Artigo da seção obras Assalto ao Trem Pagador

Assalto ao Trem Pagador

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoAssalto ao Trem Pagador: 1962
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O Assalto ao Trem Pagador [cartaz] , ca. 1962 , Ziraldo
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Análise
Assalto ao Trem Pagadoruma produção por Herbert Richers e Jarbas Barbosa. Quinto longa-metragem dirigido por Roberto Farias (1932) e tem como base para o argumento um episódio verídico ocorrido em junho de 1960. Uma quadrilha, com seis integrantes, explode com dinamite os trilhos próximos à Estação de Ferro Central do Brasil e rouba 27 milhões de cruzeiros de um trem postal. Contudo, o objetivo maior do filme não é dramatizar ou reconstituir os eventos que envolvem o assalto em si, mas explorar as ações que se seguem à divisão do dinheiro roubado, quando esses seis indivíduos tornam se alvo das investigações e buscas policiais.

Farias recupera as causas que levam cada assaltante a cometer o crime, contextualizando essas motivações por meio de suas histórias de vida. Faz o espectador observar as justificativas, especialmente no caso de Tião Medonho (Eliezer Gomes), líder do bando, cujo interesse no roubo é garantir às suas duas mulheres e a seus filhos uma vida mais confortável do que aquela levada no morro. O acordo entre os assaltantes, em não gastar mais de 10% do dinheiro para não levantar suspeitas, não é cumprido. Miguel Gordinho (Miguel Ângelo) e Grilo Peru (Reginaldo Faria), organizador intelectual do assalto, acabam esbanjando a fração recebida pela ação, gerando desavenças dentro do grupo. Essa desunião ajuda a polícia e o delegado (Jorge Dória) a desmantelar a quadrilha, prender boa parte de seus integrantes e a assassinar Tião Medonho.

Em 1962, ano de lançamento de Assalto ao Trem Pagador, o cinema brasileiro vive um momento de euforia. Entre os jornalistas e os jovens diretores estreantes, boa parte não simpatizante das chanchadas, há um desejo de renovação, de que surja uma cinematografia nacional com forte presença de conteúdo social. O cinema novo e seus adeptos debatem e questionam os valores estéticos vigentes e propõem transformações coerentes com esse projeto nacionalista de conscientização política, tendo Glauber Rocha (1939-1981) à frente dessas discussões. Em outra perspectiva, O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, torna-se sucesso de público e recebe a Palma de Ouro no Festival de Cannes, premiação inédita para um filme brasileiro. É nesse contexto de otimismo e de boa repercussão internacional que Assalto ao Trem Pagador estreia nos circuitos comerciais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A imprensa, ansiosa pela novidade, acompanha durante meses a realização do filme, noticiando desde a assinatura de contrato entre Farias e os produtores Richers e Barbosa1 até o processo de escolha, por concurso popular, do motorista Eliezer Gomes para viver o papel de Tião Medonho.2 A reconstituição do crime agregada à crítica social - incluindo a presença de personagens psicologicamente bem estruturados - é o ponto forte do filme. Além da sequência inicial, quando a filmagem do assalto é realizada de modo a garantir uma encenação realista, com a explosão de dinamites verdadeiras e o uso do mesmo trem roubado em 1960, outros dois momentos sintetizam a sua proposta.

O primeiro deles, talvez o mais tenso da obra, traz a cena em que o grupo de Tião Medonho prepara a morte de Grilo Peru, acusado de traição por esbanjar o dinheiro do roubo. O embate não se atém às consequências práticas do assalto, ele revela preconceito social e racial. Negando-se a pedir clemência, Grilo Peru procura rebaixar Tião Medonho, opondo seus olhos azuis e seu cabelo loiro, que, segundo ele, garantem uma aparência compatível com a ascensão social, à cor negra do rival, que lhe destina uma eterna marginalização. A raiva enuncia frases duras como "o seu destino é viver na favela, o seu e de sua família" ou "você tem cara de macaco", e a montagem sublinha o conflito ao opor os dois personagens por meio de planos cada vez mais próximos.

O segundo, já no fim do filme, após a morte de Tião Medonho, traz à tona conflitos de classe. A polícia e os jornalistas, ávidos por encontrar o dinheiro do assalto, destroem e pisoteiam os objetos pessoais da família de Tião Medonho, em desrespeito à recente viúva e aos seus três filhos. A cena tensa atinge o clímax quando um movimento de câmera mostra em primeiro plano o rosto da viúva (Luiza Maranhão), que, não suportando mais a histeria a sua volta, revela o esconderijo onde está guardado parte do furto. Nesse momento vem à tona a obsessão dos invasores menos pela solução do crime do que pelo feiticismo causado pelo dinheiro e a composição da cena acentua a carência e a exclusão vividas pela família de Medonho. O sonho de escapar da miséria se dissolve, restando o medo e o desespero que se congelam numa última imagem.

Quando entra em cartaz, o filme recebe elogios da crítica. Farias, saudado como um cineasta promissor em início de percurso, é comparado a Anselmo Duarte, pois ambos teriam deixado para trás o universo das chanchadas para fazer filmes comprometidos com a crítica social. A aposta na aproximação do cinema comercial ao recado político e à reflexão crítica sobre a sociedade brasileira é bem recebida. Paulo Perdigão, em matéria publicada no Diário Carioca, de 18 de julho de 1962, escreve: "Nesse filme, condensa-se o mínimo que o filme brasileiro, com tantas aventuras de chanchada nas costas, aprendeu, de maneira a nivelar-se ao cinema internacional de linha e sair do inqualificável das piores escolas do mundo (dramalhão asteca, trottoir francês)". Octavio de Faria, no Correio da Manhã, do dia 1 de agosto de 1962, não deixa de enxergar defeitos na película, mas assume uma postura de defesa do novo, visto como parte do progresso geral do cinema brasileiro: "Está longe de qualquer perfeição e é isso, justamente, que o torna mais simpático e merecedor de nossa simpatia: porque não ignora sua condição íntima nem pretende ser um filme perfeito".

Em duas críticas publicadas no Correio da Manhã, em 3 de julho de 1962, cinco dias após a estreia do filme no Rio de Janeiro, Sérgio Augusto defende a inclusão de Assalto ao Trem Pagadorno movimento do cinema novo, procurando demonstrar como o longa-metragem, próximo do gênero noir norte-americano, apresenta um comprometimento político "sem doutrinações, efeitos retóricos ou fraseados discursivos". No texto, Sérgio Augusto valoriza a capacidade de Farias para realizar um filme comercial que, no diálogo com um estilo cinematográfico estrangeiro, consegue problematizar questões tipicamente brasileiras, caso da marginalização social dos pobres como fator decisivo para o planejamento do roubo. Para ele, Assalto ao Trem Pagador é um filme-reportagem, uma reconstituição minuciosa de acontecimentos, "obedecendo exclusivamente à clássica síntese do relato jornalístico (...) [e que] acima de tudo, [como] desejava o diretor, [estabelece] uma conjunção entre os homens, atingida através de uma análise consciente de uma situação social".
Benedito Junqueira Duarte, em texto publicado na Folha de S.Paulo no dia 7 de setembro de 1962, considera equivocada a escolha da película como representante do Brasil no Festival de Veneza desse ano. É justamente na proposta de Farias, de aproximar o gênero policial e a crítica social, que ele encontra o desacerto: "[há sequências] irritantes por seu primarismo e por sua demagogia barata (...) [um] exagero na procura do efeito fácil e o afã de expressar-se pelo discurso grandiloquente". Crítica negativa, o texto de Duarte é uma exceção.

Notas
1. Extraído do jornal O Dia, de 31 de dezembro de 1961.
2. Extraído do Jornal do Brasil, de 11 de janeiro de 1962.

Ficha Técnica da obra Assalto ao Trem Pagador:

Representação (1)

Midias (1)

Assalto ao Trem Pagador (1962)
Direção: Roberto Farias Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (7)

  • 'TIÃO Medonho do cinema já foi achado: tem 1,81 de altura e 104 quilos. Jornal do Brasil, 11 jan. 1962.
  • Assinado o contrato para a realização do filme O Assalto ao Trem-Pagador. O Dia, Rio de Janeiro, 31 dez. 1961.
  • AUGUSTO, Sérgio. Assalto ao Trem Pagador. Correio da Manhã, 3 jul. 1962.
  • DUARTE, B. J. Assalto ao Trem Pagador. Folha de S.Paulo, 7 set. 1962.
  • FARIA, Octavio.  Assalto ao Trem Pagador. Correio da Manhã, 1 ago. 1962.
  • NASCIMENTO, Hélio. Assalto ao Trem Pagador In: O Reino do Imagem. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 2002 (Texto originalmente publicado no Jornal do Comércio, em 29 nov. 1966).
  • PERDIGÃO, Paulo. Assalto ao Trem Pagador. Diário Carioca, 18 jul. 1962

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ASSALTO ao Trem Pagador. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67251/assalto-ao-trem-pagador>. Acesso em: 22 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7