Artigo da seção obras Triste Trópico

Triste Trópico

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoTriste Trópico: 1974
Filme

Histórico
Triste Trópico, dirigido por Arthur Omar (1948), é o primeiro longa-metragem do cineasta, produzido pela Melopeia Cinematográfica. Dá continuidade a discussões já presentes no seu curta-metragem Congo (1972), tais como o questionamento das relações estabelecidas pelo documentário com a cultura brasileira e o contato entre cineastas e o povo. O filme não se enquadra em nenhuma das duas vertentes típicas da virada dos anos 1960 para os 1970: o cinema novo ou o cinema marginal. É um cinema de autor de estilo muito original que constrói uma poética do falso documentário que aparenta ser o que não é.

O texto de Omar O Antidocumentário Provisoriamente, publicado em 19781, questiona as certezas do documentário e sua ilusão de estar representando a realidade brasileira e a cultura popular. O filme Triste Trópico adota, na aparência, a retórica do documentário e narra a trajetória do doutor Arthur Nogueira, um personagem fictício que o locutor apresenta como pessoa real que, tendo vivido na primeira metade do século XX, se forma em medicina pela Sorbonne, em Paris, cidade onde faz amizade com André Breton e toma contato com o surrealismo. De volta ao Brasil, se embrenha no interior para atuar como criador de remédios e pesquisador dos segredos das culturas indígenas, em sintonia com as condições tropicais do país. Seus dotes e carisma o transformam em líder messiânico a conduzir peregrinações. Há no trajeto do doutor Arthur um movimento em direção ao interior do país que parodia, ao mesmo tempo, a experiência do escritor Euclides da Cunha (1866 - 1909), no livro Os Sertões, e o relato do antropólogo Claude Levi-Strauss (1908 - 2009), em Tristes Trópicos.

As imagens que acompanham essa narração parecem, de início, efetivamente ilustrá-la, oferecer a evidência documental dos fatos. Aos poucos, no entanto, entende-se que a montagem dispõe sons e imagens em descompasso. São linhas que correm paralelas, desde a sequência inicial em que imagens de São Paulo "ilustram" a narração feita por Othon Bastos, que proclama estarem os dados da biografia do doutor Arthur apoiados em depoimentos, como o da sua viúva, ou em imagens de um filme doméstico supostamente realizado pelo próprio médico: "Este filme homenageia o doutor Arthur Alves Nogueira, nascido em 1892 e morto em 1949".

Do início ao fim, o universo evocado é o da República Velha, com a economia cafeeira, os movimentos messiânicos, resíduos do passado colonial e relatos das buscas dos tupinambás pela terra sem mal. As imagens do centro de São Paulo, no início, e a sucessão de cenas do carnaval de rua, filmadas no Rio de Janeiro pelo próprio Omar, se combinam com diagramas, gravuras do período colonial, imagens do meio rural que evocam, porém de maneira vaga, indefinida, um mundo que parece compatível com a fala do locutor, aos poucos se evidencia a sua função mais simbólica do que de confirmação da veracidade de uma narração cujo nonsense ironiza a forma do documentário tradicional.

Desfila na tela o contraste entre o urbano e o rural, entre o arcaico e o moderno. A montagem, em sua descontinuidade, reúne elementos díspares, pertencentes a contextos distintos.  Os desenhos, lembrando a visão dos europeus sobre os povos indígenas, evocam o canibalismo e o animalesco. Existem corpos pendurados, enforcados ou mutilados, associados a cortejos e rituais em torno de fogueiras. Imagens documentais, que teriam sido feitas pelo próprio doutor Arthur, apresentam situações familiares e momentos descontraídos da década de 1920. Caricaturas lembram sangramento e morte. Imagens do desfile de blocos carnavalescos no Rio de Janeiro evocam o presente histórico de forma alegórica. Em algumas das máscaras encontra-se a reatualização do imaginário associado ao canibalismo tupinambá. Há fotografias feitas pelo próprio Omar, em museus da Europa; além de imagens das páginas de um almanaque popular. Com base em um amálgama de elementos, o filme apresenta assim uma leitura tropicalista da história do Brasil.

Como observa Ismail Xavier2, Triste Trópico, no contexto da tradição alegórica do cinema brasileiro centrada na questão do messianismo, fecha um ciclo iniciado em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha (1939 - 1981). Nesse filme, a peregrinação dos personagens é uma jornada sofrida, porém iluminadora, e resulta um impulso inspirador de atitudes revolucionárias de longo alcance. E incorpora a ideia de revolução e de emancipação como destino. Já no filme de Omar, a jornada do herói visionário leva ao abismo, adquirindo uma tonalidade trágica. A empreitada desse médico/messias é malsucedida, terminando com sua morte e a dissolução do movimento que lidera. O impulso messiânico não alcança seu objetivo de redenção. Há uma dissolução da ideia de finalidade da história como movimento rumo à salvação, a um mundo melhor. Triste Trópico ressalta o lado negativo da formação nacional, no que se afina com Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, e os filmes do cinema marginal.

Por meio da separação, não sintonia entre as bandas de imagem e de som, emerge o senso de apreensão fragmentária de uma cultura, ali exposta nesses materiais em descompasso. Exemplo de filme moderno, Triste Trópico chama atenção para a textura da imagem e do som, e elege por tema o próprio cinema, revelando a força da montagem que institui o imaginário como real, que lança os temas da identidade cultural, da migração e do contato com o estrangeiro durante o regime militar. Sincretismo e violência, choque de tempos históricos, a ambiguidade da oposição entre civilização e barbárie, tudo se tinge de ironia, tal como inspira o referencial do modernismo dos anos 1920: Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (1890 - 1954), e Macunaíma, de Mário de Andrade (1893 - 1945).

O filme tem boa repercussão entre a crítica de cinema. É exibido no 1º Festival de Cinema de Belém, Pará, de 1974, e recebe o prêmio especial do júri e a placa de prata da crítica cinematográfica. Em crítica de 1974, José Carlos Avellar aproxima o filme de um quadro abstrato, em que é importante o contato com a forma: "Libertar as imagens e os sons dos vícios contraídos na produção comercial é o objetivo principal deste filme"3.  Segundo o crítico, as imagens são selecionadas apenas por suas características formais, não existe uma história para justificá-las. O verdadeiro assunto do filme não é a história do doutor Arthur e sim o próprio cinema. "Existe apenas o cinema: imagens para se ver, sons para se ouvir."

Carlos Murao4 lembra também que a regra do filme é a não coincidência entre imagem e narração do locutor. Segundo ele: "Triste Trópico é um filme sobre o processo de deformação, as contradições da cultura brasileira e a formação do intelectual brasileiro: constrói um sistema dramático que signifique uma cultura feita de cacos e que procura 'tragicamente' se reconstruir em outras bases"5.

Notas

1 OMAR, Arthur. O antidocumentário, provisoriamente. Revista de Cultura Vozes, v. 72, n. 6 de agosto de 1978.
2 XAVIER, Ismail. O avesso do Brasil: cópia recuperada de Triste Trópico, filme de Arthur Omar, é exibida em São Paulo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 de janeiro de 1997. Mais!
3 AVELLAR, José Carlos. Cinemaníaco. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1974.
4 Pseudônimo utilizado pelo crítico Jean-Claude Bernardet.
5 MURAO, Carlos. Cultura feita de cacos. Opinião, 20 de dezembro 1974.

Ficha Técnica da obra Triste Trópico:

Fontes de pesquisa (9)

  • AVELLAR, José Carlos. Cinemaníaco. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 09 dez. 1974.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Esboço de Interpretação Psicanalítica. Caderno de Crítica, n.4. Rio de Janeiro: Embrafilme, 1987, p.39-41.
  • MURAO, Carlos. Cultura feita de cacos. Opinião, Rio de Janeiro, 20 dez. 1974.
  • OMAR, Arthur. O antidocumentário, provisoriamente. Revista de Cultura Vozes, v. 72, n.6, ago. 1978.
  • RAMOS, Guiomar. O Espaço Fílmico-Sonoro em Arthur Omar. 1995. Dissertação (Mestrado em Cinema) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), São Paulo, 1995.
  • STAM, Robert. On the margins: brazilian avant-garde cinema. In: JOHNSON, R.; STAM, R. Brazilian Cinema. N.Y.: Columbia Press, 1995. p.325-327.
  • XAVIER, Ismail. O avesso do Brasil: cópia recuperada de 'Triste Trópico', filme de Arthur Omar, é exibida em SP. Folha de S. Paulo, Mais!, 19 jan. 1997.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Os Jovens Paulistas. In. XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. p. 65-91.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TRISTE Trópico. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67252/triste-tropico>. Acesso em: 21 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7