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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Os Homens que Eu Tive

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 19.02.2021
1973
Os Homens que eu Tive é o primeiro longa-metragem de Teresa Trautman (1951), depois de algumas incursões pelo curta-metragem e do trabalho em áreas técnicas de filmes de outros realizadores. Escreve o primeiro roteiro no início da década de 1970, com a colaboração de Leila Diniz, ícone da emancipação feminina no Brasil, para quem o papel princip...

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Análise

Os Homens que eu Tive é o primeiro longa-metragem de Teresa Trautman (1951), depois de algumas incursões pelo curta-metragem e do trabalho em áreas técnicas de filmes de outros realizadores. Escreve o primeiro roteiro no início da década de 1970, com a colaboração de Leila Diniz, ícone da emancipação feminina no Brasil, para quem o papel principal é destinado. Com a morte da atriz, Darlene Glória aceita a personagem central de Pity, depois da interpretação da prostituta Geni em Toda Nudez será Castigada.

O filme apresenta as sucessivas tentativas de uma mulher em reunir a felicidade sentimental com a conjugal. Pity, casada com Dode (Gracindo Júnior) e economicamente bem resolvida, divide o seu dia com o lazer nas praias cariocas e o trabalho de assistente de montagem de um filme. Embora esteja apaixonada pelo marido, ela busca ampliar as possibilidades do relacionamento. Sem querer magoar o parceiro, conversa com ele e, de comum acordo, convida Sílvio (Gabriel Arcanjo), o melhor amigo do casal, para morar em sua casa.  A união entre os três dura sem sobressaltos até o momento que Pity se descobre apaixonada por Peter (Arduíno Colasanti), o montador de filmes com quem está trabalhando, e com ele decide constituir outra família.

A recente vida de casada não está bem, surgem os efeitos da rotina do casamento atual, passa a se preocupar com o seu ex-marido e a repensar seus valores e desejos. O contraponto do impasse é a comparação entre uma amiga e a irmã.  Esta mantém o casamento ao estilo tradicional, cujos resultados Pity conhece. A amiga, avançada e livre de convencionalismos amorosos, propõe o escape dessa confusão de sentimentos. Convida Pity para morar com no casarão de Torres (Milton Morais), um artista plástico, que abriga um grupo de rapazes e moças reunidos sob o princípio da liberdade e do amor livre. Pity, aceita à sua maneira, sem preconceitos, adere à comunidade e começa a escrever sobre suas experiências.

A irmã de Pity, recém separada do marido e em condições precárias, não possui condições para cuidar dos  filhos. Diante dos sobrinhos, o sentimento da maternidade desperta a protagonista que decide ter um filho. Grávida, mas pouco se importa em saber quem é o verdadeiro pai, comunicando o fato apenas aos homens mais próximos: Torres e o ex-marido.

Tereza Trautman, a época com 22 anos de idade, coloca em cena os novos padrões comportamentais que a sua geração os encara como naturais, principalmente os relacionados com a libertação sexual da mulher. Do contrário, o cinema brasileiro o representa de forma caricata, de duplo sentido, preconceituosa ou falsamente moralista. Caso da pornochanchada, gênero que vai dominar o mercado de filmes nos anos 70, cuja comicidade ou dramaticidade deriva, na maior parte das vezes, da ridicularização de algumas formas modernas de comportamento e da apresentação do sexo com boas doses de moralismo implícito.

O filme evita o escândalo e o escárnio, com que diálogos sugerem espontaneidade, a nudez é apenas parcial e as cenas de sexo revelam intimidades e não o abuso voyeurista que ultrapassa a necessidade da própria narrativa. Para isso, torna-se fundamental o caráter independente de sua produção e, embora busque recursos financeiros junto a produtores privados, trabalha com um orçamento reduzido, contornando a exigência de concessões baseadas estritamente na exploração dos temas sexuais.

A cineasta também determina que a fotografia do filme seja absolutamente “limpa” e “solar”, sem áreas de penumbra e de sombras obtidas por meio da iluminação artificial. Conforme sua declaração no folheto de divulgação, “todas as coisas são colocadas abertamente, não deixo nada escondido. Afinal, numa época de repressão, com as mulheres buscando seu espaço, é necessário ter uma colocação clara e definida, não há espaço para metáforas ou meias intenções”1.

Sérgio Santeiro, em artigo de 1980, sugere que a independência de Tereza Trautman a desobriga de recorrer a fórmulas clássicas ou convencionais que normalmente se encontram nos filmes feitos pelos homens. Dessa maneira, é possível ao filme “lidar diretamente com os acontecimentos, opor menos resistência à realidade individual”, gerando como conseqüência uma menor “simulação e empostação de vida que [ocorrem] no cinema em geral”2.

Com esse realismo, Tereza Trautman demonstra estar à procura de um público que compartilhe de suas formulações estéticas. No entanto, o diálogo com o público não acontece, pois o filme acaba batendo de frente com os padrões morais de alguns setores da sociedade. Em agosto de 1973, três semanas depois de seu lançamento, quando conta com ótima receptividade de público e de crítica, Os Homens que Eu Tive é vetado pela censura e sua liberação só ocorre seis anos depois, com a sugestão de mudança do título para Os Homens e Eu ou que a personagem Pity é uma “mulher da vida”.

Tereza Trautman recusa-se a adotar qualquer uma das soluções propostas, sua persistência  propicia o relançamento do filme, em 1979. Sem maiores polêmicas e após seis anos do lançamento, tempo suficiente para neutralizar o potencial libertário proposto pela diretora. O filme, no entanto, conserva outras qualidades, como as que resume o crítico Ely Azeredo, no seu primeiro lançamento: “obra (...) que leva suas confidências à platéia com uma irresistível ternura pelos personagens, um amor pela vida que banha a fotografia plena de luz”3.

Notas

1 Folheto publicitário do filme. [Documento D747, do acervo da Cinemateca Brasileira].
2 Santeiro, Sérgio. O sol visto da lua. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n. 35/36, jul.-set. 1980, p.69.
3 Azeredo, Ely. Leila, Darlene, Pity e os homens. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 jul. 1973.

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Os Homens que Eu Tive (1973), Tereza Trautman
Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa 8

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  • AZEREDO, Ely. Um processo kafkiano: Os Homens que eu Tive. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 nov. 1979.
  • Augusto, Sérgio. Mulher na câmera. Veja, São Paulo, 01 ago. 1973.
  • Azeredo, Ely. Leila, Darlene, Pity e os homens. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 jul. 1973.
  • Ferreira, Jairo. Fantasia de Tereza sem trauma. Folha de S. Paulo, 18 agos. 1980, p.19.
  • Folheto publicitário do filme. [Documento D747 do Centro de Documentação e Pesquisa da Cinemateca Brasileira].
  • Ormond, Andréa. Os homens que eu tive. 22 jun. 2006. Disponível em: http://estranhoencontro.blogspot.com/2006/06/os-homens-que-eu-tive.html.
  • Pereira, Edmar. Filmes novos. Jornal da Tarde, 11 ago. 1980, p. 19.
  • Santeiro, Sérgio. O sol visto da lua. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n. 35/36, jul.-set. 1980, 68-69.

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