Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

ABC da Greve

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.06.2016
1979
1990
Análise

Texto

Abrir módulo

Análise
Em 1979, enquanto Leon Hirszman (1937-1987) escreve com Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) o roteiro do filme Eles não Usam Black-Tie (1981), ocorre a primeira greve geral após a implantação do AI-5 pelo regime militar. Na região do ABC paulista, no 13 de março, véspera da posse do general Figueiredo à presidência, e cerca de 180 mil operários cruzam os braços e interrompem a produção metalúrgica: conduzidos pelo sindicato, cuja liderança central é naquele momento exercida por Luís Inácio Lula da Silva, reivindicam, principalmente, um ajuste salarial maior do que aquele proposto pelos órgãos oficiais do governo e das indústrias. Tendo em vista o projeto em que estava envolvido e percebendo a importância de um movimento grevista forte o suficiente para se opor aos militares no poder, Hirszman decide interromper os trabalhos preparatórios de Black-Tie para se engajar no registro cinematográfico da greve metalúrgica. Às pressas, monta uma pequena equipe, formada por Adrian Cooper, Uli Bruhn, Francisco Mou, Cláudio Kahns (1951) e Ivan Novais, que trabalha com ele em sistema de cooperativa: para viabilizar o documentário, cada um deles abdica de uma parte do salário e empresta equipamentos para a produção, adquirindo em troca uma parcela dos direitos de comercialização do filme.

Em entrevista concedida no dia 3 de abril de 1979, publicada apenas em 1990 com o título O Espião de Deus1, Hirszman explica que a realização do documentário, além de ajudar na composição dos personagens e situações de Eles não Usam Black-Tie, tem por objetivo principal servir à causa dos grevistas que, em sua opinião, adquiriam naquele momento consciência inédita de sua força política. O realizador procura integrar-se ao próprio processo de mobilização política, desejando que seu documentário, posteriormente chamado de ABC da Greve, mobilize o debate público durante o período, momento em que está em pauta a luta pela abertura democrática. Como sugere o diretor durante a entrevista, seu registro dos acontecimentos na região do ABC, apresentando a mobilização dos operários, deveria oferecer ao espectador a imagem - censurada pela televisão e pelos órgão de repressão - de uma classe que se organiza por seus direitos e exerce oposição à ditadura. Um filme, em suas palavra, para "recolher a memória das coisas que desconhecíamos (...) [Para sair ] da casca do medo. [De] toda essa couraça que impedia que desabrochasse a consciência do real, do que se passa de fato no país".

Infelizmente, embora desejasse inserir ABC da Greve nos debates contemporâneos à mobilização dos metalúrgicos, Hirszman não consegue terminar o filme antes de sua morte prematura, em 1987. Pelo envolvimento em dois projetos ambiciosos - a adaptação cinematográfica de Black-Tie e Imagens do Inconsciente (1987) - e pelas dificuldades encontradas em conseguir financiamento para a transformação de ABC da Greveem uma produção de circulação nacional, processo que implicaria no alto custo de ampliar a película de 16mm para 35mm, o cineasta acaba por deixar o documentário inacabado na produtora Taba Filmes. Entre 1989 e 1990, seguindo as indicações deixadas por Hirszman e retomando a edição que iniciara há alguns anos, o fotógrafo Adrian Cooper conclui o projeto com o apoio da Cinemateca Brasileira. Lançado em 1991, na própria Cinemateca, o filme, que não é exibido no circuito comercial de salas de cinema, se transforma em importante registro de um passado recente, e vem à tona em um momento no qual o "novo sindicalismo" adquire projeção nacional com o Partido dos Trabalhadores (PT) e a primeira disputa de Lula à presidência.

O documentário segue a ordem cronológica das negociações entre operários e patrões do ABC paulista no decorrer dos meses de março, abril e maio de 1979. São utilizadas técnicas do cinema direto, com uma câmera a observar a mobilização dos trabalhadores sem intervir na cena, ou entrevistas como forma de recolher as opiniões dos diferentes agentes sociais envolvidos na greve. O filme reconta integralmente o episódio histórico, detalhando a organização do operariado: os piquetes nos pontos de ônibus, a distribuição de alimentos para as famílias dos grevistas, o apoio recebido por artistas, as reuniões no sindicato e os encontros dos dirigentes sindicais com os operários no estádio da Vila Euclides.

Para além do movimento político em ascensão, o documentário também registra as reações, naquele contexto, dos representantes oficiais dos patrões e do governo militar, como é o caso da ação repressiva da polícia militar ou da decisão do Ministro do Trabalho, Murilo Macedo, que no dia 23 de março intervém no Sindicato dos Metalúrgicos expulsando a diretoria responsável pelo comando da greve. Com destaque para a atuação dos líderes trabalhistas, principalmente Lula, o filme recupera os principais embates entre as partes envolvidas e vai até o desfecho das negociações em 13 de maio, quando os grevistas voltam ao trabalho após aceitarem um reajuste salarial de 63%. A aparente derrota do movimento por um reajuste de 70% é, no entanto, encarada como vitória em ABC da Greve: nos minutos finais, a voz em off (feita por Ferreira Gullar) informa que o governo, em decorrência dos acontecimentos, se viu forçado a recuar em relação à "Lei da Greve" de 1964, a qual impunha fortes restrições ao livre exercício da atividade sindical. Ao som da música Pode Guardar as Panelas, de Paulinho da Viola (1942), o filme termina com a sensação de que a luta dos trabalhadores estava apenas começando.

Ao optar por uma montagem que se estrutura no confronto, Adrian Cooper segue a sugestão deixada por Hirszman em entrevista concedida a Alex Viany (1918-1992) em 19832. Segundo ele, ABC da Greve deveria mostrar criticamente "três rios simultâneos": os trabalhadores, os empresários e o regime militar. O primeiro deles, os trabalhadores, é apresentado na versão final não apenas como força política. Como autocrítica, questionando em 1979 a postura do artista politizado que representa o popular sem conhecê-lo concretamente, Hirszman faz de seu documentário uma possibilidade de participar diretamente no movimento grevista e na luta cotidiana da classe proletária3. Assim, buscando a proximidade com o povo como necessária para atualizar seu próprio engajamento, o cineasta vai além das filmagens da greve para se deter, em alguns momentos, na condição miserável dos moradores de uma favela.

Fazer do cinema a denúncia da situação vigente é uma constante na montagem que ABC da Greve reserva aos outros dois rios, os empresários e o regime militar. À certa altura do documentário, representantes da classe patronal anunciam, em entrevistas para a televisão, o esvaziamento da greve. Para desmenti-los, a montagem recorre à narração e às imagens de centenas de trabalhadores mobilizados, que comprovam a sua força política ao romperem com a proibição, imposta pelo governo, de utilizar o estádio da Vila Euclides como espaço para o encontro do sindicato com os operários. Torna-se recorrente esta estratégia de contrapor o discurso da elite no poder às ações da classe popular mobilizada, em um desmonte das "verdades" anunciadas pela televisão.

O filme faz ainda um comentário sobre a possível aliança entre vários setores da esquerda, motivo de entusiasmo de Hirszman em ver trabalhadores, artistas e organizações engajadas da igreja católica unidos contra a ditadura militar e pelo sucesso do movimento operário. União que o filme faz questão de gravitar em torno de Lula, liderança cujo carisma, posto à prova quando precisa convencer os trabalhadores a interromper a greve, perpassa toda a montagem de ABC da Greve.

Notas
1 CINEMATECA Brasileira. O espião de Deus. IN. Leon Hirszman: ABC da greve, documentário inédito. Catálogo. Cinemateca Brasileira: São Paulo, 1991.
2 VIANY, Alex. Leon Hirszman. AVELLAR, Jose Carlo (org.). O processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999, p. 283-314.
3 Na entrevista intitulada "O espião de Deus", Hirszman declara: "A vivência perto do povo foi uma experiência riquíssima para mim enquanto diretor de cinema. Passei a compreender uma série de coisas, (...) não há nada que enriqueça mais do que a vivência de uma greve real. Vale mais do que cem dias de pensamento concentrado em qualquer monastério do saber".

Mídias (1)

Abrir módulo
ABC da Greve
Direção: Leon Hirszman. Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa 8

Abrir módulo
  • ANTUNES, Ricardo. A rebeldia do trabalho (o confronto operário no ABC Paulista: as greves de 1978/80). Campinas: Ensaio e Editora da Unicamp, 1988.
  • CALIL, Carlos Augusto (org). É bom falar. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.
  • CINEMATECA Brasileira. Leon Hirszman: ABC da greve, documentário inédito. Catálogo. Cinemateca Brasileira: São Paulo, 1991.
  • NAGIB, Lúcia. Retrospectiva Leon Hirszman exibe ABC da Greve. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 mar. 1991.
  • NIGRO, Soraia. Filmes de Hirszman na Cinemateca. Gazeta de Pinheiros, 10 mar. 1991.
  • PEREIRA, Edmar. Na Cinemateca a partir de amanhã, uma retrospectiva da obra do diretor brasileiro, incluindo o documentário ainda inédito, O ABC da Greve. Jornal da Tarde, São Paulo, 8 mar. 1991.
  • SILVA, Maria Carolina Granato da. O cinema na greve e a greve no cinema: memórias dos metalúrgicos do ABC (1979-1991). 2008. 446 f. Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas, Departamento de História, Niterói, 2008. Disponível em: http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2008_SILVA_Maria_Carolina_Granato_da-S.pdf.
  • VIANY, Alex. Leon Hirszman. AVELLAR, Jose Carlo (org.). O processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999, p. 283-314.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: