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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Balé Neoconcreto I

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.09.2020
1958
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Balé Neoconcreto I, 1958
Lygia Pape
Formas de madeira cobertas com pano pintado

O Balé Neoconcreto I (1958) é criado por Lygia Pape (1927-2004) com base na articulação de sólidos geométricos e de acordo com poema de Reynaldo Jardim (1926-2011). A obra marca o interesse de Lygia Pape pela expansão da linguagem concretista, integrando poesia, dança e escultura, propondo múltiplas possibilidades de configuração ao fazer artíst...

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O Balé Neoconcreto I (1958) é criado por Lygia Pape (1927-2004) com base na articulação de sólidos geométricos e de acordo com poema de Reynaldo Jardim (1926-2011). A obra marca o interesse de Lygia Pape pela expansão da linguagem concretista, integrando poesia, dança e escultura, propondo múltiplas possibilidades de configuração ao fazer artístico.

Concebido por Lygia Pape e o poeta Reynaldo Jardim em parceria com o coreógrafo Gilberto Motta (1933-2014), o espetáculo, à época de sua criação associado ao debate artístico do período, é intitulado de Ballet Concreto e apresentado em agosto de 1958 no teatro do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, a partir da publicação do Manifesto Neoconcreto (1959) e da definição da corrente neoconcreta, passa a ser conhecido com nova denominação. 

O Balé Neoconcreto I se estrutura a partir do poema concreto “Olho-Alvo”, de Reynaldo Jardim, publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil em fevereiro de 1958. O poema é constituído por quatro repetições dessas duas palavras, que, circunscritas em quadrados, são distribuídas espacialmente em cinco variações, o que faz com que o leitor realize uma espécie de coreografia do olhar. O espetáculo tem sua sonoridade marcada por uma descontinuidade rítmica, adaptada de uma composição do músico e matemático francês Michel Philippot (1925-1996).  

Para o espetáculo, Lygia Pape cria oito sólidos geométricos de madeira sobre rolamentos de aço (rolimãs), que possibilitam um deslizamento suave das formas sobre o palco, onde bailarinos profissionais do Teatro Municipal executam a “coreografia” do poema visual. Para a palavra “olho” são criados quatro cilindros de 2 metros de altura, com 70 cm de diâmetro, pintados de branco. Para a palavra “alvo” são criados quatro paralelogramos pintados de zarcão (tetróxido de chumbo) – composto normalmente aplicado em superfícies de ferro como proteção contra a ferrugem –, que, aplicados sobre a madeira, repetem o cruzamento de materiais já utilizados pela artista em sua série de relevos Jogos Matemáticos (1954‐1956), em que cruza a matéria rudimentar da madeira com tintas industriais. 

Responsável pela organização de uma série de apresentações para o Copacabana Palace, o coreógrafo Gilberto Motta cria uma programação que inclui o Ballet Concreto, no qual Lygia Pape foca a exploração das relações entre volume, espaço e movimento. Para a apresentação, a artista organiza uma pequena mostra de pintura, escultura e poesia concreta no saguão do teatro, que conta com trabalhos de artistas como Amilcar de Castro (1920-2002), Lygia Clark (1920-1988) e Ivan Serpa (1923-1973).

Paralelos podem ser estabelecidos entre o Balé Neoconcreto I de Lygia Pape e o Ballet Triádico (1921-1929), de Oskar Schlemmer (1888-1943), apresentado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) em março de 1958. Ambos os espetáculos exploram elementos como: o espaço a partir de suas leis (planimetria e estereometria); a forma e suas aparições enquanto superfície de abstração do corpo humano; e a cor e a iluminação, articuladas como meio essencial de demonstração das leis da cena, distanciando-se da imitação naturalista. 

Na semana seguinte à segunda apresentação do Balé Neoconcreto I, o poeta e crítico Ferreira Gullar (1930-2016) afirma que os cilindros e paralelepípedos laranja e branco executam uma dança rigorosa e fascinante. Essa apresentação marca as artes visuais brasileira ao afirmar em um novo campo da expressão estética as possibilidades de uma linguagem de puras formas. 

A pesquisa do Balé Neoconcreto I é continuada e se desdobra no Balé Neoconcreto II (1959), apresentado no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, na 1ª Exposição Neoconcreta do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), e que consiste de uma placa quadrada pintada de rosa, de 2 x 2 m, e outra idêntica, acrescida no alto de uma faixa de madeira azul de 1 metro. Atrás de cada uma das placas, dois poetas realizam movimentos ortogonais, desdobrando a ambivalência entre figura e fundo. 

O Balé Neoconcreto I rompe com as formas usuais utilizadas pelos artistas concretos, propondo procedimentos inéditos na pesquisa de corpo, forma e espaço: uma criação pioneira, que pode ser considerada definidora dos rumos da arte contemporânea no Brasil, ao lado dos Bichos (1959) de Lygia Clark e dos Parangolés (1964) de Hélio Oiticica (1937-1980). O Balé Neoconcreto I de Lygya Pape reflete seu interesse de incluir e tornar suporte para a linguagem abstrato‐geométrica tantas formas de expressão quanto possível.

Fontes de pesquisa 11

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  • BALLET NEOCONCRETO. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 e 19 abr. 1959. Suplemento Dominical.
  • COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinquenta. Rio de Janeiro: Funarte, Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1987.
  • COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella. Lygia Pape: entre o olho e o espírito. Porto: Mímesis, 2004.
  • GULLAR, Ferreira. Ballet Concreto, arte nova. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 ago. 1958. Suplemento Dominical.
  • JARDIM, Reynaldo. A flor não é a palavra flor. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 23 fev. 1958. Suplemento Dominical, p. 2.
  • MACHADO, Vanessa Rosa. Lygia Pape: espaços de ruptura. 2008. 219 p. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, São Carlos, 2008. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18142/tde-19082008-135305/publico/LygiaPape_MachadoVR_2008.pdf. Acesso em: 15 set. 2020.
  • MATTAR, Denise. Lygia Pape: intrinsecamente anarquista. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Prefeitura, 2003.
  • MORAES, Angélica de. Lygia Pape faz retrospectiva no CCSP. O Estado de São Paulo, São Paulo, 7 out. 1996. Caderno 2.
  • PAPE, Lygia. Balé, experiência visual. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 mar. 1959. Suplemento Dominical. In: AMARAL, Aracy. Projeto construtivo brasileiro na arte (1950‐1962). Rio de Janeiro: MAM, 1977. p. 280‐1.
  • PAPE, Lygia. Gávea de Tocaia. Texto Mário Pedrosa, Guy Brett, Hélio Oiticica; versão em inglês Esther Steams d'Utra e Silva, Stephen Berg. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 333 p., il. color.
  • PEQUENO, Fernanda. Lygia Pape e Hélio Oiticica: conversações e fricções poéticas. Rio de Janeiro: Apicuri Editora, 2013.

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