Artigo da seção obras Aleluia, Gretchen!

Aleluia, Gretchen!

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoAleluia, Gretchen!: 1976
Filme
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Aleluia, Gretchen [cartaz] , 1976 , Gilberto Marchi
Reprodução fotográfia autoria desconhecida

Análise
Aleluia, Gretchen! é o terceiro longa-metragem de Sylvio Back (1937), tem roteiro do próprio diretor, com a colaboração de Manoel Carlos Karam (1947), e coprodução da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme). O filme narra a saga de 40 anos de uma família de imigrantes que chega ao Brasil, em 1937, após um de seus integrantes, o democrata Ross, divergir do partido nacional socialista alemão, regime político controlado por Hitler, e com ele romper. Apresenta a trajetória dos Kranz em seu envolvimento com integralistas e ex-oficiais da SS, polícia do partido nazista, que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, se refugiam no Brasil para escapar dos tribunais de guerra. A crença na superioridade racial ariana marca a relação dessa família com o Brasil, especialmente a da matriarca frau Lotte (Miriam Pires), que vê a nova terra apenas como colônia a ser explorada segundo as necessidades e os interesses do imigrante europeu.

Back utiliza várias estratégias para expor esse autoritarismo e seu papel nas relações sociais no Brasil. Os Kranz, em seu temor de se misturarem culturalmente com os brasileiros, permanecem quase sempre isolados nas dependências do Hotel Florida (anagrama de Adolfo Hitler), onde vivem. A propriedade, verdadeira muralha erigida para dificultar o encontro com o espaço público, é fronteira simbólica para preservar a suposta pureza racial dos alemães. Nesse microcosmo em que frau Lotte reina soberana, o contato com o outro é seletivo. Ciosos de sua superioridade, seus integrantes aceitam a amizade do integralista Aurélio (José Maria Santos), homem sempre disposto a celebrar o nazismo; recebem com desconfiança, em discussões recheadas de tensão, o noivado da filha Gudrun (Selma Egrei (1949)) com o brasileiro Eurico (Carlos Vereza (1939)); e transformam o negro Repo (Narciso Assumpção) em eterno escravo. 

É esse personagem, aliás, quem protagoniza uma das cenas de preconceito racial do grupo. Repo, incorporando o pensamento do colonizador, rejeita a própria identidade na expectativa de "embranquecer". Embriagado, vestido de papai-noel para alegrar a família Kranz, com o olhar voltado diretamente para a câmera, pinta seu rosto com talco ao som da música Nega do Cabelo Duro (David Nasser/Rubens Soares), cantada em inglês e português.
Se o Hotel Florida é um microcosmo das relações presentes no Brasil, funcionando com um espaço alegórico, a trajetória dos Kranz ao longo de décadas marca a existência e permanência desse tipo de pensamento autoritário na vida política e social do país entre os anos 1930 e 1970. Ela atravessa contextos históricos diversos, numa narração que salta no tempo para se deter em alguns momentos da política brasileira que evidenciam a forma como aquele ideário sobrevive ao tempo e se repõe como discurso da elite. Segundo Hélio Nascimento, o filme de Back, ao propor uma leitura alegórica do Brasil, coloca em pauta a destruição dos valores humanistas (representados essencialmente pelo professor Ross).1 Tendo como referência o autoritarismo no país, não seria exagero considerar o filme como um comentário crítico sobre a situação no fim dos anos 1960 e durante a década de 1970, com nítida evocação do regime militar.

Dentro da chave alegórica apresentada, Back constrói figuras que personificam ideologias, são tipos que existem como vozes discursivas, reiterando seu credo em monólogos e falas oratórias. Eles mantêm intactas personalidade e aparência, não envelhecem no decorrer de 40 anos. Representam os mesmos pensamentos e ideias-força hegemônicas na história brasileira. 

Ao longo da trama, é oferecido às figuras em conflito um momento especial em que ocupam o centro e apresentam seus valores de forma mais explícita. O democrata Ross discursa para os defuntos; na ceia natalina, frau Lotte defende o colonialismo ariano; o brasileiro Eurico apresenta-se como um liberal; e o integralista Aurélio, em devaneios, reconstitui uma falsa e quixotesca tomada do Palácio do Catete, nos tempos de Getúlio Vargas, uma referência ao golpe fracassado de 1938. Como em um jogo de xadrez, as peças-personagens são colocadas no tabuleiro cinematográfico movimentando-se em confrontos ideológicos de diferentes épocas. No fim, um letreiro indica o contexto atual, 1977, ano do lançamento do filme. O reencontro de todos na sequência de encerramento, na festa de aniversário de frau Lotte, torna-se a celebração simbólica do ideário filonazista transposto para o Brasil. Os vencidos, silenciosos, observam, impassíveis, o negro Repo, agora sambista, oferecer sua arte a quem o escraviza. Esse é o momento em que se faz contundente o comentário sobre a permanência do pensamento autoritário entre os brasileiros, quando frases de efeito indicam a ausência de mudanças políticas estruturais no país: "Quando as ideias não envelhecem, o corpo resiste", "a história se repete, se imita", "só mudou o penteado, a cabeça continua a mesma".

No geral, a imprensa posiciona-se favoravelmente a Aleluia, Gretchen! na época de seu lançamento comercial. É recebido como instigante e polêmico, um respiro intelectual no momento em que o cinema nacional parece comprometer-se pouco com a crítica à política. Considerando-o ousado e concordando com a leitura de Brasil proposta por Back, José Carlos Avellar2 publica no Jornal do Brasil uma análise estética detalhada do longa-metragem, reconhecendo a chave alegórica como necessária para pensar o presente. Já o crítico José Carlos Monteiro3 salienta a importância do filme pela "denúncia contundente de um perigo [o autoritarismo] que cresce em todo o mundo". Voz discordante em meio aos elogios, Jean-Claude Bernardet (1936), no artigo "Aleluia, Gretchen: a metáfora e a história",4 considera a opção alegórica de Back uma forma "de abdicar dos processos históricos específicos tanto do presente como do passado (...) [pois] estabelece aproximações e analogias bastante superficiais (...) É a procura das especificidades [dos processos históricos da época tratada] que mostrará os jogos das forças sociais num determinado momento".

Aleluia, Gretchen! só é liberado para exibição comercial após a censura federal impor o corte de duas sequências, a da juventude hitlerista se exercitando nua e a do personagem Eurico sendo torturado por ex-agentes nazistas.

Notas
1. NASCIMENTO, Hélio. Aleluia, Gretchen. Jornal do Comércio, 3 de novembro de 1977.
2. AVELLAR, José Carlos. Corpo vivo. Jornal do Brasil, 12 de abril de 1977.
3. MONTEIRO, José Carlos. O Globo, 2 de abril de  1977.
4. BERNARDET, Jean-Claude. Aleluia, Gretchen: a metáfora e a história. Movimento, 20  de junho de 1977.

Ficha Técnica da obra Aleluia, Gretchen!:

Representação (1)

Midias (1)

Aleluia, Gretchen (1976)
Direção: Sylvio Back Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Fontes de pesquisa (7)

  • BACK, Sylvio (org.). Aleluia, Gretchen! Rio de Janeiro: Imago, 2006.
  • BACK, Sylvio. Sylvio Back: Filmes noutra margem. Prefácio de Carlos Alberto de Mattos; textos de Rubem Biáfora e outros. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 1992.
  • CIVILIZAÇÃO do sul, o essencial é ser autêntico - entrevista com Sylvio Back. Opinião, 1 abr. 1977.
  • KAMINSKI, Rosane. Poética da Angústia: história e ficção no cinema de Sylvio Back (1960-1970). 2008. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal do Paraná, Paraná.
  • KAMINSKI, Rosane. Do texto à imagem: as faces da violência nas crianças nazistas em Aleluia, Gretchen!. IN: CAPELATO, Maria Helena; MORETTIN, Eduardo; NAPOLITANO, Marcos; SALIBA, Elias Thomé (orgs.). História e Cinema. São Paulo: Alameda, 2007, p 271 - 288.
  • SANTOS, Luiz Gonzaga dos. Aleluia (cinema nacional) Gretchen - uma surpresa para todos. Cinema em close-up, v.3, n.15, 1977
  • MAGALHÃES, Marion Brepohl de. Aleluia, Gretchen: um hotel para o Reich. In: SOARES, Mariza de Carvalho; FERREIRA, Jorge (orgs.). A História vai ao cinema: vinte filmes brasileiros comentados por historiadores. Rio de Janeiro: Record, 2001. p 33-41.

Como citar?

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  • ALELUIA, Gretchen!. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67248/aleluia-gretchen>. Acesso em: 20 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7