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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Aitaré da Praia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.10.2020
1925
Análise

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Análise
Aitaré da Praia, de Gentil Roiz, faz parte do “Ciclo do Recife”1 e é o resultado do encontro entre o cinegrafista Edison Chagas e o ourives e fã de cinema Gentil Roiz, que dominava noções básicas de técnica e escrevia roteiros de filmes de aventura. Juntos, fundam a Aurora-Film, a primeira e mais importante produtora do Ciclo.

Aitaré da Praia é um drama situado no litoral, que tem a vida dos pescadores pernambucanos como inspiração para seu enredo. O filme é apresentado nos letreiros iniciais como “super producção” de “um drama relacionado com a vida de jangadeiros nordestinos”, “bandeirantes desconhecidos e humildes”, um “romance nas praias”, “poema de costumes dos heróis jangadeiros”. O aspecto regional é destacado e para além da paisagem e dos costumes, também se enfoca a poesia de autores locais nos letreiros. Segundo as indicações da pesquisadora Lucilla Ribeiro Bernardet, algumas filmagens acontecem na Praia de Piedade e na Rua da Imperatriz, ambas em Recife. Em Olinda, tem-se os jardins do Palacete do Sr. Santos Moreira.

O filme conta a história da vida dos jangadeiros da praia de Tatiá, dos quais se destacam alguns membros Aitaré e José Amaro, muito amigos e muito bons, além de Traíra e Zeno, muito amigos e muito maus. Aitaré e Traíra se desentendem e brigam na praia. Traíra é vencido e jura vingança. Aitaré namora Cora, linda moça muito gentil, mas D. Guilhermina, a avó da moça, não aprova o relacionamento. Em dado momento, numa festa na casa do Capitão Afonso, Aitaré briga com Zeno. Cora conta o acontecido a sua avó que informa que seu namorado é o “[...] último de uma raça que foi nossa maior inimiga.” Apesar disso, o amor entre os jovens prevalece. Num dia tempestuoso, Aitaré procura ajuda de José Amaro para colocar sua jangada no mar. Com receio de um acidente fatal, o amigo se recusa, mas Zeno, que passava por ali, decide ajudar seu inimigo antevendo um acidente fatal. A tempestade se confirma e Zeno procura abrigo na casa, onde conta que Aitaré está no mar. Cora se desespera. Mas após a tempestade, Aitaré retorna trazendo dois náufragos: o rico Coronel Felipe Rosa e sua filha Glória. Ambos passam alguns dias na companhia dos pescadores, mas acabam se entediando. De retorno a Recife, são acompanhados por Aitaré que os deixa em uma embarcação. Mas a maledicência de Zeno, faz com que D. Guilhermina e Cora acreditem que Aitaré partiu junto com o coronel e sua filha. Desiludida, sem nada mais que a prenda ao local, Cora aceita a proposta do irmão mais velho e muda-se para a capital. Aitaré retorna, toma conhecimento da situação e decide também se transferir para Recife, onde procura o coronel. Cinco anos se passam e Aitaré torna-se um perfeito citadino, freqüentado diversos círculos até o dia em que reencontra Cora numa festa. Ela o reconhece por seu bracelete e o amor contido retorna. O jangadeiro Aitaré, ascende socialmente, mas acaba por ser fiel ao amor por uma moça da região.

O enredo é marcado pela divisão da história em dois pólos, o da alta sociedade urbana (figurada por um industrial) e o da sociedade modesta que vive fora da cidade (jangadeiros). Aitaré perfaz uma exemplar “jornada do herói”, ao vencer obstáculos, combater o inimigo, realizar a façanha de salvar vidas, receber uma dádiva com sua ascensão social e vivenciar o re-conhecimento e a reunião matrimonial no desenlace.  O material remanescente não permite uma avaliação do filme realizado na década de 1920, apenas permite algumas conjecturas sobre a dificuldade da narrativa, que não alcança a fluidez desejada, com planos fixos, sem a decomposição espacial característica do cinema narrativo. Apesar da precariedade da decupagem, e da sensação de filme mutilado, por cortes bruscos que mais parecem devido à cenas que ficaram para sempre perdidas, há um cuidadoso trabalho de composição de quadro, com permanente atenção ao fundo da cena e aos objetos cenográficos. A exceção fica por conta da sequência da briga de Aitaré contra Traíra, composta de tomadas curtas, com variações de profundidade de campo e de ângulos da câmera, até chegar ao primeiro plano da peixeira, que encerra o momento mais dinâmico do filme.

Lançado em dezembro de 1925, Aitaré da Praia é distribuído somente no principal cinema local, o Cine Royal, de Joaquim Matos, em concorridas exibições, sendo um grande sucesso comercial2. Entusiasmado com a produção local, Matos realiza grandes festas a cada nova estréia cinematográfica, transformando-a em em grandes eventos sociais no Recife. Saudando o filme, uma crítica na revista Para Todos afirma: “um bom filme sob a orientação de Roiz, um progresso da indústria”3. Quando Pedro Lima, num balanço do ano de 1926, comemora o salto qualitativo do cinema brasileiro, Aitaré da Praia vem em primeiro lugar da lista fora de ordem alfabética. Em 1927, Edison Chagas compra os negativos do filme e produz uma segunda versão4. Inclui o subtítulo Jangada da morte e promove exibições em cinemas do Rio de Janeiro. Refilma algumas cenas, mas o filme não obtém o mesmo êxito. Pedro Lima comenta: “A cena do baile, um dos pontos mais fracos do primitivo Aitaré, e que não surtiu o efeito desejado, pela deficiência da montagem, foi substituída por um baile mais característico e de emoção”5. Depois de submetida a uma restauração pela Cinemateca Brasileira, em 1962, a versão original do que restou do filme é recuperada, mas as do baile, do tiro, do reconhecimento e da reunião dos dois casais não foram recuperadas.

Notas
1  O Ciclo de Recife foi o mais duradouro (1922 a 1931) e o que mais filmes produziu (13 filmes ficcionais e muitos documentários). Começa com a criação da Aurora-Film por Gentil Roiz e Edison Chagas e as filmagens de Retribuição (1925), e se encerra com os filmes de enredo No cenário da vida e Destino das rosas, lançados em 1930.
2Uma cópia de Aitaré é levada por Gentil Roiz a Adhemar Gonzaga, mas o filme afinal não foi distribuído na Capital Federal. A partir de 1924, as atividades cinematográficas em Pernambuco passaram a ser acompanhadas de perto por Adhemar Gonzaga e Pedro Lima, que promovem em suas colunas em Paratodos, Selecta e Cinearte uma forte campanha pelo cinema brasileiro.
3Revista Paratodos, apud MIRANDA, Luis Felipe. Dicionário de cineastas brasileiros.
4 Essas e outras informações foram obtidas no trabalho de BERNARDET, Lucilla Ribeiro. O cinema pernambucano de 1922 a 1931: primeira abordagem. Cópia datilografada, arquivos da Cinemateca Brasileira, 1970.
5LIMA, Pedro. Filmagem brasileira. Cinearte, 21 mar 1928.

Fontes de pesquisa 13

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  • ARAUJO, Luciana Corrêa de. O cinema em Pernambuco nos anos 1920. Catálogo da I Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. Cinemateca Brasileira, 10-19 ago 2007, p.33.
  • ARAUJO, Luciana Corrêa de. O cinema silencioso pernambucano segundo as revistas cariocas. SOCINE Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema. Estudos Socine de cinema ano VI. São Paulo: Nojosa Edições, 2005. p. 235-242.
  • ARAUJO, Luciana Corrêa de. Recife: uma sinfonia da província. SOCINE Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema. Estudos Socine de cinema ano IV. São Paulo : Panorama, 2003. p. 253-261.
  • ARAÚJO, Luciana Corrêa de e SOUZA, Carlos Roberto de. Preservar Recife. Catálogo da I Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. SP: Cinemateca Brasileira (10-19 ago 2007), p.41.
  • BERNARDET, Lucilla Ribeiro. O Cinema Pernambucano de 1922 a 1931: primeira abordagem. São Paulo: Mimeo, 1970.
  • CINEMATECA BRASILEIRA. Aitaré da Praia. Texto de apresentação do filme, com sinopse e fortuna crítica. In: Catálogo da I Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. Cinemateca Brasileira, 10-19 ago 2007, p.34.
  • CINEMATECA DO MUSEU DE ARTE MODERNA. Ciclo de Recife. Rio de Janeiro, 1970.
  • CUNHA FILHO, Paulo C. Tempo, filme, memória: a invenção do passado em Airaté da Praia. Revista Famecos, n. 36, p. 105-110, ago. 2008.
  • GOMES, Paulo Emilio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
  • LIMA, Pedro. Filmagem brasileira. Cinearte, 21 mar 1928.
  • MIRANDA, Luiz Felipe. Dicionário de cineastas brasileiros. Apresentação Fernão Ramos. São Paulo: Art Editora, 1990, 408 p.
  • PAULO C., Cunha Filho (org). Relembrando o cinema pernambucano. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/ Ed. Massangana. 2006.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.

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