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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

As primaveras

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 21.07.2020
1859
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

As primaveras, 1859
Casimiro de Abreu

Um dos mais populares livros do Romantismo brasileiro, As Primaveras (1859), de Casimiro de Abreu (1839-1860), única obra publicada em vida pelo autor, reúne poemas escritos entre 1855 e 1858. Dividido em quatro partes, tem como temas o amor, a morte e a saudade. Os poemas refletem impressões e sentimentos do eu lírico, quase sempre em primeira ...

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Análise

Um dos mais populares livros do Romantismo brasileiro, As Primaveras (1859), de Casimiro de Abreu (1839-1860), única obra publicada em vida pelo autor, reúne poemas escritos entre 1855 e 1858. Dividido em quatro partes, tem como temas o amor, a morte e a saudade. Os poemas refletem impressões e sentimentos do eu lírico, quase sempre em primeira pessoa.

O livro desenvolve-se sob o signo da amada morta – “doce virgem dos meus sonhos”. Não nomeada, aparece no poema de abertura, localizado antes da epígrafe e serve de pórtico. Em uma das dez quadras dessa composição, resume-se o teor da obra: “Podes ler o meu livro: – adoro a infância,/ [...] Creio em Deus, amo a pátria, e em noites lindas/ Minh’alma – aberta em flor – sonha contigo”. A meninice, a fé religiosa, a paisagem, a subjetividade e o devaneio amoroso estão na essência das composições.

Cantada em poemas como o conhecido “Meus oito anos”, a infância representa a felicidade plena, quando, em companhia da mãe e da irmã, o eu lírico vive “dias puros”. O lamento é duplo, pois a distância é temporal e física, vivenciada por um sujeito adulto no exílio. Em “No Lar”, poema que fantasia o retorno à pátria, “país das flores”, expressa-se o desejo maior: “Onde tive o berço quero ter meu leito!”.

O exílio é uma das formas do sofrimento do eu lírico, que se ressente por não se alegrar com as belezas encontradas no mundo, por causa da desilusão amorosa:

Dizem que há gozos no correr da vida...

Só eu não sei em que o prazer consiste!

– No amor, na glória, na mundana lida,

Foram-se as flores – a minh’alma é triste!

Como ocorre em “Visão”, o sofrimento torna-se índice de distinção do sujeito, e o poeta passa a se destacar da coletividade: “ – Os outros a sorrir passam cantando,/ Só eu a suspirar procuro ainda!...”.

Esse sentimento justifica e define o livro, como em “Palavras a Alguém”, “Escrito em noites d’angústia,/ Regado com muito pranto”, como “santo”. Isso não implica entender a arte como salvação. O apaziguamento da alma é representado pela figura divina (conforme os poemas “Bálsamo” e “Deus”, por exemplo) ou, mais frequentemente, pela morte, “virgem das sepulturas”.

Assim como o poeta Álvares de Azevedo (1831-1852), uma de suas principais influências, Casimiro de Abreu dá expressão ao tema da morte na juventude, relacionado à amada, a seus pares e a si próprio. Em “À Morte de Afonso de A. Coutinho Messeder”, o lamento pelo outro (“É bem triste dos anos nos verdores/ Morrer mancebo, no brotar das flores,/ Na quadra juvenil!”) combina-se com o pressentimento: “Dorme tranquilo à sombra do cipreste.../ – Não tarda a minha vez!”. Este poema, que também alterna versos decassílabos e hexassílabos, é exemplar quanto à variedade métrica do livro: com exceção dos versos de oito sílabas, o autor adota desde o dissílabo até o hendecassílabo.

Embora as últimas composições reúnam-se em uma parte intitulada “Livro Negro”, não se trata de um livro sombrio. Além de lamentar as “horas tristes”, o “riso amargo” ou a “mortal tristeza”, o poeta canta as flores, os bosques, o céu azul, em composições que estão entre as mais solares de sua geração. É o que se vê em “Canção do Exílio”, que remete ao conhecido poema de Gonçalves Dias (1823-1864), ou em “Minha Terra”, dedicada à pátria “alcatifada de flores/ onde a brisa fala amores/ nas belas tardes de abril”.

A luminosidade apresenta-se ainda no lirismo amoroso de Casimiro de Abreu, cujas “minúsculas libertinagens” são ressaltadas por Mário de Andrade (1893-1945). Se diante de uma amada virginal a realização amorosa não é possível, alguns poemas de As Primaveras realizam o encontro de outra forma. Isso ocorre, por exemplo, em “Noivado”, pela linguagem metafórica (“O moço triste, sonhador mancebo,/ Desfolha rosas no teu casto leito”); em “Na Rede”, por meio do sonho (“Beijou-me – a sonhar!”); em “Cena Íntima”, jogando com a quebra do verso (“Ordena com gesto altivo.../ Que te beije este cativo/ Essa mão!”).

A sensualidade do lirismo amoroso articula-se com o tom modesto, avesso ao sublime e à grandiloquência, proposto na apresentação de As Primaveras. Nesse breve texto, o poeta revela-se consciente de sua escrita, defendendo uma linguagem, que, em contraposição à grandeza da poesia épica, assemelha-se às “vozes secundárias que se perdem no conjunto duma grande orquestra”.

A esse respeito, Antonio Candido (1918) afirma que Casimiro de Abreu é “o maior poeta dos modos menores que o nosso Romantismo teve”. Cantando sentimentos imediatos, dá-lhes expressão concreta, “no quadro real da vida”, em vez de buscar a abstração. A dicção é, assim, simples, avessa ao sublime: “Sou como a pomba e como as vozes dela/ É triste meu cantar”, lamenta-se de modo singelo o eu lírico de “Juriti”. Nas mãos do jovem poeta, esses traços por vezes resultam em sentimentalismo excessivo, caso do ingênuo “O que é – simpatia”, “que nasce num só momento,/ Sincero, no coração”.

A simplicidade e a sensibilidade, somadas a um ritmo regular, propício à declamação, explica por que o livro conquista penetração popular. Segundo José Veríssimo (1857-1916), As Primaveras é “porventura o mais lido dos nossos livros de versos”, testemunho reiterado por Manuel Bandeira (1886-1968), que o identifica, na época, ao “primeiro lugar na preferência do povo”. 

Fontes de pesquisa 5

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  • ALENCAR, José. Alfarrabios: cronicas dos tempos coloniaes. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1873. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, São Paulo, [s.d.] Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4636. Acesso em: 21 de jul. 2020
  • BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira: seguida de uma antologia.São Paulo: Cosac Naify, 2009.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 4. ed. São Paulo: Martins, 1971. 2 v.
  • José Veríssimo. História da literatura brasileira: de Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908). 4. ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2127. Acesso em: 30 de nov. 2015
  • Wilson Martins. História da inteligência brasileira (1933-1960). 3. ed. Ponta Grossa: UEPG, 2010. v. 7.

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