Artigo da seção obras Toda Nudez Será Castigada

Toda Nudez Será Castigada

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoToda Nudez Será Castigada: 1972
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Toda Nudez Será Castigada [cartaz] , ca. 1972 , Benício
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Histórico
Toda Nudez Será Castigada (1972). Terceiro longa-metragem de Arnaldo Jabor (1940). Adaptação da peça teatral de Nelson Rodrigues (1912-1980), encenada pela primeira vez, em 1965, pelo diretor e ator Ziembinski (1908-1978).

O filme tem como protagonistas a prostituta Geni (Darlene Glória) e o viúvo Herculano (Paulo Porto). Eles se conhecem depois que Patrício (Paulo César Pereio), irmão parasita de Herculano, arma um plano para fazê-lo se apaixonar por Geni. O plano dá certo, e Herculano aceita casar-se com ela, tirando-a do prostíbulo e instalando-a num velho e afastado casarão da família, onde ela aguardará que ele providencie os arranjos necessários para o matrimônio. Serginho, filho adolescente de Herculano, assombrado pela figura materna ausente, descobre o romance do pai e se revolta. Acaba se envolvendo numa briga de bar e vai parar na prisão, onde é estuprado por um ladrão boliviano. Uma das tias vai ao casarão, onde Herculano e Geni se encontram, e anuncia o ocorrido. "Um ladrão boliviano!", ela exclama em tom de desgraça. Herculano, sob o choque da notícia, coloca a culpa em Geni, que teria atraído a tragédia para o seio familiar. Enquanto convalesce no hospital, Serginho decide apoiar o casamento do pai, mas somente para depois se vingar, tornando-se amante de Geni.

Na adaptação,  Jabor potencializa todos os recursos que, na peça, já traziam afinidade com estratégias visuais e narrativas do cinema. O filme começa com Herculano chegando ao casarão, lugar que remete a uma burguesia decadente e estagnada: os cômodos são repletos de quadros, retratos, estatuetas, móveis antigos, relíquias encarquilhadas que ali mais parecem objetos de antiquário. Herculano traz um ramo de rosas vermelhas que acentua o kitsch do personagem e prefigura o tom patético que sua derrota existencial irá adquirir logo em seguida. Ele procura Geni pela casa, mas só encontra uma gravação de voz que começa com ela dizendo: "Herculano, quem te fala é uma morta! Eu morri, me matei!". O filme, então, se desenvolverá como flashback evocado pela narração de Geni, que refaz o percurso que a levou àquele ponto extremo. Ao plantar a tragédia desde o início, e narrá-la a partir do ponto de vista de Geni, o filme gera uma sensação de queda inelutável provocada pela antecipação do clímax melodramático. A descrição da fatalidade é minuciosa e tira proveito, com concisão, de todo o obscurecimento moral dos personagens secundários, a exemplo do momento em que Serginho arquiteta mentalmente seu plano de vingança enquanto escuta uma conversa do pai com Geni: tudo se resolve na relação do diálogo off, pois o ponto de escuta, neste momento, é o de Serginho) com o sorriso demoníaco que vai surgindo no rosto do adolescente.

Outro momento significativo Toda Nudez é a cena do telefonema de Herculano para Geni, ele num orelhão, ao lado de uma rua movimentada e barulhenta, e ela na boate, com uma luz rosada a envolvê-la em atmosfera quase abstrata. Ao lado de Geni se encontra Patrício, dando-lhe conselhos para enredar Herculano em um joguete sentimental. O fundo musical fica a cargo de "Detalhes", de Roberto Carlos, verdadeiro hino do chamado "romantismo brega". De um lado, o mundo de Herculano, lutuoso, travado por culpa e preconceito, de falas e gestuais caricatos, uma bolha de anacronismo (prestes a estourar) em contraste com a realidade das ruas. Do outro, o mundo saturado de cor e luz de Geni, ávida pelas reviravoltas e surpresas do enredo folhetinesco a que se atira - sem saber, contudo, que neste enredo ela é uma presa fácil, por sua inocência mesma, sua predisposição a dar carne e vida a delírios romanescos. A cena do telefonema prenuncia o desfecho sombrio do encontro e de uma união que evidencia o colapso de uma tradição patriarcal que o filme tematiza em conexão com a conjuntura de modernização conservadora sob o regime autoritário.

A Geni interpretada por Darlene Glória é presença luminosa que redimensiona o drama. Sua performance e seu corpo polarizam os pontos altos da encenação da tragicomédia. Herculano encarna a figura patética, por vezes grotesca, de uma autoridade paterna reduzida à impotência diante de situações limítrofes que o levam à humilhação irremediável. A mistura de gêneros inclui elementos de paródia que corroem valores e descartam a idéia de elevação espiritual ou de sublimação das paixões. Tudo é queda, tudo converge para a ruína de antigos edifícios morais e familiares e, se há um teatro em jogo, este preza pelo excesso. Há uma intensificação da carga emotiva das cenas obtida pela redução do drama ao essencial (o diretor descartou cenas da peça adjacentes à trama principal e cortou os diálogos com reflexões filosóficas dos personagens); vem a primeiro plano a matéria tragicômica rodriguiana.

A partir dos anos 1969-1970, ganha força no cinema brasileiro uma tendência a focalizar os dramas de família, fazer a autópsia do patriarcalismo. Segundo Ismail Xavier, esta tendência se traduz em duas vertentes apoiadas no teatro moderno brasileiro: de um lado, a articulação da esfera domiciliar com as relações de classe e com a vida pública e política (esta articulação continuará presente em Eles Não Usam Black-Tie 1980, de Leon Hirszman); do outro, o mergulho no universo íntimo ressaltando as paixões veementes, o desejo, a culpa, as neuroses da classe abastada, as mazelas sentimentais, tendo como pano de fundo uma crise da instituição familiar.¹ Neste segundo caso, o diálogo do ci nema brasileiro com Nelson Rodrigues é ampliado e encontra em Jabor a figura-chave, por conta de suas duas adaptações,Toda NudezO Casamento (1975). Jabor salta, portanto, da alegoria e da estética de condensação histórica, presente em seu filme Pindorama (1970), para uma dramaturgia concentrada na família, não abordando a política e os problemas nacionais senão indiretamente, uma vez que o vínculo entre o universo de seus dramas familiares e a situação do país pode ser claramente percebido, porém nas entrelinhas, inserindo-se num contexto do cinema brasileiro "em que havia a procura de um cinema para o grande público disposto a encenar a vida cotidiana, as questões do mundo privado, fossem essas vistas ou não como mediação para pensar o momento do país em sua amplitude maior".²

Nelson Rodrigues, que deplora a maioria das adaptações cinematográficas de seus textos, aprova a versão de Jabor para Toda Nudez. Dentre os elogios mais importantes, ele destaca "a tensão dionisíaca"³ e o fato de que o filme não nega, como outros antes negaram, a vocação folhetinesca de seu teatro. "Não houve jamais um trágico no mundo, e eu citaria Shakespeare, que não fosse de um folhetinesco delirante. [...] Arnaldo Jabor preserva em toda sua pureza e violência o meu dramalhão"4 Toda Nudez, que rapidamente se torna fenômeno de público, é ainda a ocasião para Arnaldo Jabor se redimir com a crítica, que havia rejeitado Pindorama. O novo filme é elogiado e se torna pauta privilegiada de debates culturais e artísticos. Paulo Emílio Salles Gomes enfatiza os aspectos que a personagem Geni não continha napeça mas ganha na tela: "uma inocência e alegria de viver enérgicas e comunicativas". Para ele, "essa revitalização da personagem deu um vigor novo a uma das intenções prováveis do dramaturgo: opor a florescência dos valores de Geni no prostíbulo ao seu fenecimento no seio da família. A cumplicidade criativa entre Jabor e Darlene Glória foi completa" Jornal da Tarde, 26 de abril de 1973).

Por fim, cabe destacar a boa repercussão do filme em festivais, a exemplo de Gramado (prêmios de melhor filme, melhor atriz para Darlene Glória e melhor música para Astor Piazzola (1921-1992) e Berlim (Urso de Prata e prêmio de melhor atriz para Darlene Glória).

Notas

1.XAVIER, Ismail, "Pais humilhados, filhos perversos: Jabor filma Nelson Rodrigues", O Olhar e a Cena, São Paulo: Cosac Naify, 2003, pp. 285-322.
2.Idem, p. 185.
3. "As confissões de Nelson Rodrigues: 'História de um filme'", O Globo, 8 de março de 1973.
4. Nelson Rodrigues, "Toda nudez: um papo entre Nelson e Jabor",  O Globo, 9 de março de 1973.

 

Ficha Técnica da obra Toda Nudez Será Castigada:

Representação (1)

Midias (1)

Toda Nudez Será Castigada (1972), Arnaldo Jabor
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Fontes de pesquisa (5)

  • ADES, Eduardo e KAUFMAN, Mariana (org.), Arnaldo Jabor: 40 anos de Opinião Pública, Rio de Janeiro: Imagem-Tempo Produções/ACCBB-SP, 2007.
  • Salles Gomes, Paulo Emilio. Jornal da Tarde, 26 de abril de 1973.
  • As confissões de Nelson Rodrigues: História de um filme. O Globo, Rio de Janeiro, 8 mar. 1973.
  • Nelson Rodrigues. Toda nudez: um papo entre Nelson e Jabor. O Globo, Rio de Janeiro, 9 mar. 1973.
  • XAVIER, Ismail. Pais humilhados, filhos perversos: Jabor filma Nelson Rodrigues. In: ________. O olhar e a cena: Melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 285-322.

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  • TODA Nudez Será Castigada. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67254/toda-nudez-sera-castigada>. Acesso em: 17 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7