Artigo da seção obras Vila Operária da Gamboa, Rio de Janeiro

Vila Operária da Gamboa, Rio de Janeiro

Artigo da seção obras
Artes visuais  
Data de criaçãoVila Operária da Gamboa, Rio de Janeiro: 1933 | Lucio Costa / Gregori Warchavchik
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O conjunto habitacional Vila Operária da Gamboa está localizado no bairro de Santo Cristo, no Rio de Janeiro. Projetado pelos arquitetos Lúcio Costa (1902-1998) e Gregori Warchavchik (1896-1972), e planejado pelo empresário e médico Fábio Carneiro de Mendonça (1896-1982) na década de 1930, foi uma das primeiras habitações modernistas operárias do Brasil. Ainda hoje, caracteriza-se pelo seu uso como moradia popular.

Após o primeiro contato na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (ENBA), Costa e Warchavchik iniciam uma parceria na década de 1930, fundando o escritório da Sociedade de Construções Warchavchik-Lucio Costa1, com o intuito de materializar o que vinham estudando na academia sobre as rupturas no cenário da arquitetura mundial. Contavam com a colaboração do arquiteto Carlos Leão (1906-1983), e, mais tarde, Oscar Niemeyer (1907-2012) se juntaria a eles.

A Vila Operária da Gamboa foi o segundo projeto do escritório. O primeiro foram duas casas geminadas na Rua Rainha Elizabeth, também no Rio de Janeiro. Através da cliente Dona Maria Gallo, conheceram o médico Fábio Carneiro de Mendonça, que encomendou o projeto de habitação popular. É o único projeto que ainda existe da parceria entre os arquitetos.

O projeto consiste em catorze unidades habitacionais alocadas na rua Barão da Gamboa, em um terreno pequeno e irregular de um bairro tipicamente industrial e, portanto, ocupado por  residências operárias. Os apartamentos, superpostos dois a dois, compartilham um acesso comum através de uma extensa varanda circular. Esta quebra a geometria dos volumes cúbicos aplicada ao conjunto. Em relação à conformação interna, cada unidade configura-se em um quadrado dividido em quatro partes iguais. Um destinado à sala, outros 2 aos quartos e o último divide-se entre banheiro e cozinha. A área de circulação foi reduzida e um pequeno hall central cumpre a função de circulação entre os ambientes. Desta maneira, foi possível o máximo aproveitamento do terreno.

No projeto original, a cobertura era composta por uma laje plana e a pintura das fachadas era em verde e marrom. O uso combinado de cores, segundo os arquitetos José Simões Pessoa e Maria Araújo, foi possivelmente influenciado pela Vila Pessac, projetada pelo arquiteto Le Corbusier (1987-1965), em Bordeaux, na França.2

O volume puro da obra, as lajes em balanço sobre as portas, as esquadrias basculantes em ferro, o aproveitamento máximo do terreno e o uso de concreto armado são qualidades frequentemente atribuídas à arquitetura modernista. Àquela época, o tema da habitação coletiva popular passa a ser um enfoque para os arquitetos dessa vanguarda. É desse período a elaboração da Carta de Atenas. O documento resulta do IV Congresso Internacional de Arquitetura (CIAM) e serve de referência e guia para a arquitetura e o urbanismo ao afirmar que a unidade habitacional passa a representar o "núcleo inicial do urbanismo" e, portanto, a célula que poderia transformar as cidades.3

Com a Revolução Industrial e o aumento da densidade populacional urbana, a revisão no modo de fazer e pensar as cidades tornou-se uma questão urgente.4 No Brasil, a aceleração da indústria em 1930 agravou a precariedade das condições das moradias operárias das grandes cidades e chamou a atenção das autoridades públicas e da sociedade civil. Até aquele momento, as habitações populares consistiam em pequenos sobrados remanescentes ainda do período colonial.5 

A quebra de paradigmas no âmbito da arquitetura acontece em paralelo a transformações em outros campos. A semana de Arte Moderna de 1922 difunde novos preceitos na arte, na música e na cultura, em geral. Em 1925, Warchavchik publica no Jornal II Piccolo o manifesto Acerca da Arquitetura Moderna – o primeiro artigo publicado no Brasil sobre o tema. No seu manifesto, descreve os edifícios residenciais como "máquinas para habitação"6, ilustrando a necessidade de otimizar sua funcionalidade. É neste contexto que a Vila Operária da Gamboa é inaugurada em 1933.

Na década de 1980, o Projeto Sagas realiza o tombamento do edifício e conserva seu uso residencial.8 Outros exemplos de conjuntos habitacionais modernistas desse período são as moradias populares projetadas pelo arquiteto Afonso Reidy (1909-1964), como o Conjunto do Pedregulho e o Marquês de São Vicente, ambos no Rio de Janeiro (capital federal brasileira na época).

A parceria entre dois arquitetos da vanguarda da arquitetura brasileira modernista ao redor do tema da habitação popular e o pioneirismo da obra na história da arquitetura moderna nacional corroboram sua relevância como patrimônio arquitetônico.

Notas

1. PESSOA, José Simões de Belmont; ARAÚJO, Maria Silvia Muylaert. Gamboa: Vila operária da Gamboa, Rio de Janeiro, 1933/83. Módulo, Rio de Janeiro, n. 76, pp. 52-55, 1983. disponível em: http://www.jobim.org/lucio/handle/2010.3/1453

2. PESSOA, José Simões de Belmont; ARAÚJO, Maria Silvia Muylaert. Gamboa: Vila operária da Gamboa, Rio de Janeiro, 1933/83. Módulo, Rio de Janeiro, n. 76, pp. 52-55, 1983. disponível em: http://www.jobim.org/lucio/handle/2010.3/1453

3. COELHO, Carla Maria Teixeira. Habitação coletiva moderna no Rio de Janeiro: considerações sobre sua preservação. Revista CPC, São Paulo, n. 22 especial, p. 15-40, abr. 2017. Disponível em:  

4. COELHO, Carla Maria Teixeira. Habitação coletiva moderna no Rio de Janeiro: considerações sobre sua preservação. Revista CPC, São Paulo, n. 22 especial, p. 15-40, abr. 2017. Disponível em:  

5. COELHO, Carla Maria Teixeira. Habitação coletiva moderna no Rio de Janeiro: considerações sobre sua preservação. Revista CPC, São Paulo, n. 22 especial, p. 15-40, abr. 2017. Disponível em:  

6. WARCHAVCHIK, Gregori. Arquitetura do século XX e outros escritos. Organização: Carlos Ferreira A. Martins. São Paulo: Cosac Naify, 2006. 

7. FARIAS, Agnaldo. Gregori Warchavchik. In: Brasil faz design: criatividade brasileira no cenário internacional. São Paulo: Olhares, 2017.

8. NASCIMENTO, Flávia Brito do. Blocos de memórias: habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural/ Flávia Brito do Nascimento - São Paulo, 2011. 396 p. : il. Tese (Doutorado - Área de Concentração: Habitat) - FAUUSP. Orientador: Nabil Georges Bonduki.

Ficha Técnica da obra Vila Operária da Gamboa, Rio de Janeiro:

Fontes de pesquisa (11)

  • BARBOSA, Antônio Agenor. Relembrando o professor Lúcio Costa. Vitruvius, São Paulo, set. 2002. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.028/754 >. Acesso em: 01 abr. 2019
  • BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria. 4. ed São Paulo: Estação Liberdade, 2004. 344 p., il. p&b.
  • COELHO, Carla Maria Teixeira. Habitação coletiva moderna no Rio de Janeiro: considerações sobre sua preservação. Revista CPC, São Paulo, n. 22 especial, p. 15-40, abr. 2017. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.11606/issn.1980-4466.v0iesp22p15-40 >. Acesso em: 02 abr. 2019
  • FARIAS, Agnaldo. Gregori Warchavchik. In: Brasil faz design: criatividade brasileira no cenário internacional. São Paulo: Olhares, 2017.
  • MOREIRA, Pedro. Alexandre Altberg e a Arquitetura Nova no Rio de Janeiro. Vitruvius, São Paulo, mar. 2005. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.058/484>. Acesso em 02 abr. 2019
  • NASCIMENTO, Flávia Brito do. Blocos de memórias: habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural/ Flávia Brito do Nascimento - São Paulo, 2011. 396 p. : il. Tese (Doutorado - Área de Concentração: Habitat) - FAUUSP. Orientador: Nabil Georges Bonduki. 
  • PESSOA, José Simões de Belmont; ARAÚJO, Maria Silvia Muylaert. Gamboa: Vila operária da Gamboa, Rio de Janeiro, 1933/83. Módulo, Rio de Janeiro, n. 76, pp. 52-55, 1983. disponível em:< http://www.jobim.org/lucio/handle/2010.3/1453 >.  Acesso em 01 abr. 2019.
  • RUBIN, Graziela Rosatto. Movimento Moderno e Habitação Social no Brasil. Geografia Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 17, n.2, mai-ago 2013. 
  • RUBIN, Graziela Rosatto; BOLFE, Sandra Ana. O desenvolvimento da habitação social no Brasil. Ciência e Natura, Santa Maria, v.36, n.2, p. 201-213, mai-ago 2014.
  • TRAMONTANO, M. ; SOUZA, M. D. Encontros e Desencontros: Modernismo e Conjuntos Habitacionais na Metrópole Paulistana. In: I Seminário Docomomo São Paulo, 2004, São Paulo. I Seminário Docomomo São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.nomads.usp.br/site/livraria/livraria.html> 
  • WARCHAVCHIK, Gregori. Arquitetura do século XX e outros escritos. Organização: Carlos Ferreira A. Martins. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VILA Operária da Gamboa, Rio de Janeiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra35657/vila-operria-da-gamboa-rio-de-janeiro>. Acesso em: 17 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7