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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Moleque Tião

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.08.2016
1943
Moleque Tião, de José Carlos Burle (1907-1983), é mais um filme brasileiro desaparecido. Primeiro longa-metragem da Atlântida Cinematográfica, fundada em 1941, inaugura a proposta inicial da companhia em realizar dramas urbanos com fundo social e apelo popular. Com pouco mais de uma hora (78 min), é o primeiro filme do qual Grande Otelo (1915-19...

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Moleque Tião, de José Carlos Burle (1907-1983), é mais um filme brasileiro desaparecido. Primeiro longa-metragem da Atlântida Cinematográfica, fundada em 1941, inaugura a proposta inicial da companhia em realizar dramas urbanos com fundo social e apelo popular. Com pouco mais de uma hora (78 min), é o primeiro filme do qual Grande Otelo (1915-1993) participa e um dos poucos em que desempenhou o papel principal. A produção rende-lhe reconhecimento definitivo como ator, e obtém bons resultados de bilheteria, além de incentivos por parte da crítica, que estimula a iniciativa.

Como não há mais o material fílmico, a história de Moleque Tião só pode ser reconstituída através de fontes documentais e depoimentos. O filme conta a história de Tião (Grande Otelo), o menino que, sonhando em ser ator de teatro, parte sozinho numa viagem cheia de peripécias, do interior do Rio de Janeiro para a capital, a fim de se apresentar a uma companhia negra de teatro de revistas. Ao chegar, sofre sua primeira desilusão, ao descobrir que a companhia se dissolvera. No entanto, conhece o maestro do grupo e pianista Orlando (Custódio Mesquita (1910-1945), a quem exibe seus dotes artísticos e que, por não poder empregá-lo de imediato, arranja para que fique numa pensão, provisoriamente como entregador de marmitas. Nas ruas, Tião conhece Zé Laranja,  filho de um português vendedor de laranjas, de quem fica amigo e conta sobre seu fascínio pelo palco. Um dia, Tião é preso por policiais e enviado a um reformatório. Quando consegue fugir, procura Zé Laranja, e chega a tempo de ver o pai do amigo ser atropelado. Para consolá-lo, diz: "Que é que tem ficar sem pai? Pai, às vezes, atrapalha". Volta ao orfanato com Zé Laranja, até fugir novamente. É quando reencontra o maestro, que lhe promete uma chance em seu novo espetáculo. Ele se apresenta em um cassino, onde faz enorme sucesso e é visto pela própria mãe, trazida do interior pelo diretor do orfanato especialmente para o espetáculo.

A novidade fica por conta da temática, que destaca o drama vivido por um jovem negro com pretensões artísticas. A ênfase nos aspectos sociais provavelmente aproximaria o filme de Também Somos Irmãos (1949), do mesmo José Carlos Burle, sendo a qualidade dramaturgica um ponto pouco desenvolvido, a se acreditar nas críticas da época. As poucas fotografias que restam de Moleque Tião mostram o interior de uma casa pobre (um barraco?), com uma imagem do Sagrado Coração, meias dependuradas, mobília rústica envelhecida, e Grande Otelo observando uma mulher (sua mãe?) a passar roupa. A imagem revela uma cenografia pouco inventiva e caracterização simples, com Otelo engomado e a mulher toda de branco. A expressividade do rosto de Otelo contrasta com o da mulher com quem contracena. Outra fotografia mostra Otelo com o queixo pousado sobre as mãos, refletindo amargura. Por sua intensidade, a imagem foi utilizada para o cartaz do filme. Além do cunho social do enredo, a obra contém um dos elementos que marcam a produção da Atlântida e a tornam célebre: os números musicais inseridos na narrativa. Ary Barroso (1903-1964), Carmen Miranda (1909-1955) e Custódio Mesquita desfilam e cantam seus sambas, como depois aconteceria em muitas outras produções da companhia.

Em entrevista, Grande Otelo1 confessa que a ideia do argumento do filme surge para Alinor Azevedo (1914-1974) quando assiste ao filme João Ninguém (1937), dirigido por Mesquitinha (1902-1956), em que Otelo faz um personagem secundário.2 É vendo este filme, que também apresenta números musicais, que Azevedo concebe um primeiro tratamento para o enredo. Outro elemento que reforça a ideia de Azevedo é a reportagem biográfica Otelo Não tem Culpa, de Samuel Wainer (1912-1980) e Joel Silveira (1918-2007) publicada na revista Diretrizes (12 dez. 1942). A reportagem destaca a trajetória difícil de Otelo, marcada por privações materiais, e o sucesso no teatro e cinema. O argumento é aceito pelos produtores José Carlos Burle, Paulo Burle e Moacyr Fenelon (1903-1953).

O filme estreia no cinema Vitória, no Rio de Janeiro, em 16 de setembro de 1943. Três dias depois, Vinicius de Moraes (1913-1980), então crítico de cinema do jornal A Manhã, escreve: "Ainda não vi Moleque Tião, o filme que o Vitória no momento exibe e onde Otelo tem o papel preponderante. Tenho certeza, de antemão, que o seu trabalho deve ser bom". A confiança de Vinicius de Moraes na interpretação de Otelo se confirma ao assistir ao filme, mas não impede que ele o desaprove. Para ele "[...] o ator não deveria nunca 'fazer' o filme, sobrepondo-se a ele no final das contas como seu valor predominante [?] o filme é seu, do início ao fim". Ele lamenta que a direção de Burle seja " fraca", faz restrições à fotografia de Edgar Brasil (1902-1954), mesmo que o reconheça como "um grande homem de câmera". Mas a crítica mais dura de Vinicius centra-se nos números musicais. Ele é muito severo com os músicos, inclusive com Ary Barroso, seu futuro parceiro.3 

A crítica segue o tom de Vinicius de Moraes, consagrando o valor de Otelo como ator e tratando a obra com ressalvas. Mário Nunes, do Jornal do Brasil (12 set. 1943) destaca: "Grande Otelo é, de há muito, o mais natural dos que entre nós têm tentado o cinema. Sem exagero, pode-se dizer que nada deixa a desejar e que é grande mesmo nos momentos de emoção contida, não a que se derrama em espetaculares dramaticidades, que são as mais fáceis de mimar". O articulista de A Cena Muda (17 set. 1943) reitera: Em Moleque Tião há um ponto alto e cometeríamos uma grande injustiça se não citássemos esse real valor da primeira película da Atlântida. Referimo-nos a Grande Otelo, o pivô da história e a alma de todo o celulóide. Grande Otelo, repetimos, é um grande ator. [...] Um outro diretor, de maiores recursos, teria sabido aproveitá-lo melhor.

Em outubro de 1943, quando o filme chega a São Paulo, onde é exibido por sete meses, Batista da Costa, crítico do Diário da Noite (12 out. 1943), reforça a impressão geral: O danado não manca uma vez. Está muito acima de tudo quanto tem aparecido até hoje nos celuloides brasileiros. Ele empacota todo mundo. Moleque espantoso! É um fenômeno que nem a popularidade nem o cinema nem nada conseguiram tirar-lhe a espontaneidade do falar, do andar, de tudo que faz. Otelo está acima do diretor e da própria fita. A turma da Atlântida começa bem.

O filme é, sem dúvida, um marco em 1943. Jayme Faria Rocha, também na Cena Muda (5 out. 1943), vê no filme apenas uns poucos defeitos. Sua crítica é entusiasta e ajuda a recuperação de dados sobre o filme: Eis o que encontrei em Moleque Tião: bom cinema. O filme tem os seus defeitos [...] mas as qualidades são tantas que, sob o prisma do cinema brasileiro, merece a classificação de ótimo. Não encontrei em detalhes, cenas notáveis como aquela do desastre do vendedor de laranjas, nem das expressões de Othelo [...].

Como muitos outros, o crítico também compara o ator com Mickey Rooney (1920-2014), famoso por seu personagem Andy Hardy em A Family Affair (1937). Rocha destaca falhas que ajudam a compreender as dificuldades da produção: "Alguns defeitos de corte: passagens bruscas de uma cena para outra [...], defeito, quando a música ao cessar para dar lugar a cenas de falas ou ruídos para bruscamente, sem entrar em fading". As intepretações também são mencionada positivamente. Os elogios se sucedem e apontam a recepção positiva generalizada.

A estreia da Atlântida, apesar dos defeitos apontados pela crítica, tem grande sucesso junto ao público e Moleque Tião será o maior êxito de Alinor Azevedo, que segue roteirizando títulos importantes da companhia. Grande Otelo só fez aumentar sua popularidade e aprimorar sua arte. José Carlos Burle, por sua vez,  segue como produtor e diretor até que, em 1947, com a venda da companhia a Luiz Severiano Ribeiro (1886-1974), passa a diretor contratado até deixar definitivamente a empresa em 1952.

Notas

1 MELLO, Geísa. Entrevista com Grande Otelo. Filme Cultura (40). Ano XV. Rio de Janeiro: ago.-out. 1982, p. 8-9.
2 João Ninguém (1936), também desaparecido, é uma produção da Sonofilmes e Alex Viany afirma que o filme "(...) foi uma comédia dramática não carnavalesca escrita especialmente para a tela por João de Barro, com roteiro de Rui Costa. Dirigida e interpretada por Mesquitinha, (...) além de apresentar uma sequência colorida, tentava conscientemente captar um tipo carioca, o compositor popular irreconhecido, e outros aspectos da vida no Rio de Janeiro.  (?)". VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1959, p. 117. (grifo nosso).
3 CABRAL, Sérgio. Grande Otelo: uma biografia. São Paulo: Ed. 34, 2007. p.11.

Fontes de pesquisa 13

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  • CABRAL, Sérgio. Grande Otelo: uma Biografia. São Paulo: Editora 34, 2007.
  • COSTA, Batista da. Moleque Tião. Diário da Noite, 12 out. 1943.
  • MACHADO, Ana Cristina Karicia. Fazer rir, fazer chorar: a arte de Grande Otelo. Dissertação de doutorado FFLCH/USP, 2006.
  • MELLO, Geísa. Entrevista com Grande Otelo. Filme Cultura (40). Ano XV. Rio de Janeiro: ago-out 1982. p. 8-9.
  • MELO, Luís Alberto Rocha. Argumento e roteiro: o escritor de cinema Alinor de Azevedo. Dissertação de mestrado, Niterói: UFF, 2006.
  • MORAIS, Vinicius de. Grandeza de Otelo. A Manhã, 19 set.1943.
  • MOURA, Roberto. Grande Othelo. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 1996.
  • Moleque Tião. A Cena Muda, 17 set. 1943.
  • NUNES, Mário. Moleque Tião. Jornal do Brasil, 12 set. 1943.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • ROCHA, Jaye Faria. O cinema brasileiro em 1943. A Cena Muda, 05 out. 1943.
  • RODRIGUES, João Carlos. O negro brasileiro e o cinema. 3. ed, Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
  • VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: MEC: Instituto Nacional do Livro, 1959.

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