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Beijo 2348/72

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.08.2021
1990
Beijo 2348/72 é o primeiro longa-metragem de Walter Rogério (1946), faz parte do último conjunto de filmes financiados pela produtora e distribuidora estatal Empresa Brasileira de Filmes S.A. (Embrafilme). Embora as filmagens sejam realizadas em 1987, ele é concluído em março de 1990, dias antes do fechamento da Embrafilme pelo governo Fernando ...

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Beijo 2348/72 é o primeiro longa-metragem de Walter Rogério (1946), faz parte do último conjunto de filmes financiados pela produtora e distribuidora estatal Empresa Brasileira de Filmes S.A. (Embrafilme). Embora as filmagens sejam realizadas em 1987, ele é concluído em março de 1990, dias antes do fechamento da Embrafilme pelo governo Fernando Collor de Mello. Em decorrência da crise que se instala no setor, o lançamento comercial é feito quatro anos depois, em 1994, com a verba de um concurso promovido pelo extinto Banco do Estado de São Paulo (Banespa). Para o cinema brasileiro, os anos 1990-1994 correspondem à crise de um modelo de produção cinematográfica financiado diretamente pelo Estado, levando a uma grande queda da produção.1 Longa é, portanto, a trajetória entre as filmagens e o lançamento de Beijo 2348/72.

O filme inspira-se em processo judicial real, movido por um operário que é demitido, com uma companheira de trabalho, por um beijo ocorrido no horário de serviço. No início dos anos 1970, Norival [Chiquinho Brandão (1952-1991)] é contratado por uma tecelagem da capital paulista, no bairro do Brás. Em vez de dar bola a Claudete [Fernanda Torres (1966)], tecelã apaixonada por ele, o atrapalhado carregador de fios interessa-se por Catarina (Maitê Proença), uma operária cobiçada pelos empregados e pelo supervisor da tecelagem. Depois de serem flagrados agachados ao lado de uma máquina, Norival e Catarina são demitidos por "justa causa", por um suposto beijo ocorrido às escondidas. Enquanto move um processo trabalhista contra a empresa, o operário desempregado vagabundeia pelas ruas, dorme em cinemas pornôs, se relaciona com prostitutas no Minhocão (Elevado Presidente Artur da Costa e Silva), além de trabalhar fantasiado de macaco num parque de diversões. A ação judicial dura mais de quatro anos, envolvendo intermináveis audiências e uma linguagem técnica incompreensível para Norival. No fim de um desgastante processo, recebe uma irrisória indenização referente aos seus direitos trabalhistas.

Apesar de lançado em 1994, o contexto cinematográfico de Beijo 2348/72 deve ser buscado na década anterior. Rogério dirige curtas e participa de longas-metragens relacionados ao cinema da vila, focalizado em texto escrito por Jean-Claude Bernardet (1936), sobre a produção dos cineastas jovens paulistas.

O tom geral de Beijo 2348/72 une a comédia, baseada nas peripécias e performances chaplinescas de Norival, e a crítica à burocracia da justiça do trabalho. Existem duas instâncias narrativas principais. Por um lado, imagens da vida cotidiana do operário, uma espécie de clown, motivado pelo desejo de beijar Catarina. Por outro, as intermináveis discussões entre juízes e advogados para determinar se o suposto beijo é passível de punição. No decorrer do filme, essas duas instâncias são interrompidas por cenas autônomas, que não se integram à narrativa e ironizam o absurdo do processo judicial.

Pouco antes do final do longa-metragem é apresentada a última fala do advogado de defesa [Antônio Fagundes (1949)] da empresa de tecelagem. Sua fala, marcada por uma série de termos técnicos de difícil compreensão, é sobreposta às imagens de um amplo tribunal com chão de mármore. Organizadas em uma grande fileira de cadeiras e vestidas de minissaia, dezenas de juradas realizam movimentos mecânicos e repetitivos: mexem em seus cadernos, cruzam e descruzam as pernas. O advogado faz uma piada sobre o beijo dado pelo operário, o que provoca o riso dos presentes no tribunal. Há um corte que leva para um outro espaço: a fábrica. A sequência ganha a forma de um clipe musical. Na empresa, ao som de uma música excitante e com as luzes apagadas, os trabalhadores dançam e se beijam. Entre eles, estão Norival e Catarina.

Antes de chegar às telas comerciais, o fime  é exibido em festivais de cinema brasileiros e no Festival de Cannes. Em agosto de 1990, no Festival de Gramado, consegue os prêmios de melhor montagem e de melhor fotografia. As críticas recebidas nesse festival levam Walter Rogério a modificar o filme. No Festival de Brasília do mesmo ano, conquista outros três prêmios: melhor filme, melhor ator (para Brandão) e melhor ator coadjuvante (para Joel Barcelos).

Em 1994, no contexto da estreia de Beijo 2348/72, muitos dos críticos destacam os traços de comédia nele presentes. O centro das atenções é a atuação de Brandão, sua gestualidade e as peripécias do operário por ele estrelado. Marcelo Coelho define o filme como uma comédia crítica, porém sem acidez. Trata-se de um humor inspirado em Tempos Modernos (1936), de Charlie Chaplin, em que o personagem enfrenta o mundo automatizado das máquinas: "Chiquinho Brandão vive um personagem que é pura simpatia chapliniana. Feio, experimenta sucessos amorosos. Desastrado, conhece o tema cômico por excelência, que é o da revolta mecânica dos objetos".2 O crítico Luiz Zanin Oricchio, por sua vez, contribui para aprofundar as relações entre o ator e Chaplin: "Chiquinho foi o mais acabado exemplo de ator chapliniano no Brasil. Tinha aquele poder de colocar à vista o ridículo das situações, sem precisar forçar a barra e apelar para o pastelão".3

Notas

1. CATANI, A. M. Política cinematográfica nos anos Collor (1990-1992): um arremedo neoliberal. Imagens, Campinas, n. 3, p. 98-102, 1994.

2. COELHO, Marcelo. Beijo 2348/72 recria o encanto da comédia. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 ago. 1994. Ilustrada, p.5.

3. ORICCHIO, Luiz Zanin. A via-crúcis de um beijo divertido. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 29 jul. 1994. Caderno 2.

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Beijo 2348/72, Walter Rogério
Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa 9

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  • BERNARDET, Jean-Claude. Os Jovens Paulistas. In. XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
  • CATANI, Afrânio Mendes. Política Cinematográfica nos anos Collor (1990-1992): um arremedo neoliberal. Revista Imagens nº 3. Campinas-SP: Editora da Unicamp, dez. 1994, p. 98-102.
  • COELHO, Marcelo. Beijo 2348/72 recria o encanto da comédia. Folha de S.Paulo, Ilustrada, São Paulo, 17 ago. 1994. p.5.
  • GIANNINI, Alessandro. O Beijo: uma maldição que chega ao fim. Jornal da Tarde, São Paulo, 27 jul. 1994.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. A via-crucis de um beijo divertido. O Estado de S. Paulo, Caderno 2 , São Paulo, 29 jul. 1994.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
  • PARENTE, André. Ensaios Sobre o Cinema do Simulacro: cinema existencial, cinema estrutural e cinema brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Pazulin, 1998.
  • SANTANA, Gilmar. Muita Gente Chegou para Contar: classes populares nos filmes brasileiros dos anos 80. Dissertação (Mestrado em Sociologia) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Campinas, 1999.

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