Artigo da seção obras Família em um Terraço

Família em um Terraço

Artigo da seção obras
Artes visuais  
Data de criaçãoFamília em um Terraço: 1860 | Revert Henrique Klumb
Fotografia
Imagem representativa do artigo

Reprodução fotográfica autoria desconhecida

A fotografia Família em um Terraço, feita por Revert Henry Klumb (1830-1886) por volta de 1860 na região serrana do Rio de Janeiro, aproxima duas das principais vertentes exploradas com sucesso pelo artista de origem franco-alemã: as paisagens e os registros íntimos, familiares. A imagem revela também o caráter sofisticado de suas composições, ajudando a compreender melhor porque o autor é visto como um dos mais experimentados profissionais da fotografia oitocentista, e apresenta uma reveladora representação da relação de mando entre senhores e escravos no Brasil, pautada pela naturalização e suavização dos efeitos do sistema escravista que vigorou no país até 1888.

De fato, esse registro aparentemente banal de uma família de posses instalada confortavelmente em seu terraço e ladeada por duas escravas parece ser uma síntese de dois caminhos: ao mesmo tempo em que figura as relações de equilíbrio e poder no interior das casas da elite brasileira, descortina a natureza montanhosa da região de Petrópolis, onde o fotógrafo viveu por um longo período. A oposição entre a profundidade da cena e o contexto doméstico, entre a paisagem aberta e o ambiente familiar voltado sobre si mesmo é característico das estratégias de representação da fotografia oitocentista, mais especificamente das adotadas por Klumb.

Adepto de composições nas quais se destaca a grandiosidade da natureza e o caráter majestoso dos modelos, o fotógrafo revela em muitos de seus registros uma cuidadosa organização interna, explorando com mestria os efeitos gerados pelos contrastes entre zonas iluminadas e sombreadas, entre a força e a monumentalidade da natureza e a presença humana e explora o efeito do flagrante viabilizado pela técnica fotográfica. Nesse caso, o que sobressai é a figura do proprietário, provavelmente um senhor de engenho ou rico fazendeiro. Acompanhado da mulher, filhas e escravas, ele se torna uma espécie de pivô da imagem e remete como uma flecha para a confluência entre as duas montanhas que recortam o horizonte ao fundo. Tal estratégia compositiva reforça a construção em perspectiva, ao mesmo tempo em que indica o amplo alcance de seu poder, suas vastas posses e seu domínio também sobre o círculo íntimo.

As mulheres a seu lado pertencem a duas categorias distintas: uma composta de mulheres da família; a outra de servas. As primeiras ocupam um lugar de destaque, em primeiro plano. Estão sentadas e fingem não perceber que estão sendo retratadas. Leem, escrevem ou costuram distraidamente; parecem ter sido orientadas a ignorar a presença do fotógrafo e forjar uma suposta naturalidade doméstica. Tal “descontração” contrasta com as fisionomias graves, um tanto inexpressivas, com que as cativas encaram a lente. Estas sim parecem obedecer ao comando de posar para a foto, ladeando os senhores, sem disfarce.

Não há como afirmar que houve uma dupla orientação – encenação para as moças da família, frontalidade para as escravas. Mas tampouco se pode pensar que tal oposição tenha passado despercebida a um fotógrafo experiente como Klumb, quer no instante de captação da imagem, quer no momento da edição. Tal contraste, entre a naturalidade encenada da pose e o olhar voltado para a lente, é explorado por ele em outras ocasiões, como na célebre imagem das princesas Isabel e Leopoldina “espiando”, por uma porta ao fundo da imagem, o momento em que Klumb fazia um registro de sua mãe, a imperatriz Thereza Christina.

Família em um Terraço tem muito em comum com os típicos registros de família produzidos em larga quantidade no período, mas destoa pela relação direta com a natureza e, sobretudo, pela presença incontornável de duas acompanhantes negras. O traje das duas é modesto, mesmo que discreto e elegante, mas não explicita necessariamente seu papel de escravas. Nem tampouco há na imagem alguma menção clara ao cativeiro. No entanto, o contraste entre elas e as sinhás, suas posturas rígidas, frontais e não compactuantes com a encenação que se desenrola ali parece não deixar dúvidas sobre sua condição.

É sua presença, ou melhor, o contraste entre elas e os proprietários, que torna essa imagem uma espécie de sintoma do problema escravista e da dificuldade de se representar visualmente tal questão. O que incomoda na foto é o fato de que a família – pai, mãe e filhas – atuam conforme seus papéis de senhores fidalgos brasileiros, enquanto as duas domésticas negras não participam da encenação. São apenas figuração e, ao não entrarem no jogo, explicitam a farsa que constitui a suposta imagem harmoniosa de um dia qualquer na casa suntuosa de uma família de posses.

Também merece destaque a ênfase dada pelo fotógrafo à sua estrutura espacial, reforçando elementos que ampliam ainda mais seu aspecto tridimensional. Ela possui ao menos três planos evidentes: o último, constituído pelos morros ao fundo; o segundo, pelas construções que se encontram bem mais próximas da casa grande; e finalmente o primeiro, formado pelo terraço onde se desenrola a cena. O fato de o fotógrafo ter deixado um amplo espaço entre ele e os retratados (distância que poderia ter sido recortada posteriormente) e o de ter enquadrado o grupo de forma centrada diante do vale também contribuem para reduzir o caráter planar da imagem fotográfica, ampliando a sensação de profundidade. Essa estratégia adquire maior relevância se considerarmos que foi produzida para ser observada através do estereoscópio, instrumento ótico de grande sucesso no século XIX que Klumb usou de forma pioneira no país. A técnica consiste em observar duas imagens quase idênticas (apenas com pequenas diferenças de recorte) por meio de um aparelho de lentes que gera um efeito de tridimensionalidade.

Outro aspecto marcante da imagem é a forte presença de elementos de duplicidade e espelhamento, que se fazem presentes em diversos aspectos: nas duas classes, nas duas raças, nas duas trabalhadoras, nas duas filhas, na organização do cenário e culmina com o requinte metafórico das duas gaiolas penduradas nas pilastras que emolduram a cena, como que ecoando – ou replicando – a presença das duas cativas, já que estão situadas estrategicamente no alto de suas cabeças. Reforça ainda essa tese outra imagem, feita pelo mesmo fotógrafo, no mesmo local. Trata-se também de um estereoscópio que, ao invés de retratar o grupo todo, mostra apenas uma das moças brancas (provavelmente a que se encontra à esquerda na imagem analisada aqui) e a mais velha das escravas (à esquerda também). Essa segunda imagem reproduz mais uma vez a lógica da dualidade e repõe a existência de uma oposição hierárquica entre o par feminino.

Notas

1. A maioria dos autores considera que ele nasceu na Alemanha, mas se formou na França, sendo inclusive apontado por alguns como um desertor do exército francês.

2. As famílias interioranas abastadas costumavam retratar-se nos ateliês fotográficos quando visitavam as capitais, mas também lançavam mão dos serviços dos vários profissionais que costumavam peregrinar pelo interior em busca de trabalho. No caso dessa imagem, por tratar-se de um trabalho de Revert Klumb, deduz-se que a imagem foi feita em alguma fazenda ou chácara próxima ao Rio de Janeiro ou Petrópolis, locais onde o fotógrafo mais trabalhou.

Ficha Técnica da obra Família em um Terraço:

Fontes de pesquisa (11)

  • ANDRADE, Joaquim Marçal F. de (curadoria e apresentação). A coleção do imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX. Catálogo de exposição. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional: Centro Cultural Banco do Brasil, 1997.  
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  • ERMAKOFF, George. O Negro na fotografia brasileira do século XIX. Tradução Carlos Luís Brown Scavarda. São Paulo: G.Ermakoff Casa Editorial, 2004.
  • FABRIS, Annateresa. A fotografia oitocentista ou a ilusão da objetividade. Porto Arte, Porto Alegre, v. 5, n. 8, 1993.  
  • FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil. Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, n. 10, 1953. p. 17-18.
  • KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro. São Paulo: IMS, 2002.
  • LAGO, Bia Correia do; LAGO, Pedro Correia do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.
  • LAGO, Bia Correia do; LAGO, Pedro Correia do. Os fotógrafos do império. Rio de Janeiro: Editora Capivara, 2005. 
  • MAUAD, Ana M. As fronteiras da cor: imagem e representação social na sociedade escravista imperial. Revista Locus, Juiz de Fora, v. 6, n. 2, 2001, p. 83-98.
  • VASQUEZ, Pedro Karp (texto); ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de (apresentação). Revert Henrique Klumb: um alemão na corte imperial. Rio de Janeiro: Capivara, 2001.
  • VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002. 72 p., il. p&b.

Como citar?

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  • FAMÍLIA em um Terraço. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra16634/familia-em-um-terraco>. Acesso em: 09 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7