Artigo da seção obras A Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada

A Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoA Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada: 1868 | Data de término da criação 1875

Histórico

A Vida Fluminense: Folha Joco-Seria-Illustrada, editada entre 1868 e 1875 com periodicidade semanal, faz uma abordagem satírica dos principais acontecimentos da corte. É resultado de uma sociedade editorial feita pelos jornalistas Antonio Pedro Marques de Almeida (?-1886) e Augusto de Castro (1833-1871) e pelo caricaturista italiano Angelo Agostini (1843-1910). Além de  Agostini, traz ilustradores importantes, como Cândido Aragonez de Faria (1849-1911), V. Mola e Luigi Borgomainerio (1836-1876).

Em seu primeiro editorial, a revista apresenta a intenção de “agradar todos os paladares” [1], assumindo a neutralidade política como estratégia. Porém, ao se identificar como uma “folha joco-séria-ilustrada”, revela sutileza crítica por abordar, de maneira irônica, assuntos referentes à administração pública e ao cotidiano da cidade do Rio de Janeiro. A Vida Fluminense segue tendência comum à imprensa da época: dedica muito espaço à cobertura da Guerra do Paraguai (1864-1870) e apoia o imperador com um discurso patriótico exacerbado. Com a sensibilidade e técnica de Agostini, destaca-se ao publicar iconografia importante sobre a guerra. Isso contribui para reavivar a rivalidade entre Agostini e Henrique Fleiuss (1823-1882), editor e ilustrador da prestigiada Semana Illustrada (1860-1876), vítima do humor ácido do caricaturista italiano.

Em relação às artes, o periódico traz, ao longo de 417 exemplares, notas curtas sobre lançamentos literários e espetáculos teatrais, encenados nas principais salas da corte. Também apresenta comentários esparsos sobre edições da Exposição Geral de Belas Artes (Egba) e mostras individuais do Rio de Janeiro. Assume posicionamento crítico em relação à academia e apresenta charges e comentários que ridicularizam artistas e professores ligados à instituição. Faz elogios aos pintores italianos Edoardo de Martino (1838-1912) e Nicolao Facchinetti (1824-1900) que, especializados na pintura de paisagem e de gênero, mantêm relativa independência em relação à pintura acadêmica.

Os textos são assinados pelas inicias A. de. C e A. de A. [2], e trazem comentários entusiasmados dos articulistas sobre telas representando os combates da Guerra do Paraguai. Os textos assumem tons patrióticos e intensificam os debates relativos à pintura histórica. A seção “Belas-Artes”, publicada sob a assinatura das iniciais A. P., na edição de 1872 da Exposição Geral da Academia, estabelece diálogo crítico com textos publicados no ano anterior por Luiz Guimarães Júnior (1845-1898) e Otaviano Hudson (1837-1886). Ambos atuam no jornal A República (1871-1873) e incitam a polarização entre os dois principais pintores da corte com a publicação de artigos que exaltam as inovações estéticas propostas por Pedro Américo (1843-1905). Elas são associadas aos princípios inovadores do liberalismo e utilizadas para ilustrar um discurso contra o rigor acadêmico das obras apresentadas por Victor Meirelles (1832-1903). Meirelles, também professor de pintura histórica da instituição, simboliza a estagnação metodológica da academia e a representação estética do poder monárquico.

Nas páginas da Vida Fluminense, A. P. sai em defesa da estética naturalista e afasta-se das concepções inflamadas pela política. Reconhece a importância das telas A Batalha de Campo Grande (1871), de Pedro Américo, e O Combate Naval de Riachuelo e Passagem do Humaitá (ambas realizadas entre 1868 e 1872), de Victor Meirelles, para o desenvolvimento da arte nacional. Defende, ainda, as paisagens e as cenas de gênero, tidas como inferiores na estrutura hierárquica da academia, e menciona os trabalhos de Agostinho José da Motta (1824-1878) e Insley Pacheco (1830-1912), reconhecendo o talento de cada um.

Ilustrada por Aragonez de Faria entre 1872 e 1874, e depois por Borgomainerio, a Vida Fluminense, sem abandonar o ambiente artístico, concentra-se na cobertura de fatos que, na primeira metade da década de 1870, tumultuam a política nacional. A revista posiciona-se sobre os custos da Guerra do Paraguai, a abolição da escravatura e o acirramento da Questão Religiosa (1864-1874). Mantém o tom irônico dos textos publicados e a qualidade gráfica das ilustrações satíricas, consolidando-se como um dos principais periódicos ilustrados editados no Brasil durante a segunda metade do século XIX.

 

Notas

1. Vida Fluminense, n. 1, 4 jan. 1868. p. 4.

2. Segundo José Carlos Augusto, as iniciais A. de A. correspondem aos comentários relacionados ao ambiente cultural da corte assinados por Marques de Almeida, jornalista português que, ao casar-se com Rochele Agostini, torna-se padrasto de Angelo Agostini. É ele o responsável pela vinda do caricaturista ao Rio de Janeiro, em 1868. Em relação às iniciais A. de C., o mesmo autor afirma pertencerem ao nome de Augusto de Castro, apresentando-o como redator dos artigos políticos, das críticas dirigidas à imprensa diária e dos comentários editoriais dirigidos aos leitores.

Ficha Técnica da obra A Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada:

  • Datas de criação da obra:
    • data de início: 1868  |  data de fim: 1875

Fontes de pesquisa (5)

  • AUGUSTO, José Carlos. A Vida Fluminense, “folha joco-séria-illustrada” (1868-1875). Artigo apresentado durante o IX Encontro dos Grupos/Núcleos de Pesquisa em
    Comunicação. In: XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 4 a 7 de setembro de 2009, Curitiba. Anais... Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-1235-1.pdf.

    Acesso em: 5 dez. 2011.
  • A VIDA Fluminense: folha joco-séria ilustrada. Rio de Janeiro: Tipografia Eduard Reinsburg. (417 exemplares editados entre 1868 e 1875).
  • COSTA, Carlos Roberto da. A revista no Brasil: o século XIX. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
  • SILVA, Rosangela de Jesus. Angelo Agostini, Felix Ferreira e Gonzaga Duque Estrada: contribuições da crítica de arte brasileira no século XIX. Revista de história da Arte e Arqueologia, Campinas, n. 10, jul.-dez. 2008.
  • SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra60616/a-vida-fluminense-folha-joco-seria-illustrada>. Acesso em: 12 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7