Artigo da seção obras Cidade Baixa

Cidade Baixa

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoCidade Baixa: 2005
Filme

Análise
Cidade Baixa é o segundo longa metragem realizado por Sérgio Machado (1968). É sua primeira obra de ficção, após sua estreia como diretor com o documentário Onde a terra acaba (2001), uma biografia do cineasta Mario Peixoto. É o 11⁰ filme brasileiro mais assistido em 2005, atingindo a marca de 100 mil espectadores1.

Seu título faz referência à parte baixa da cidade de Salvador, capital da Bahia, onde se desenvolve a trama da película. A obra se insere num período de revitalização do cinema baiano a partir do ano 2000, graças às leis de incentivo e patrocínio do Governo do Estado e do Ministério da Cultura.

O filme tem como tema as relações entre os personagens Deco [Lázaro Ramos, (1978)], Naldinho [Wagner Moura (1976)] e Karina (Alice Braga). O universo em que eles vivem é o espaço dos excluídos da capital baiana, com suas boates, prostitutas e contraventores.

Deco e Naldinho são amigos de infância, que trabalham e moram num barco a vapor, transportando mercadorias legais e ilegais em Salvador. Sempre acostumados e dividir tudo entre si, a amizade de ambos começa a estremecer quando oferecem carona para Karina, uma dançarina e prostituta que encontram em uma de suas viagens.

Quando o trio chega à Cidade Baixa, a relação entre ambos vai se intensificando. E quanto mais se aproximam dela, mais amizade entre ambos se vê ameaçada. Ao final, após uma briga entre os dois rapazes pela mulher, a história termina com a reconciliação do trio, com Karina cuidando maternalmente dos ferimentos de seus dois companheiros.

Enquanto este triângulo amoroso se desenvolve, os personagens principais enfrentam a difícil realidade das classes populares do espaço urbano soteropolitano. Espaço este marcado pelos pequenos arranjos cotidianos da gente miúda, dos serviços temporários e mal remunerados e da marginalidade.

A câmera de Sérgio Machado se movimenta com agilidade nas ruas estreitas e nos espaços fechados dos becos, boates e botecos da Cidade Baixa. Ela mostra também as pessoas que ali vivem e trabalham. E da mesma forma que ocorre em relação à seus protagonistas, o olhar do cineasta para estes sujeitos pertencentes às camadas populares é destituído de preconceitos ou de juízos pré-estabelecidos.

Nas cenas em que vemos o ambiente e os habitantes da parte pobre de Salvador a película assume o olhar objetivo dos filmes documentários. Já em relação aos personagens principais, a câmera abandona esta objetividade para mostrar, com intensidade, seus comportamentos marcadamente emotivos e sensuais. Em vários momentos, ela se aproxima tanto deles que seus sentimentos e desejos parecem querer atravessar o limite da tela.

Exemplo dos elementos citados acima está na sequência da briga que acontece entre os dois nos últimos momentos da fita. Nas vielas de Salvador Naldinho encontra Deco. Com lágrimas caindo pelo rosto, o primeiro afirma que Karina terá um filho seu. O outro responde rispidamente: “Filho seu o caralho!”. Após este rápido diálogo os dois começam a trocar socos e pontapés.

Espremidos entre as paredes das casas e sob o olhar dos moradores do local, os personagens se digladiam pelo amor da prostituta. Os dois rolam no chão da viela e Deco termina sobre seu companheiro. Ele segura a cabeça de Naldinho e ambos trocam olhares angustiados e, ao mesmo tempo, repletos da ternura.

A estratégia utilizada por Sérgio Machado durante o filme de colocar sua câmera muito próxima de seus personagens atinge seu ápice na sequência descrita acima. Este recurso tem como propósito trazer o público para dentro da história, fazendo deste um observador atento e privilegiado do modo de vida dos personagens. Os rostos de Deco, Naldinho e Karina que várias vezes durante a narrativa tomam a tela inteira não são máscaras, mas expressões de uma humanidade singela e poderosa.

Luiz Zanin Oricchio observa que esta opção se configura como uma estratégia socialmente engajada. Ao evitar qualquer tipo de distanciamento entre o público e seus personagens, o diretor faz da plateia cúmplice da história: “Somos também a solução e somos o problema dessa arraia-miúda da Cidade Baixa. Por isso o filme é político2.

Os personagens centrais da fita de Machado são pessoas excluídas pela sociedade dominante devido a sua condição social e à sua etnia. A opção por tais indivíduos como protagonistas foge do lugar comum dos heróis dos filmes tradicionais. Como observou Danubia Ferreira Alves, esta inversão se reflete também na escolha do cenário. No lugar de optar pelos locais retratados nos cartões postais da capital baiana, o realizador volta suas lentes para as margens da região privilegiada de Salvador3.

Segundo Daniela Palma, o diretor não reduz seus personagens à sua condição social. Para a pesquisadora, isso lhes dá uma grande força subjetiva e, ao mesmo tempo, exclui “a possibilidade de um olhar de comiseração e, mais do que isso, de enquadramento tipológico4.

O propósito de fugir ao lugar comum é comentado por Cássio Starling Carlos. Para este, o diretor evita o caminho fácil de mostrar imagens edulcoradas ou dotadas de uma beleza supérflua e vazia. Tal atitude é o que impede que seu filme fique aprisionado nas armadilhas do óbvio: “Machado acha seu lugar tomando um atalho no qual valoriza em detalhe a imperfeição: da história, dos atores, do roteiro e de tudo que emana da vida”5.

Maria Rita Kehl classifica o filme de Machado como um épico de vidas ‘infames’. Para a psicanalista, este caráter épico reside no fato de seus protagonistas, mesmo com a vida sem importância que levam esforçarem-se permanentemente a “resistir à violência que suas vidas parecem predestinadas6.

Notas

1 Silva, Hadija Chalupe da. O filme nas telas: distribuição do filme nacional. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.
2 Oricchio, Luiz Zanin. Filme com hormônios, mas atento à questão social. O Estado de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Caderno 2, p. D-1.
3 Alves, Danúbia Ferreira. Cidade (em) alta: o ‘realismo urbano’ em narrativas literárias e fílmicas latino-americanas. Crátilo: Revista de Estudos Linguísticos e Literários. Unipam, vol. 5, n. 2, out. 2012, p. 23
4 Palma, Daniela. Margens de dentro: submundos urbanos em filmes brasileiros. Revista Fronteiras - estudos midiáticos. Vol. 1 n. 1. Jan./abr. 2008, p. 64.
5 Carlos, Cássio Starling. Diretor baiano acerta em sua busca pela imperfeição. Folha de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Ilustrada, p. E-5.
6 Kehl, Maria Rita. Um Épico de Vidas Infames. Folha de São Paulo, São Paulo, 13 nov. 2005. Caderno Mais!, p. 3

Ficha Técnica da obra Cidade Baixa:

Midias (1)

Cidade Baixa
Direção: Sérgio Machado Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (14)

  • Alves, Danúbia Ferreira. Cidade (em) alta: o realismo urbano em narrativas literárias e fílmicas latino-americanas. Crátilo: Revista de Estudos Linguísticos e Literários. Unipam, vol. 5, n. 2, out. 2012, p. 15-27.
  • Arantes, Silvana. Sertão ressurge na tela com olhos verdes. Folha de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Ilustrada, p. E-5.
  • Carlos, Cássio Starling. Diretor baiano acerta em sua busca pela imperfeição. Folha de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Ilustrada, p. E-5.
  • Eduardo, Cleber. O cinema de aproximação: Cidade Baixa e Cinema, Aspirinas e Urubus representam um novo olhar na produção contemporânea. Revista Paisá, n. 0, mar. 2006, p. 46-48.
  • Holanda, Raquel. Marcas visuais do Nordeste no cinema contemporâneo. In: Monteiro, R. H.; Rocha, C. (orgs.). Anais do VI Seminário Nacional de Pesquisa em Artes e Cultura Visual. Goiânia – GO, 2013, p. 737 – 748.
  • Kehl, Maria Rita. Um Épico de Vidas Infames. Folha de São Paulo, São Paulo, 13 nov. 2005. Caderno Mais!, p. 3.
  • Merten, Luiz Carlos. O furacão Alice Braga. O Estado de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Caderno 2, p. D-1.
  • Nery, Luna Cristina Castro. O negro encena a Bahia: imagens e representações étnicas em cinco filmes baianos de ficção. Dissertação de mestrado. Universidade Federal da Bahia, 2010.
  • Oricchio, Luiz Zanin. Filme com hormônios, mas atento à questão social. O Estado de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Caderno 2, p. D-1.
  • Paiva, Samuel. As formas de amar e as virtudes da cidade: em Cidade Baixa, personagens apostam na afirmação do desejo para escapar da marginalidade. Teorema, n. 8, dez. 2005, p. 8 – 12.
  • Palma, Daniela. Margens de dentro: submundos urbanos em filmes brasileiros. Revista Fronteiras - estudos midiáticos. Vol. 1 n. 1. Jan./abr. 2008, p. 56-66.
  • Ramos, Fernão Pessoa; Miranda, Luiz Felipe.Enciclopédia do cinema brasileiro. 3. ed. rev. amp. São Paulo: Senac, 2012.
  • Rizzo, Sérgio. Sérgio Machado escapa de determinismos sociais. Folha de São Paulo, São Paulo, 04 nov. 2005, Guia da Folha, p. 8.
  • Silva, Hadija Chalupe da. O filme nas telas: distribuição do filme nacional. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CIDADE Baixa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67332/cidade-baixa>. Acesso em: 21 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7