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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Os Sertões

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.12.2016
1902
Brasiliana Itaú / Acervo Banco Itaú Reprodução fotográfica Horst Merkel

Os Sertões, 1902
Euclides da Cunha

Análise

Texto

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Análise
Os Sertões (1902) é o livro de estreia do jornalista Euclides da Cunha (1866-1909). Escrito a partir da experiência como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, acompanha o exército brasileiro durante repressão à Revolta de Canudos (1896-1897). O conflito instala-se no sertão baiano e opõe as tropas republicanas à população do arraial de Canudos, comandado pelo líder religioso Antônio Conselheiro (1830-1897).

A obra transita entre o relato histórico e o ensaio científico, aos quais Euclides confere estruturação literária. A passagem do todo (o Brasil) à parte (Canudos) organiza as três partes do volume: “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”. Em “A Terra”, o autor explica os processos físicos e climáticos que formam a geografia da região: o agreste baiano e o arraial. Partindo do Planalto Central, relata o domínio racional da paisagem. Vai ao sul para perscrutar-lhe a “portentosa oficina”1 da natureza, que se estende com o litoral paulista e adentra o continente. Seguindo a norte por Minas Gerais, assinala, a oeste do rio São Francisco, o “socalco do maciço continental”, cuja “drenagem caótica das torrentes” imprime-lhe a “fácies excepcional e selvagem” do sertão. Da terra inóspita, destaca os percalços da ocupação colonial, cujos caminhos sugerem o traçado de um deserto com limites na região de Monte Santo e Canudos.

A personagem central de “A Terra” é a seca. Feita da “violência máxima dos agentes exteriores” e do “martírio da terra”, inicia o leitor nos conflitos relatados nas seções seguintes, “O Homem” e “A Luta”. Antecipando o jagunço, Euclides descreve tipos “mais resistentes que os demais” da flora do sertão: “Afeiçoaram-se aos regimes bárbaros; repelem os climas benignos em que estiolam e definham. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos parece estimular melhor a circulação da seiva entre os seus cladódios túmidos”.2 A alegoria estende-se à sociedade do arraial, recuperada na imagem de espécies como catingueiras, alecrins-do-mato e os famigerados “canudos-de-pito”, que emprestam seu nome “ao mais lendário dos vilarejos”. As espécies “não [...] tão bem armadas para a reação vitoriosa [...], unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em plantas sociais” e, “não podendo revidar isoladas, disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se”.3 A construção alegórica é ambivalente como o conflito de Canudos. De um lado, o sertão representa a barbárie do sertanejo bruto, ignorado pelas autoridades que formam o saber universal; de outro, delimita uma formação social legítima a suportar a violência daqueles que deveriam ser os agentes civilizatórios.

“O Homem” dedica-se à formação étnica e social do sertanejo. No sertão, acontece o encontro de protagonistas da povoação do país: o jesuíta, o jagunço e o vaqueiro. O jesuíta adentra o semiárido do nordeste a partir do litoral e, com suas missões, faz da religião elemento civilizador da terra. O jagunço, desenvolvimento local das bandeiras paulistas, estabelece-se nas terras mais altas seguindo o avanço do extrativismo das minas ao norte e dissemina, na região, uma cultura rija e rebelde. Já o vaqueiro, “mediador entre o bandeirante e o padre”,4 forma seu modo de vida com base no avanço paulista pelo rio São Francisco e da substituição do empreendimento extrativista pela pecuária. A seção sublinha um contato instável na mestiçagem dos tipos humanos do sertão. Tal mestiçagem não configura uma forma antropológica própria, “não é uma integração de esforços”, mas “alguma coisa de dispersivo e dissolvente, [...] oscilando entre influxos opostos de legados discordes”.5 Assim, o drama de Canudos acentua-se pela “ansiedade” do mulato, que “despreza [...] o negro e procura [...] cruzamentos que apaguem na sua prole o estigma da fronte escurecida”. Ou, ainda, pela brutalidade do mameluco, ascendência do bandeirante paulista. Ambos revivem no tipo trágico do sertanejo, um “condenado à vida”,6 misto de neurastenia e força adaptada, a catástrofe natural que marca a região.

A “síntese”7 da formação humana do sertão é Antônio Conselheiro. A análise que Euclides produz do fundador e líder de Canudos emoldura o conflito: ele é representante “feroz e extravagante” de “todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja”.8 Conselheiro opõe-se ao curso da História como foco de resistência ao progresso civilizatório da República recém-fundada. No desdobramento de “A Luta”, a tese do confronto entre progresso e barbárie, civilização e natureza, é posta à prova. A campanha do exército justifica-se como afirmação da racionalidade republicana frente a um nicho selvagem instalado no país. Entretanto, as ações do Estado brasileiro apresentam-se sob o signo do oportunismo político, da incompetência técnica e do abuso de autoridade. A perspectiva intelectual de Euclides da Cunha revela, por fim, perplexidade entre duas contradições. A primeira diz respeito à sociedade de Canudos, que se ergue e se propaga sobre o solo e a natureza, dominando-os. Contradiz todos os índices que a ciência positiva compreende como marcas de um estado primitivo do humano, diferentemente do Estado brasileiro que se opõe a sua própria terra e povo. A segunda, refere-se ao esforço civilizatório que, fundado no progresso, revela sua face assassina, definida, na última frase do volume, como loucura e crime.

A principal marca estilística de Os Sertões manifesta-se no desdobramento científico e literário de sua prosa. Nela, o rigor parnasiano não se separa das descrições científicas e relatos de historiador. Também se manifesta no intrincado espelhamento alegórico que marca as sobreposições das três partes. Da tensão entre espanto e objetividade, surge o autor empenhado em decifrar a nação brasileira. Ao produzir o confronto entre autoridades de saber e as circunstâncias locais em busca de um conhecimento nacional autônomo, Euclides da Cunha aproxima-se das preocupações que constituem o pensamento modernista da década de 1920, e seus desdobramentos nas décadas subsequentes.

Notas
1 CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de canudos (edição, prefácio, cronologia, notas e índices, Leopoldo M. Bernucci). São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. (Clássicos comentados I). p. 75.
2 Ibid., p. 120.
3 Ibid., p. 121.
4 Ibid., p. 184.
5 Ibid., p. 201.
6 Ibid., p. 212.
7 Ibid., p. 252.
8 Ibid., p. 252.

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Fontes de pesquisa 4

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  • CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de canudos (edição, prefácio, cronologia, notas e índices, Leopoldo M. Bernucci). São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. (Clássicos comentados I).
  • HARDMAN, Francisco Foot. A vingança de Hileia: Euclides da Cunha, a Amazônia e a literatura moderna. São Paulo: Editora da Unesp, 2009.
  • PRADO, Antonio Arnoni. Trincheira, palco e letras. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
  • SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. Edição revista e ampliada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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