Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Edifício Sesc Pompéia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.11.2018
1982
O edifício do Sesc Pompéia, em São Paulo, é projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), tendo como assistentes os arquitetos Marcelo Carvalho Ferraz (1955) e André Vainer (1954).

Texto

Abrir módulo

O edifício do Sesc Pompéia, em São Paulo, é projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), tendo como assistentes os arquitetos Marcelo Carvalho Ferraz (1955) e André Vainer (1954).

O centro de lazer Sesc Fábrica da Pompéia ocupa o terreno de uma antiga indústria de tambores constituída por uma sequência de galpões em estilo inglês. A partir de 1973, o Sesc passa a utilizar o lugar de maneira improvisada, abrindo os portões para a vizinhança composta sobretudo por operários e suas famílias. O arquiteto Júlio Neves (1932) é o primeiro a receber a encomenda do projeto e propõe a demolição dos galpões existentes para dar lugar a novas instalações. Sua proposta é rejeitada e a diretoria do Sesc procura um arquiteto com a expertise de restauro e requalificação de edifícios antigos. Em virtude da autoria do projeto do Solar do Unhão (1959), em Salvador, Bahia, Lina Bo Bardi é chamada para fazer o Sesc Pompéia.

Em sua primeira visita ao local, em 1976, Bo Bardi lá identifica um sistema estrutural pioneiro no uso do concreto armado1. Criado e patenteado pelo engenheiro francês François Hennebique (1842-1921), este modelo estrutural é amplamente utilizado na Europa na virada dos séculos XIX e XX.  A antiga fábrica da Pompéia, entretanto, é caso singular no Brasil.

A arquiteta assume a precondição de manter os galpões, fazendo deles um “testemunho” de um tipo de edificação pertencente ao passado industrial do bairro e da cidade. Bo Bardi também considera a importância de aspectos humanos da ocupação improvisada e espontânea do lugar nos primeiros anos como Sesc. A partir desta percepção, estabelece-se a segunda condição para orientar o projeto, como a própria arquiteta atesta: “um público alegre de crianças, mães, pais, anciãos passeava de um pavilhão a outro. Crianças corriam, jovens jogavam futebol debaixo da chuva que caía dos telhados rachados, rindo com os chutes da bola na água. As mães preparavam churrasquinhos e sanduíches na entrada da rua Clélia; um teatrinho de bonecos funcionava perto da mesma, cheio de crianças. Pensei: isto tudo deve continuar assim, com toda esta alegria2.”

De 1977 a 1986, Lina Bo Bardi monta seu escritório no canteiro de obras do Sesc. A arquiteta acompanha a construção, fazendo medições do edifício existente, experimentações com os técnicos e operários3, resgatando o conhecimento familiar aos operários. Bo Bardi desenha desde o esquema de ocupação geral até detalhes como a “flor de mandacaru” – estruturas de ferro com formato semelhante à flor que fazem o fechamento do vão entre as passarelas – não se esquecendo da concepção dos uniformes dos funcionários e da comunicação visual.

Para quem está caminhando pelas ruas do bairro paulistano, Vila Pompéia, o olhar para dentro do portal de entrada do Sesc provoca encantamento: diversas pessoas caminham sobre os paralelepípedos da rua interna, que dão acesso aos galpões de diferentes atividades, um lugar propício ao lazer e a festas ao ar livre. A percepção é de se estar em uma cidadela4 contrastante com as caraterísticas urbanas de São Paulo: uma rua sem carros e repleta de pedestres que materializa um modelo exemplar de cidade e de convivência entre os cidadãos.

No interior dos pavilhões antes destinados à produção industrial, Bo Bardi intervém de maneira a esvaziá-los, deixando somente a “casca” sem divisões5. Além da visibilidade dada aos pilares e vigas duplas em concreto armado, a arquiteta também torna os tijolos aparentes e expõe as tesouras de madeira que sustentam a cobertura, aplicando cores nas peças metálicas que reforçam seus encaixes. O telhado conjuga sheds6 originais da edificação com telhas de vidro dispostas em alguns trechos para melhor captar a luz natural.

Lina Bo Bardi constrói novos espaços que qualificam o antigo galpão com um novo mobiliário para receber o público: poltronas, sofás, estantes de uma pequena biblioteca comunitária, estruturas de concreto com recintos para jogos de tabuleiro, a lareira e um espelho d’água com pedrinhas no fundo7.

O espaço é inaugurado em 1982 com uma programação cultural em grande parte idealizada por Lina Bo Bardi: as exposições Design no Brasil: História e Realidade (1982), Mil brinquedos para a criança brasileira (1982), Caipiras, capiaus: pau a pique (1984), Entreato para crianças (1985) resgatam aspectos da cultura popular brasileira, em especial o que ela denomina como pré-artesanato, e da visão lúdica das crianças perante o mundo.

Os outros pavilhões, originalmente industriais, contêm um teatro de arena, uma sala de exposições,  o restaurante, a choperia que também abriga eventos musicais, e o galpão com as oficinas artísticas e artesanais, em ambiente organizado por paredes de blocos de concreto sem reboco – o processo do fazer não oculto pelo revestimento – e baixas, para manter a integração espacial.

Ocupando a maior parte de um quarteirão da Pompéia, o lote do Sesc tem um formato em L. Se um dos eixos é determinado pela rua interna, dobra-se a esquina para acessar o outro eixo e tem-se um choque visual: a horizontalidade dos antigos galpões contrasta com a verticalidade das torres unidas por passarelas, que constituem o bloco esportivo.

No mais delgado dos dois prédios altos estão os elevadores, escadas, vestiários, salas de ginástica e de danças. Com janelas em formatos irregulares, o edifício mais largo, a torre, tem a piscina no térreo e quatro andares superiores com quadras poliesportivas. Esta dupla de torres é conectada por passarelas, de modo que as quadras de um prédio só são acessíveis por meio da circulação vertical do outro edifício. A justificativa para isto é a existência de um córrego passando no meio deste eixo do terreno, criando uma área non aedificandi que restringe a ocupação. Bo Bardi fez da condicionante uma virtude do projeto: as duas torres que se solidarizam de forma aérea por diferentes passarelas são a forma mais expressiva do Sesc Pompéia.

Notas
1 A chamada por Lina Bo Bardi de estrutura hennebiquiana consiste em colunas ligadas por vigas duplas que formam um elemento monolítico, em concreto armado. 
2 BO BARDI, Lina. In.: FERRAZ, Marcelo Carvalho (Org.). Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1993. p.220.
3 FERRAZ, Marcelo Carvalho. Numa velha fábrica de tambores. SESC-Pompéia comemora 25 anos. Minha Cidade, São Paulo, n. 093.01, ano 08, abr. 2008. Disponível em:  < http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.093/1897 >. Acesso em:
4 FERRAZ, Marcelo Carvalho; VAINER, André (Orgs.). Cidadela da liberdade. São Paulo: Edições Sesc, 2013.
5 COMAS, Carlos Eduardo Dias. Lina Bo Bardi. In: Revista de Cultura Brasileña, Madri, 1998.
6 Elemento translúcido de formato variável utilizado em coberturas de edifícios para que os espaços internos recebam luz natural. 
7 PERROTTA-BOSCH, Francesco. A Arquitetura dos intervalos. Serrote, São Paulo, n. 15, nov. 2013. p. 17. Disponível em: < http://www.revistaserrote.com.br/2013/12/a-arquitetura-dos-intervalos-por-francesco-perrotta-bosch/>.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: