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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

O Passeio Público de Mestre Valentim

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.04.2021
1785
Mestre Valentim (ca.1745-1813)é um dos únicos artistas em atividade no Rio de Janeiro entre o último quarto do século XVIII e as primeiras décadas do XIX que se dedicam tanto à arte religiosa quanto à arte civil. Entre suas obras de saneamento e embelezamento da cidade, destaca-se o conjunto do Passeio Público. A obra é encomendada ao artista pe...

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Mestre Valentim (ca.1745-1813)é um dos únicos artistas em atividade no Rio de Janeiro entre o último quarto do século XVIII e as primeiras décadas do XIX que se dedicam tanto à arte religiosa quanto à arte civil. Entre suas obras de saneamento e embelezamento da cidade, destaca-se o conjunto do Passeio Público. A obra é encomendada ao artista pelo vice-rei Dom Luís de Vasconcelos e Sousa (1740 - 1807), que em sua gestão na capital do vice-reino (1779-1790) decide transformar o Rio de Janeiro numa cidade mais atraente, confortável e moderna. Para isso, inspirado no iluminismo predominante em Portugal, sintetizado na figura de Pombal, promove diversas obras visando à civilidade, ao bem-estar, à higienização e à saúde pública.

A obra, iniciada em 1779, é concluída em 1783 e inaugurada em 1785, com o chafariz das Marrecas. Sua origem encontra-se nos jardins cortesãos europeus dos séculos XVI, XVII e XVIII, que eram utilizados como local de lazer e cerimoniais. Na época ter um jardim público numa cidade era sinônimo de bom gosto e luxo, revelando uma sociedade que domina a natureza pela razão. No caso do jardim carioca, ele é diretamente inspirado nos jardins aristocráticos do Palácio Real de Queluz, em Lisboa. Em geral, eles são formados de canteiros e aléias ordenados segundo traçado geométrico em organização extremamente simétrica. O eixo central é sempre terminado por um ponto de fuga, por exemplo, um esplêndido panorama que amplia a linha do horizonte de seus visitantes. Sua decoração é composta de obras escultóricas e arquitetônicas, representando símbolos antigos (obelisco, pirâmide, deus mitológico, templo) ou da natureza (fonte, cascata, chafariz, elementos talhados da flora e fauna locais).

Essas características encontram-se no Passeio Público de Valentim, embora seja importante frisar que o projeto inicial tenha sido bastante descaracterizado em sua reforma de 1864 pelo paisagista romântico Auguste François Marie Glaziou, e destituído ao longo dos anos de muitos de seus elementos construtivos e ornamentais (em 2004 o Passeio Público encontra-se fechado para restauração). O local escolhido para sua construção gozava de grande prestígio na época, tem como ponto de fuga a baía de Guanabara, um lugar ameno que recebia a brisa da tarde, e era considerada uma das paisagens mais bonitas da cidade. Estava limitado pelos morros de São Bento, ao norte (com o mosteiro e a igreja dos beneditinos), de Santo Antônio, ao sul (com o convento e as igrejas franciscanas), e do Castelo (da Sé, e do ex-colégio jesuíta). A leste está a baía de Guanabara e a oeste a rua da Vala (atual Uruguaiana), com duas saídas para o interior.

A planta segue um traçado em forma de hexágono irregular cortado por aléias, cuja principal reta conduz a vista diretamente para um largo terraço do qual se contempla a baía. Contudo, nota-se que o jardim não se abre para o espaço da comunidade: é circundado em seus três lados por muros que apresentam janelas com grades de ferro. Sua entrada é pela rua do Passeio, através de um imponente portal. Era utilizado pela elite social e aberto ao povo esporadicamente por ocasião de comemorações reais, como em 1786, nas festas comemorativas do casamento do príncipe D. João com a princesa Carlota Joaquina, realizado em Portugal.

Diversos estilos se encontram nos elementos decorativos criados pelo artista. O portal apresenta elementos retorcidos articulados em simetria originários do estilo barroco e pilastras jônicas encimadas por uma urna clássica, ao gosto renascentista; o portão de ferro fundido mostra uma decoração rococó, com volutas em curva e contracurva e rocalhas. No centro é colocada uma cartela cuja frente, para a rua, ostenta as armas reais, e no reverso, em direção à baía, um medalhão de bronze com os perfis da rainha D. Maria I e do rei D. Pedro III (arrancada durante a Regência, a cartela foi recolocada de forma invertida).

Diversos elementos escultóricos se destacam no interior do Passeio Público: as duas pirâmides de granito carioca com medalhões de pedra de lioz; a Fonte dos Amores, com jacarés de bronze entrelaçados; a Bica do Menino, com a escultura do cupido alado segurando um cágado vertendo água. Nos dois extremos do terraço erguem-se dois pavilhões com as figuras de Apolo e Mercúrio. A escolha da flora segue princípios essenciais para composição de jardins tropicais: árvores altas como mangueira, tamarineiro, jaqueira, jambeiro, palmeira, cedro, pinheiro etc., capazes de proteger com sua sombra ampla o visitante do clima excessivamente quente e ensolarado da capital tropical.

Fontes de pesquisa 4

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  • BAZIN, Germain. A Arquitetura religiosa barroca no Brasil. Tradução Gloria Lucia Nunes. Rio de Janeiro: Record, ca. 1956. 398 p., 2 v.
  • CARVALHO, Anna Maria Fausto Monteiro de. Mestre Valentim. São Paulo: Cosac & Naify, 1999. 122 p. , il. color. (Espaço da arte brasileira).
  • CARVALHO, Anna Maria Monteiro de. A madeira como arte e fato: considerações sobre a escultura religiosa do Rio de Janeiro colonial - Mestre Valentim, um estudo de caso. In: O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. Curadoria Emanoel Araújo. São Paulo: Sesi, 1998. Exposição realizada no período de 30 mar. a 03 ago. 1998.
  • CARVALHO, Anna Maria Monteiro de. O Passeio Público e o Chafariz das Marrecas: um programa de sombra e água fresca para o carioca. Gávea - Revista de Arte e Arquitetura, 7. Rio de Janeiro: PUC, dez. 1989.

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