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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Capão Pecado

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2021
2000
Capão Pecado (2000) é o segundo livro publicado pelo escritor Ferréz (1975) e sua estreia no gênero de prosa ficcional. Lançado no contexto de uma hesitante abertura editorial para a literatura produzida fora do campo canônico literário brasileiro, o romance é um marco da literatura marginal. Ao retratar a realidade do Capão Redondo, bairro da p...

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Capão Pecado (2000) é o segundo livro publicado pelo escritor Ferréz (1975) e sua estreia no gênero de prosa ficcional. Lançado no contexto de uma hesitante abertura editorial para a literatura produzida fora do campo canônico literário brasileiro, o romance é um marco da literatura marginal. Ao retratar a realidade do Capão Redondo, bairro da periferia da cidade de São Paulo, Ferréz constrói um retrato de vidas apartadas do acesso à cidadania e a direitos básicos e que têm como perspectiva, muitas vezes, apenas a violência potencializada pelo abandono do Estado.

O romance é dividido em cinco partes, cada uma delas introduzida por textos curtos de artistas do hip-hop e do funk que compartilham das experiências de vida periférica e utilizam a voz como um instrumento de denúncia da sua realidade. Nos 23 capítulos que compõem a obra, o narrador conta a história de Rael, um jovem morador da comunidade do Capão Redondo, suas batalhas cotidianas e o desafio de manter-se íntegro diante de um contexto de violência e desigualdade.

A trama vivida por Rael é o eixo central da narrativa de Capão Pecado, mas não a única história apresentada no livro. Rael vive imerso em uma realidade de violência explícita e criminalidade banalizada, que parece despontar como o destino mais provável para jovens como ele e como Will, Dida, Amaral, Cebola, Matcherros, Narigas, Panetone, Burgos e tantos outros. Dezenas de personagens atravessam a história do protagonista: sua família, vizinhos, amigos, conhecidos e inimigos. Consciente de que a criminalidade é um caminho que pode abreviar sua vida, Rael tenta trilhar uma existência honesta, de homem trabalhador que, embora revoltado com o descaso a que sua comunidade está sujeita, busca não transformar a revolta em violência. Ao se apaixonar por Paula, a namorada de um de seus amigos, Rael se defronta com uma questão ética sobre traição que lhe tira a liberdade e a vida.

A obra é o retrato de uma vida entrecortada pela pobreza e pela criminalidade, o reflexo de uma interação incitada pela masculinidade violenta. Imagem de uma sobrevivência constantemente questionada pelo embate diário entre a moralidade ética e o ódio latente da revolta, o conteúdo da trama de Capão Pecado é forte e pungente, e a escrita denota o ritmo frenético da rotina vivida pelas personagens moradoras do bairro Capão Redondo. A linguagem utilizada por Ferréz é uma das características mais marcantes do livro, pois revela o traço fortemente coloquial sinalizado por gírias, palavrões e outras variações da linguagem da comunidade ali representada. No debate acadêmico, o romance de Ferréz é muitas vezes estigmatizado como uma literatura menor, mas é justamente a marca da oralidade no texto que faz de Capão Pecado uma obra necessária ao entendimento de que o fazer literário, em um país marcado por tantas desigualdades como o Brasil, precisa ser plural e diverso.

A recepção positiva de Capão Pecado à época de seu lançamento é fruto do interesse, surgido no período entre fim da década de 1990 e início da década de 2000, por textos literários de nomes até então desconhecidos da crítica literária nacional, como é o caso de Paulo Lins (1958) e seu livro Cidade de Deus (1997). Na esteira dessa boa receptividade, Ferréz publica sua obra e amplifica as histórias ali narradas para além das fronteiras da “quebrada”, possibilitando que a literatura marginal rompa barreiras e alcance espaços até então negados à produção de autores periféricos. Os pesquisadores Darlan Santos e Jacques Fux, ao analisarem a obra de Ferréz, afirmam que “Capão Pecado é um livro impactante, não apenas como obra isolada, mas como parte de um projeto mais amplo, desenvolvido pelo autor, Ferréz.”1 O romance se consolida como uma importante referência para a literatura oriunda das margens dos grandes centros urbanos, e também para o fazer artístico e criativo desses espaços ainda tão vulnerabilizados. Nas palavras de Ferréz: “Literatura de rua com sentido, sim, com um princípio, sim, e com um ideal, sim, trazer melhoras para o povo que constrói esse país mas não recebe a sua parte.”2

Marco decisivo da literatura marginal, Capão Pecado é uma obra questionadora das estruturas sociais rígidas que conformam o Brasil como um país em que a literatura ainda é um espaço destinado a poucos. A importância do romance reside em sua linguagem literária informal e poética, em sua trama que evidencia as mazelas das periferias das cidades brasileiras e, principalmente, na rota que desbrava para possibilitar a existência e a legitimação de outras expressões artísticas insurgentes.

 

Notas

1. SANTOS, Darlan; FUX, Jacques. Litera-Rua: a cultura da periferia em Capão Pecado, de Ferréz. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 41, p. 87-98, jun. 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2316-40182013000100006&lng=en&nrm=iso.

2. FERRÉZ (org.) Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

Fontes de pesquisa 3

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