sucessão de paisagens desertas e melancólicas, com pausas em cidades minúsculas no meio do sertão. Em uma das paradas, eles descansam à beira da estrada, no bar chamado Barravento, referência ao primeiro longa-metragem homônimo de Glauber Rocha (1939-1981).

O caminhão com os retirantes chega a São Paulo na parte final da narrativa. A sequência da chegada é marcada por uma sucessão de planos curtos que mostram outdoors e placas publicitárias de empresas multinacionais e planos do trânsito caótico. A realidade retratada agora é veloz e cosmopolita, completamente diferente daquela registrada no sertão. Na última sequência do filme, Miguel toma café da manhã e se despede da mulher. A câmera o mostra saindo da favela em que está morando e se dirigindo ao trabalho, num canteiro de obras, onde ele e outros pedreiros estão trabalhando na construção do Hilton Hotel.

Gianni Amico dialoga diretamente com o cinema novo. No começo do filme (também conhecido por seu título italiano, Tropici), há uma cartela informando que ele pretende homenagear 28 cineastas do cinema novo e nove cantores e autores de música popular brasileira (a trilha sonora inclui canções populares brasileiras, marchinhas de Carnaval e cantigas de roda). A cartela presta ainda homenagem especial à população de Milagres, cidadezinha do interior da Bahia onde se passam diversas das cenas do longa, e onde foram filmados também Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra (1931), e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha. O tributo ao cinema novo é expresso não só pela temática e pelo tratamento visual como também pela inserção de citações diretas de alguns filmes, a exemplo das já mencionadas tomadas aéreas de Brasília, decalcadas de Maioria Absoluta (1964), de Leon Hirszman (1938-1987), e da cena final de Deus e o Diabo Na Terra do Sol (1964) de Glauber Rocha, que é enxertada no momento em que Miguel peregrina pelo sertão com sua família, no começo do filme.

Há momentos em que o longa apresenta grande apuro estético, como no plano sequência em que os retirantes descansam à beira de um lago. A mise en scène elaborada para esse plano mobiliza uma complexa dinâmica de alternância do ponto de vista e, também, do ponto de escuta: a câmera migra de um personagem (ou grupo de personagens) para outro, move-se através de travellings, panorâmicas e zoons, alterando o foco constantemente; o som, enquanto isso, salta de uma conversa para outra, como se o filme estivesse interessado ora neste, ora naquele relato. Em outra cena, o procedimento é radicalmente oposto: Amico filma um plano frontal de Joel Barcellos lendo as principais reportagens do jornal Diário de Notícias do estado da Bahia. Dentre as manchetes que lê, uma anuncia a venda de terras brasileiras a investidores norte-americanos. O plano é uma quebra total do pacto ficcional: o ator, vestido com roupas próprias e não com o figurino de seu personagem, fala olhando diretamente para a câmera e, portanto, diretamente para nós, espectadores. Para salientar a mudança de registro, o plano é intercalado por duas cartelas com informações e dados estatísticos sobre a desigualdade da sociedade brasileira, deixando claro que aquele é um momento de reflexão dentro do filme, uma pausa na ficção para literalmente afrontar a realidade.

Os Trópicos é transmitido pela RAI em 3 de abril de 1969. Em texto escrito na ocasião de uma homenagem a Gianni Amico organizada por Joel Barcellos no Festival de Brasília de 1994, a pesquisadora francesa Sylvie Pierre (1954) afirma que Os Trópicos abarca o Brasil “do sertão das vidas secas até o planalto central da idade da terra”, e que “o Gianni não só sistematiza a temática do cinema novo como consegue, ele mesmo, virar candango”.  

Notas
1 Cf. Gianni Amico, Os dois Brasis, texto originalmente publicado no catálogo da retrospectiva Bye Bye Brasil – Il cinema brasiliano fra tradizione e rinnovamento: 1970-1988, realizada no 25° Incontri Internazionali del Cinema de Sorrento, Itália (23-29 de outubro de 1988).
2 Idem.
3 Cf. SIEGA, Paula Regina. Trópicos (1967, Gianni Amico): um caso particular da recepção do cinema novo na Itália. Fênix, vol. 7, ano VII, n. 2, mai.-jun.-jul.-ago. 2010. Disponível em: [http://www.revistafenix.pro.br/PDF23/ARTIGO_1_PAULA_REGINA_SIEGA_FENIX_MAIO_AGOSTO_2010.pdf]. Acesso em: out. 2011.

 

Fontes de pesquisa 6

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  • AMANCIO, Tunico, O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema, Niterói, RJ: Intertexto, 2000.
  • AMICO, Gianni. Os dois Brasis. In: CAPRARA, Valerio; NORCI, Francesco; RANVAUD, Donald (orgs.). Bye, Bye Brasil: il cinema brasiliano fra tradizione e rinnovamento 1970-1988. In: XXV Incontri Internazionali del Cinema di Sorrento. Sorrento: Casa Usher, 1988.
  • AMICO, Olmo; AMICO, Fiorella; VINCENTI, Enrico (orgs.), Gianni Amico, Turim: Torino Film Festival, 2002.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
  • SIEGA, Paula Regina. Trópicos (1967, Gianni Amico): um caso particular da recepção do cinema novo na Itália. Fênix, v. 7, ano VII, n. 2, mai.-jun.-jul.-ago. 2010. Disponível em: . Acesso em: out. 2011.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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