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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

S. Bernardo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.06.2022
1972
S. Bernardo é o terceiro longa metragem escrito e dirigido pelo cineasta carioca Leon Hirszman (1938-1987) depois de A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967). S. Bernardo representa uma etapa difícil na filmografia de Hirszman, pelo fato de ser produzido com poucos recursos e objeto de censura, o que acaba inviabilizando sua exploração comer...

Texto

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S. Bernardo é o terceiro longa metragem escrito e dirigido pelo cineasta carioca Leon Hirszman (1938-1987) depois de A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967). S. Bernardo representa uma etapa difícil na filmografia de Hirszman, pelo fato de ser produzido com poucos recursos e objeto de censura, o que acaba inviabilizando sua exploração comercial imediata. A produtora de Hirszman, Saga filmes, decreta então falência, o que compromete quase todos os projetos do cineasta nos anos seguintes. O filme é uma adaptação do romance homônimo de Graciliano Ramos (1982-1953) publicado em 19341.

O roteiro de Leon Hirszman opta por uma adaptação literal do texto narrativo, que respeita a sequência dos acontecimentos apresentados. Paulo Honório [Othon Bastos (1933)], um homem ambicioso, consegue tornar-se senhor das terras de São Bernardo usando de métodos oportunistas e passando pelas pessoas que obstruiram as suas conquistas, rumo à acumulação de bens e poder. Pageado pela elite local, Honório é massacrado pela solidão. Decide casar-se com uma professora, Madalena [Isabel Ribeiro (1941-1990)], que leva junto para a casa grande da fazenda, a sua tia solteirona, dona Glória [Vanda Lacerda (1923-2001)]. Mulher letrada e humanista, Madalena mostra-se preocupada com a condição dos trabalhadores, pessoas que Paulo Honório explora e subjuga sem o menor escrúpulo. Fugindo ao modelo de esposa submissa, Madalena desperta a loucura e a megalomania do marido, que passa a desconfiar da sua fidelidade. Madalena, martirizada pelo ciúme e pela ira de Paulo, suicidasse, deixando-lhe um filho. Completamente solitário, Paulo Honório decide escrever um livro para contar sua história. 

O desejo de se aproximar com o texto original condiciona grande parte das escolhas de mise en scène de Hirszman. Adaptações literais - em oposição a adaptações livres - são aquelas em que a morfologia e as características estilísticas do texto são transpostas diretamente da linguagem escrita para a linguagem oral. O livro passa então a funcionar não somente como fonte para a caracterização de personagens e situações, mas vale como roteiro, escrita sobre a qual o diretor se apoia na hora de fazer a marcação das sequências e os diálogos. Em entrevista a Alex Vianny, Hirszman afirma que "o roteiro mesmo não existia e que tudo fora marcado em cima do livro"2. No cinema, as adaptações literais, mais raras do que as adaptações livres, não podem abrir mão do recurso da voz over, já que é através dela que o texto literário pode ser diretamente transplantado para a tela, razão pela qual a voz over de Paulo Honório é onipresente no filme. A forma de S. Bernardo desafia assim a do cinema tradicional, já que o filme é composto de poucas sequências e que grande parte delas são rodadas em planos abertos onde somente o som (a fala, sobretudo) é responsável pelo avanço da narrativa. Com S. Bernardo, Leon Hirszman inscreve-se numa tendência do cinema moderno, sobretudo feito na Europa a partir do final dos anos 1950, que é de aproximar ao máximo a linguagem literária da linguagem cinematográfica. Da interação entre elas criam-se novas relações entre imagem e som e, também, um objeto estético novo. Em entrevista concedida  Hirszman dá, assim, sua contribuição para uma ruptura que, desde Robert Bresson, com seu Diário de um Pároco de Aldeia, a partir do livro de Georges Bernanos (1951) evidencia a impossibilidade de se encontrar equivalências vigorosas entre elementos fílmicos e literários. Algo que tem se desenvolvido no trabalho de cineastas como Jean-Marie Straub & Danielle Huillet, Marguerite Duras e Manoel de Oliveira, entre outros.

No trecho analisado, quando Paulo Honório começa a contar sua história, as confluências aparecem, primeiramente, no que diz respeito à direção de atores. A fala é monocórdica, sem efeitos de oralidade muito marcantes: trata-se de simplesmente dizer o texto. É o que faz Othon Bastos nesse trecho, onde sua voz over acompanha literalmente as frases do romance. O rosto deixa de ser lugar privilegiado da interpretação do ator e os efeitos de decupagem clássica (campo-contracampo, closes frontais) praticamente inexistem durante todo o filme. Nesta abertura temos um corte, com uma inversão radical, a câmera tem-se um raccord espacial, indo ocupar o lugar localizado exatamente a 180° de sua posição inicial. Isto perturba o efeito de transparência e adequa-se às preocupações de Hirszman de não criar uma narrativa fluida. Num segundo momento, tem-se a aparição do que se pode chamar de 'plano suporte': os planos abertos das pastagens de São Bernardo. Longe de serem informativos, esses planos simplesmente permitem a existência do texto, servem de suporte para que ele apareça em toda sua supremacia literária. Ao final do trecho, tem-se um outro exemplo da submissão da imagem ao som que é a tônica de todo o filme. A imagem só será plenamente narrativa uma vez que a voz off assim o permitir. Dessa maneira, só saberemos que o homem ajoelhado ao lado de Paulo Honório é Joaquim Sapateiro (que lhe ensinara a ler na prisão usando uma pequena Bíblia) quando a voz off o disser. Antes disso, essa imagem dos dois homens acocorados num lugar que não remete diretamente a uma prisão nos aparece como misteriosa, desvinculada de uma função narrativa clara e imediata.

Extremamente impactante foi a estreia de S. Bernardo depois de liberado pela censura. Para Ismail Xavier, o filme é o lançamento mais importante do ano de 1973. Ele chama a atenção para a relação do filme com o teatro épico de Brecht, para a opacidade das imagens e para o lugar particular que o espectador ocupa dentro da narrativa, ao ressaltar que "a tela é uma superfície espessa onde cada cena se dá, não como um movimento contínuo dentro de uma montagem da qual participamos; isto é, cada cena não leva e não serve simplesmente à outra, mas vive o seu momento até a saturação.3" Já Luiz Carlos Merten destaca a mesma hermeticidade e a difícil aceitação popular em torno do filme, por ser ele, "seco e amargurado, realizado com lentidão quase exasperante4". Com o passar do tempo, a dificuldade dos espectadores perante o filme dá lugar a aprofundadas considerações sobre as relações que S. Bernardo trava com seu hipotexto, o romance de Graciliano Ramos. Esses textos, muitos deles desenvolvidos no meio acadêmico, evidenciam o lugar único que ocupa a obra de Hirszman na história do cinema brasileiro ao apresentar de maneira tão singular as relações entre cinema e literatura.

Em 1972, S. Bernardo recebe o troféu Carlitos, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). No ano seguinte, recebe os prêmios de melhor filme, diretor, ator para Othon Bastos e melhor atriz para Isabel Ribeiro, no Prêmio Air France de Cinema, no Rio de Janeiro, e o Margarida de Prata da CNBB. 

Notas

1. A grafia do nome do filme abrevia, no entanto, a palavra "São" do título do romance -, o que faz do filme o exemplar único de um certo tipo de cinema que dialoga diretamente com a obra original adaptada.

2. Jornal do Brasil, 12 de outubro de 1973, cf. Helena Salem, Leon Hirszman, o navegador de estrelas, Rocco, Rio de Janeiro, 1997, p. 220.

3. XAVIER, I. Em torno de São Bernardo, Argumento, ano 1, n° 3, 1974, p. 130.

4. MERTEN, L.C. "Na tela, todos os dramas sociais do nordeste, Folha da Manhã, 16 mai. 1974.

Fontes de pesquisa 8

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  • AVELLAR, José Carlos. O Chão da Palavra: Cinema e Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 440 p.
  • CARDOSO, Maurício. História e Cinema: um estudo de São Bernardo (Leon Hirszman, 1972). 2002. Dissertação de mestrado. USP - Historia Social.
  • MACKSEN, Luiz. Leon Hiszman e São Bernardo. Filme Cultura, v.III, n.25, p. 104 (26-7), mar. 1974.
  • MAINIERI, F. Fidelidade no hipertexto, Teorema n° 8, dez. 2005, p. 46-51.
  • MERTEN, L.C. Na tela, todos os dramas sociais do nordeste, Folha da Manhã, 16 mai. 1974.
  • MONTEIRO Lourençato, A. M. Paulo Honório/Madalena: um contrato de alto risco. Análise da adaptação do romance São Bernardo para o cinema. 1994. Dissertação (Mestrado em Cinema). ECA-USP, São Paulo, 1994.
  • XAVIER, Ismail. Em torno de São Bernardo, Argumento, ano 1, n° 3, 1974, p. 125-130.
  • XAVIER, Ismail. O olhar e a voz: a narração multifocal do cinema e a cifra da História em São Bernardo, Literatura e Sociedade 2, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo: Editora Marca d'Agua, 1997, p. 126-138.

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