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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Ressurreição

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.04.2022
1872
Ressurreição (1872) é o primeiro romance de Machado de Assis (1839-1908). Nesta obra de formação, o autor introduz ferramentas literárias notáveis em todos os seus romances, como a ironia narrativa e a complexidade psicológica dos protagonistas. Marcado pela confluência de elementos do romantismo e do realismo, o livro torna-se ponto de inflexão...

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Ressurreição (1872) é o primeiro romance de Machado de Assis (1839-1908). Nesta obra de formação, o autor introduz ferramentas literárias notáveis em todos os seus romances, como a ironia narrativa e a complexidade psicológica dos protagonistas. Marcado pela confluência de elementos do romantismo e do realismo, o livro torna-se ponto de inflexão no repertório literário nacional.

A trama aborda o relacionamento entre Félix e Lívia. Completam a narrativa os  personagens secundários: Viana, irmão de Lívia, Menezes, amigo de Félix, Raquel, filha do Coronel Morais, e Batista, amigo do Coronel. Félix é cético em relação ao amor, engaja-se somente em relacionamentos curtos. No entanto, apaixona-se por Lívia durante o sarau na casa do Coronel Morais. Após o cortejo preliminar, ambos iniciam uma relação discreta, afastados dos comentários da corte. O choque entre personalidades distintas é a marca central do livro: Lívia é alegre, amorosa e receptiva, enquanto Félix é amargo e consumido pelo ciúmes. Sem razão aparente, ele desconfia da namorada. A situação torna-se mais conflituosa quando Raquel apaixona-se por Félix, e Menezes confessa seu amor por Lívia. Tais situações são contornadas por Lívia, que consegue fazer com que Félix não descubra as intenções dos amigos.

Durante uma interpelação, Félix confessa que é amargurado por natureza, e que depende do amor de Lívia para sobreviver. Nas suas palavras, Lívia simboliza sua ressurreição, pois resgata-o da tristeza e da miséria. Desta passagem advém o título do romance. Ambos decidem casar-se em segredo. No dia anterior à cerimônia, Batista visita Félix para perguntar sobre uma obra de arte. Em seguida, o noivo recebe um bilhete anônimo, é tomado pelo desespero e foge de casa. Ele envia uma carta a Lívia, e cancela o casamento. A noiva adoece ao ouvir a notícia. Menezes descobre o paradeiro de Félix e parte em busca do amigo, que revela o conteúdo do bilhete: o relato de uma possível traição de Lívia. Ambos concluem que Batista é autor da nota. Félix pede perdão a Lívia, mas ela decide não se casar com ele. No desfecho, Menezes casa-se com Raquel, Lívia, com um enfermeiro, e Félix continua a desconfiar de Lívia, já que não pode atestar a veracidade da mensagem de Batista.

Ao longo do romance, Machado de Assis utiliza modelos ficcionais típicos do período da publicação: um casal em conflito, os triângulos amorosos, a interferência de um vilão, a mediação das controvérsias, e a reconciliação final. A ambientação do romance representa hábitos sociais de época, como as festas e os encontros privados em gabinetes. Outras marcas literárias datadas do período são o sentimentalismo exacerbado e a ausência de crítica social. Contudo, Ressurreição inova em dois fatores: a voz narrativa e a construção psicológica dos personagens. 

O narrador dialoga com o leitor, em tom irônico e indagativo, de forma a fazê-lo questionar suas expectativas em relação à história. Com a quebra da neutralidade narrativa, levantam-se suspeitas sobre a conduta dos personagens. Fica a cargo do leitor a faculdade de decidir a coerência do que lhe é narrado. Assim, Machado de Assis sugere uma nova perspectiva de leitura. A profundidade psicológica dos protagonistas conclui essa tarefa. Os obstáculos ao amor de Félix e Lívia partem de conflitos inerentes às suas personalidades. Ambos sabotam a trama em decorrência de suposições que se agudizam em dilemas existenciais. A desconstrução do amor romântico representa um afastamento do padrão literário corrente à época da publicação. 

Em vista dessas inovações, Ressurreição é recebido com ressalvas pelos contemporâneos. Segundo o professor Antonio Candido (1918 -2017), a construção da identidade nacional é um dos paradigmas da literatura brasileira no século XIX. Os escritores românticos à época de Machado mobilizam-se pela educação moral e cívica. A preocupação dos autores com a recepção de suas obras é crucial nesse contexto. A fim de antecipar possíveis abordagens negativas, Machado de Assis insere uma nota de advertência como prólogo de Ressurreição, onde informa que o livro não atende às expectativas dos críticos. Contudo, a advertência não impede a desaprovação do romance num primeiro momento.

A fortuna crítica do século XX aprofunda a análise de Ressurreição dentro do confronto entre as correntes do romantismo e do realismo. A partir da obra História da Literatura Brasileira (1916), do literato paraense José Veríssimo (1857-1916), convenciona-se que os quatro primeiros romances de Machado de Assis, incluindo Ressurreição, fazem parte das obras de primeira fase, na qual convergem elementos do romantismo. As obras posteriores à publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) são classificadas como obras da segunda fase, momento em que o autor se debruça sobre temas e artifícios do realismo. Parte da historiografia de sua obra, no entanto, contesta a divisão em fases, ao argumentar que o corpo romanesco machadiano não pode ser compartimentado. Tal vertente enfatiza conceitos que perpassam todos os romances do escritor: ciúme, pessimismo, individualismo, envelhecimento, questões financeiras e a morte. Assim, Ressurreição é visto como o romance de formação e contém componentes literários que Machado de Assis aperfeiçoa com o tempo.

Em conformidade com a tradição literária do romantismo, Ressurreição inova ao introduzir elementos narrativos pouco usuais para sua época. Por meio da trama aparentemente tradicional, Machado de Assis apresenta suas principais marcas literárias e renova o gênero do romance no Brasil.

Fontes de pesquisa 10

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  • ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.
  • ASSIS, Machado de. Resurreição [sic]: romance. Rio de Janeiro: B.L. Garnier, 1872. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5296. Acesso em: 16 mar. 2022.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 8.ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 1997.
  • CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis, historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
  • GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis. O romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial: Edusp, 2004.
  • HILÁRIO, Márcio Vinícius do Rosário. A desconstrução do romanesco nos primeiros romances de Machado de Assis. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2012. Tese de Doutorado em Literatura Brasileira.
  • MACHADO, Ubiratan. Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro: Eduerj, 2003.
  • RANGEL, Vagner Leite. “O contexto da publicação e o prefácio de ‘Ressurreição’: Machado de Assis e os cavaleiros da causa nacional e da ordem romântica”. In: Opiniães: Revista dos alunos de Literatura Brasileira / Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. - v. 5, n. 6/7 (2015) - São Paulo: FFLCH:USP, 2015.
  • SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Editora 34, 2000.
  • VERÍSSIMO, José. História da literatura brasileira, de Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908). São Paulo: Letras & Letras, 1998.

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