Artigo da seção obras A Cor do Seu Destino

A Cor do Seu Destino

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoA Cor do Seu Destino: 1987
Filme
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Cinemateca Brasileira

Análise
A Cor do Seu Destino (1987) é o segundo longa-metragem de Jorge Durán (1942), produzido no contexto cinematográfico brasileiro dos anos 1980, marcado pela indefinição, tanto em termos da continuidade da produção e pela ameaçada interrupção das atividades da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme) quanto em termos de rumos estéticos, devido ao declínio da hegemonia do cinema moderno, que tivera o cinema novo como marco.

O filme inscreve-se numa tendência entre a vocação cinemanovista, política e alegórica e a proposta de um realismo narrativo mais transparente, capaz de aproximação com um público amplo, como em Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirzsman (1937-1987), A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral (1932), Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco (1946). Roteirista e principal parceiro de Babenco nestes dois clássicos do período, o imigrante chileno Jorge Durán busca, no filme, uma solução de compromisso entre realismo e alegoria política.

Na zona sul carioca dos anos 1980, Paulo (Guilherme Fontes), nascido no Chile e filho de exilados políticos – a mãe (Norma Bengel), brasileira, o pai (Franklin Caicedo), chileno –, tenta viver um cotidiano comum a seus amigos brasileiros.

O quadro de personagens poderia sugerir uma comédia de costumes sobre a juventude brasileira de classe média pós-regime militar, com Paulo sendo acompanhado pelo amigo e bon vivant Raul (Marcos Palmeira), e por Helena, a namorada liberal, interpretada por Andréa Beltrão – ícone adolescente da histórica série televisiva de humor e aventura Armação Ilimitada.

O colégio, as festas, o rock brasileiro – há uma participação especial da banda Biquíni Cavadão –, o namoro, a liberdade sexual, a autonomia concedida pelos pais e a vida sem grandes esforços constituem muitas das cenas e ambientes que sugerem uma vivência leve, da geração entregue à experiência do prazer imediato.

Entretanto, desde o primeiro momento, o passado da repressão chilena assombra essa promessa de vida ensolarada. A Cor de Seu Destino faz a abertura com imagens documentais da luta política no Chile, acompanhadas por uma locução didática sobre a história da ascensão de Salvador Allende (1908-1973), eleito presidente em 1970, o progressivo cerco antissocialista, até o golpe de 1973, sob o comando do general Augusto Pinochet (1915-2006), instalando no país a ditadura militar.

Na narrativa do filme, esse prólogo em forma de moldura histórica se revela um documentário de TV, a que Paulo assiste, sozinho na sala escura. A repressão chilena se estende sobre o cotidiano já na primeira cena que se segue ao prólogo: o café da manhã em família com o peso das manchetes que anunciam os últimos confrontos nas ruas de Santiago, imediatamente seguido do telefonema de lá, contando que Patrícia, uma prima de Paulo, fora presa durante as manifestações. Paulo tenta se manter distante dos fatos e deixa transparecer uma imagem blasé e ao mesmo tempo agressiva, de poucas palavras e quase enfado. Seu amigo Raul, sempre animado, não perde a oportunidade de o espezinhar.

Para o espectador, entretanto, a personalidade e a experiência de Paulo são apresentadas de forma mais complexa e dramática. Com a justificativa realista de sonhos atormentados do protagonista, o filme é pontuado por imagens de Victor (Chico Diaz), o irmão assassinado pela ditadura de Pinochet, contracenando com Paulo ainda menino.

Acompanhando a trilha sonora que mistura guitarras e flautas andinas, mesclam-se momentos de flashback com outros delírios, nos quais a presença de Victor surge como forma de elaboração onírica do trauma pessoal e histórico que Paulo carrega. O lado mais consciente dessa elaboração do trauma se faz pela expressão artística de Paulo, que passa as noites pintando telas, a parede do seu quarto – com imagens das montanhas de Santiago –, inclusive a tela da TV de sua casa, numa clara simbolização de desejo de reescrita de sua história. Essa nova cena da TV, espécie de inversão e apropriação subjetiva das imagens documentais que abrem o filme, é representativa da estratégia narrativa de relacionar o personagem e seu traumático contexto.

Paulo volta pra casa, depois de uma caminhada noturna até a porta da embaixada chilena, onde se posta em frente à saída dos carros, impedindo a passagem e sendo ofuscado pelas luzes dos faróis, de um modo que evoca a perseguição política dos inimigos do regime. Em casa, ouve a discussão entre os pais, nervosos com a prisão da sobrinha. À noite, ele acorda e liga a TV em um canal com estática, pega uma lata de spray e picha a tela da TV. Um corte abrupto um plano geral de Santiago, com as montanhas ao fundo. Paulo continua pintando a tela da TV – num gesto forte, e estético, de afirmação pessoal contra a ordem social e do esquecimento. A seguir, prossegue em sua obra: desenha um rosto sobre um acetato, o recorta, e o enquadramento faz a imagem criada se sobrepor à face do artista. Um novo corte descontínuo mostra Paulo criança, brincando no que deveria ser o quintal da casa em Santiago, sempre com as emblemáticas montanhas ao fundo, com o sentido onírico da imagem realçado pelo artificialismo de sua textura (produzida por um vidro transparente pintado, colocado à frente da câmera, segundo relato de Durán).

Paulo, afinal, cola o desenho que faz – o rosto de seu irmão – na tela da TV, criando sua própria imagem dos fatos e da memória. Satisfeito, volta a dormir e, concluindo a cena de reencontro íntimo com sua história, um fade introduz na cena o irmão morto, que o acaricia e vela seu sono.

Toda essa tensão entre o passado e o presente se intensifica e concentra na chegada de Patrícia e o convívio com ela, a prima chilena que, recém-saída da prisão, é enviada pela família ao Brasil. Com Patrícia, o passado chileno de Paulo se faz constante. Ele a leva à cidade do Rio de Janeiro, apresenta-a aos amigos, mostra-lhe suas pinturas, conversam – oscilando entre o português e o espanhol – sobre os dois países, sobre seu irmão, enfim, Paulo revive o passado e chega a pressionar os pais para deixá-lo voltar ao Chile. Ele ousa seu definitivo ato de rebeldia: a invasão da Embaixada do Chile e a agressão simbólica, performática, com baldes de tinta vermelha, à ditadura ali representada no retrato de Pinochet – ainda no poder. O segurança da embaixada atira no jovem, que, ferido, acorda no hospital e, fora de perigo, consegue sorrir. O filme termina com Paulo menino se despedindo de sua versão adulta, com as montanhas andinas ao fundo.

A Cor do Seu Destino é o grande vencedor do Festival de Brasília de 1986, com vários prêmios, entre os quais os de melhor filme, melhor direção, roteiro e prêmio especial da crítica, obtendo distribuição internacional e boa cobertura na grande imprensa carioca e paulista, com críticas abordando os paralelos biográficos do diretor com a história do filme. Merece ainda destaque uma polêmica tentativa do Itamaraty de retirar o filme – ao que parece por pressão do governo de Pinochet – de uma mostra de filmes latino-americanos em Washington. Quanto às críticas, destacam-se as de Amir Labaki, Fernão Ramos, Carlos Alberto Mattos e Ely Azeredo, nas quais é recorrente o elogio à construção psicológica dos personagens, sobretudo dos adolescentes. A revista Filme Cultura, da Embrafilme, publica uma longa entrevista com o diretor, concentrada no relato de sua carreira e na história da realização de A Cor do Seu Destino. O Caderno de Crítica, da Fundação do Cinema Brasileiro/Ministério da Cultura, publica um pequeno dossiê de textos sobre o filme, que é citado também no artigo de Rober Stam e Ismail Xavier publicado no Film Quarterly, sobre o cinema brasileiro dos anos 1980.

Ficha Técnica da obra A Cor do Seu Destino:

Midias (1)

A Cor do seu Destino (1987)
Direção Jorge Duran
Conteúdo licenciado para uso exclusivo na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Como citar?

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  • A Cor do Seu Destino. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra44004/a-cor-do-seu-destino>. Acesso em: 15 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7