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Cinema

Mulher, Mulher

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.05.2017
1978
1979
Mulher, Mulher, dirigido por Jean Garrett (1947-1996), é o terceiro filme do cineasta produzido por Manoel Augusto Cervantes, da Maspe Filmes. Segundo informações de Nuno César Abreu1, o filme é uma produção típica da Boca do Lixo paulista. Cervantes financiava o filme até o final das filmagens, quando então, negociava o acabamento e o seu lança...

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Análise

Mulher, Mulher, dirigido por Jean Garrett (1947-1996), é o terceiro filme do cineasta produzido por Manoel Augusto Cervantes, da Maspe Filmes. Segundo informações de Nuno César Abreu1, o filme é uma produção típica da Boca do Lixo paulista. Cervantes financiava o filme até o final das filmagens, quando então, negociava o acabamento e o seu lançamento junto aos distribuidores. Mulher, Mulher foi muito bem sucedido na bilheteria2.

Este filme faz parte de um segmento específico da produção de filmes eróticos que, de acordo com o pesquisador Inimá Simões3, une a exploração da nudez feminina com maior atenção ao tratamento das imagens e algumas referências culturais eruditas. Há uma preocupação em desvincular-se da imagem grosseira e mal-acabada, atribuída na época aos filmes da Boca do Lixo. O tema de Mulher, Mulher, uma personagem complexa, em busca de superar suas neuroses, é bastante intelectualizado, se comparado a outros filmes eróticos.

A personagem principal é interpretada por Helena Ramos, atriz então conhecida e elogiada pelo público das chamadas pornochanchadas. O filme apresenta a história de Alice, uma jovem que reavalia a própria vida após se tornar viúva de um renomado psiquiatra, que pesquisava a felicidade no amor e no sexo. Alice não era uma mulher realizada; ao contrário, sentia-se traumatizada, por ser obrigada pelo marido a estranhas práticas sexuais. Depois de sua morte, Alice passa por uma grande crise. Um dia, ela encontra fitas gravadas com depoimentos dos pacientes do psiquiatra. Neles, ouvem-se relatos sobre as formas como encontraram o desejo sexual. Este encontro passava pela recorrente experiência do que era condenado pela sociedade, como a necrofilia, a homossexualidade feminina e a troca de casais. Alice sente prazer ao  escutar os depoimentos. Em um sítio, nas proximidades do litoral paulista, Alice fantasia seu envolvimento com uma estudante feminista, com o caseiro, e com o advogado da família, Luiz Carlos (Denys Derkian) que, após a morte do psiquiatra, tenta, sem sucesso, se aproximar de Alice . Ao final ela supera seus problemas ao final, quando, após uma alucinação em que presencia a morte do marido, aceita Luis Carlos.

Mulher, Mulher reafirma vários traços de outros filmes da Boca do Lixo e, como outras obras eróticas conhecidas pelo termo soft-core, procura se esquivar da ação da censura. O filme é apresentado como um produto pornográfico, embora não possua cenas de sexo explícito. Algumas das imagens exibem Helena Ramos nua, ou com roupas molhadas, ou se masturbando, mas sem a apresentação direta de atos sexuais. Uma das estratégias é atrair o público com a sugestão de perversões eróticas.

Por seu sucesso, o filme incentiva a produção de uma série de filmes pornôs, realizados na Boca do Lixo ao longo dos anos 1980, como A Menina e o Cavalo (1983), de Conrado Sanchez, Sexo a Cavalo (1985), de Juan Bajon e Experiências Sexuais de um Cavalo (1985), de Rubens Prado.

Mulher, Mulher é retido pela Censura durante cinco meses, mas liberado sem cortes para exibição comercial. A maior parte dos críticos demonstra decepção, como Inimá Simões, que comenta que o filme recai num psicologismo barato4. Outros críticos identificam o filme uma seriedade e um formalismo que destoam da maioria dos filmes eróticos. Jairo Ferreira, por sua vez, elogia Mulher, Mulher por sua depuração pela interpretação de Helena Ramos5.

Notas

1 ABREU, Nuno César. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas: Ed. da Unicamp, 2006.

2 Segundo Inimá Simões, no livro "O Imaginário da Boca", o filme de Garrett custou 2 milhões e rendeu 25 vezes mais, em menos de 1 ano.

3 SIMÕES, I. O imaginário da Boca. Cadernos Idart 6. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura do Estado de S. Paulo, Centro de Documentação e Informação sobre Arte Brasileira Contemporânea, 1981.p.48. 

4 SIMÕES, Inimá. "Boca do Lixo ainda." Filme Cultura, n.37, jan./fev./mar. 1981. p.44

5 FERREIRA, Jairo. "Parabéns Jean Garrett." Folha de S. Paulo, Folhetim, 9 set. 1979. p.15.

Fontes de pesquisa 12

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  • A. Petrônio acha filme cansativo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 02 Jun. 1979.
  • ABREU, Nuno César. Olhar Pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo. Campinas, SP: Mercado das Letras, 1996.
  • ABREU, Nuno. Boca do Lixo: Cinema e Classes Populares. Campinas: Ed. Unicamp, 2006.
  • DI PIERRO, Gilberto. Grotesco. Folha da Tarde, São Paulo, 01 Out. 179. p.42.
  • EWALD FILHO, Rubens. Fuja. IstoÉ, São Paulo, 12 set. 1979. P.72.
  • FERREIRA, Jairo. Feminismo, objeto de prazer de Garrett. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 set. 1979, p. 31.
  • FERREIRA, Jairo. Parabéns Jean Garrett. Folha de S. Paulo, Folhetim, 9 set. 1979. p.15.
  • GARDNIER, Ruy. Jean Garrett, artesão da Boca do Lixo. Contracampo - Revista de cinema, Vol. 36. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/36/jeangarrett. Acessado: 10 dez. 2010.
  • KFOURI, Assef. Para pedir o dinheiro de volta. Jornal da Tarde, 8 set. 1979. p.10.
  • SIMÕES, Inimá Ferreira. Boca do Lixo ainda. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v.14, n.37, jan./fev./mar. 1981. p.42-44.
  • SIMÕES, Inimá Ferreira. O imaginário da Boca. Cadernos Idart 6. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura do Estado de S. Paulo, Centro de Documentação e Informação sobre Arte Brasileira Contemporânea, 1981.
  • WALD FILHO, Rubens. Um pornodrama mais nocivo que a chanchada. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 set. 1979. p.41.

Como citar

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