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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Memorias posthumas de Braz Cubas

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.05.2022
1881
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Memorias posthumas de Braz Cubas, 1881
Machado de Assis
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú

Memórias póstumas de Brás Cubas (MPBC), publicada em 1881, do escritor Machado de Assis (1839-1908), representa um marco inaugural do realismo na literatura brasileira1. No livro, são frequentes as digressões metalingüísticas e reflexões filosóficas sobre a natureza humana, em que o narrador apresenta suas motivações, hesitações e justificativas...

Texto

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Memórias póstumas de Brás Cubas (MPBC), publicada em 1881, do escritor Machado de Assis (1839-1908), representa um marco inaugural do realismo na literatura brasileira1. No livro, são frequentes as digressões metalingüísticas e reflexões filosóficas sobre a natureza humana, em que o narrador apresenta suas motivações, hesitações e justificativas, dirigindo-se muitas vezes diretamente a quem lê.

O romance é uma autobiografia ficcional do narrador-personagem Brás Cubas, que escreve suas memórias do além túmulo. A obra é composta por 160 capítulos curtos, organizados de forma não-linear e foi inicialmente publicada de forma seriada na Revista Brasileira, entre março e dezembro de 1880, reunida em formato de livro no ano seguinte2.

O cerne do romance se passa no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, narrado do ponto de vista de um falecido membro da elite aristocrática e escravocrata. Brás Cubas se apresenta como alguém liberto das vaidades humanas, uma vez que está morto. Isso lhe daria isenção, permitindo reconhecer defeitos e fracassos que em vida não admitiria. Ainda assim, trata-se de um narrador interessado, com uma visão parcial dos acontecimentos, contaminada por sua origem social e pelos valores que carregou em vida.

A ironia é figura de linguagem que perpassa todo o romance, desde a dedicatória, endereçada ao primeiro verme que roeu as carnes do narrador-protagonista. Numa de suas digressões metalinguísticas, Brás compara a organização dos capítulos ao andar de um bêbado cambaleante, que avança e recua, vacila de um lado a outro, depois cai. As hesitações da narrativa enfatizam características da personalidade do protagonista, que leva a vida guiado por ambições difusas, sem convicção nem método.

Na infância, Brás promove diversas agressões contra os escravos de sua casa, em especial contra Florêncio, em quem diariamente monta e chicoteia como faria aos cavalos. Cercado de privilégios, Brás cresce mimado e cruel, sem que ninguém lhe repreenda as perversidades. Pelo contrário, recebe carinhos e prêmios de seu pai, que deposita nele ambições de fama e glória. No início da adolescência, Brás se enamora de Marcela, que por eufemismos e elipses se entende ser uma prostituta. O amor dela, segundo o narrador, durou "quinze meses e onze contos de réis"3. Para encerrar este caso, o pai envia Brás para a Europa. Apesar de medíocre nos estudos, Brás obtém o título de bacharel na Universidade de Coimbra.

A formação privilegiada de Brás transparece na rica intertextualidade do romance. Há referências a diversas obras literárias, personagens e eventos históricos. São abundantes as citações em latim, francês e inglês, além de referências a passagens bíblicas, à Divina comédia e filósofos gregos, ainda que muitas vezes de forma superficial.

Brás retorna ao Rio de Janeiro, onde aceita duas propostas de seu pai: casar-se com Virgília, filha de um homem da elite e tornar-se deputado. Virgília, entretanto, desiste do noivado com Brás e casa-se com Lobo Neves. Em outro momento, Brás e Virgília iniciam um caso extraconjugal. Brás cogita uma fuga, para viver plenamente esse amor, o que não se realiza. Eles vivem de encontros escondidos em uma casa na periferia até que são descobertos e se separam sem alarde. É o relacionamento mais importante de Brás, ainda que Virgília nunca se separe de Lobo Neves.

À época, Brás encontra um antigo colega de escola, Quincas Borba, na rua a pedir esmolas. Quincas recebe uma herança e retorna para apresentar a Brás o "Humanitismo", sistema filosófico que pretende substituir todos os demais sistemas de pensamento, que legitima guerras e desigualdades como forças essenciais ao desenvolvimento da humanidade. O contraste entre a arrogância inicial do sistema e o fim de Quincas, que morre louco e sem concluir seu trabalho, reforça a função do "Humanitismo" enquanto sátira de teorias cientificistas adotadas pelas elites do período4.

O último capítulo é uma espécie de balanço da vida de Brás, marcada por negativas como não ter se casado ou alcançado a fama. Por outro lado, a seu favor, outras negativas como não ter não enlouquecido como Quincas, não ter trabalhado para viver ou ter sofrido na morte. Por fim, o saldo de sua existência também se dá em uma negativa: não teve filhos, não passando adiante o legado da miséria humana. Nesta última, se torna mais agudo o humor ácido que revela o pessimismo acerca da natureza humana do narrador-protagonista, frustrado.

O enredo é simples, com poucos acontecimentos e poucos personagens. A vida de Brás se passa sem grandes tragédias, nem grandes realizações. Brás não vive amores capazes de romper conveniências ou ultrapassar aparências. Não há um grande propósito ou um ideal norteador. Sua vaidade salta de um objeto a outro, sem fixar-se nem persistir. Mesmo o desejo de reconhecimento não é vigoroso o bastante para lhe romper a inércia.

MPBC antecipam recursos do século seguinte, entre eles o elemento fantástico do foco narrativo do "defunto autor". A estrutura fragmentária, o tempo não cronológico, e as inovações gráficas serão influentes para o modernismo. No romance há mescla de gêneros, com a presença de versos e capítulos totalmente sem palavras, compostos apenas por sinais de pontuação, antecipando a valorização de elementos não-verbais que será própria da poesia concreta.

A inovação estrutural de MPBC faz dele alvo de polêmicas sobre ser ou não considerado um romance pela crítica de sua época, como é caso de Capistrano de Abreu (1853-1927)que embora coloque o questionamento sobre qual a categoria na qual o livro pode ser encaixado deixa claro que “romance aqui é simples acidente. O que é fundamental e orgânico é a descrição dos costumes, a filosofia que está implícita [...]. Tudo é bom; tudo é grande; tudo é santo. A humanidade reside no todo, mas reside igualmente no indivíduo. Como, por conseguinte, pode lesar-se a si própria”.6

Inspiração para os modernistas e obra estruturante da trajetória de Machado de Assis, MPBC é um marco da literatura brasileira por sua inovação técnica e temática, próprias do trabalho do escritor.

Notas

1.FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de; MARUXO Jr., José Hamilton. Língua portuguesa : linguagem e interação. 3. ed. São Paulo: Ática, 2016. p.165.

2. FISCHER, Luís Augusto. “Notas sobre a edição”, in ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 2019. p.7.

3. ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 2019. p.89.

4. SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1938. p.104.

5. O trecho diz respeito a análise de Capistrano de Abreu presente na seção “Livros & Letras” do jornal Gazeta de Notícias, de 30 de janeiro de 1881

6. ABREU apud CORDEIRO, p. 124

Fontes de pesquisa 8

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  • ASSIS, Machado de. Memorias posthumas de Braz Cubas. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1881. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4826. Acesso em: 16 mar. 2022.
  • BOSI, Alfredo. Moderno e modernista na literatura brasileira. In: BOSI, Alfredo. Céu, Inferno. São Paulo: Ática, 1988.
  • CANDIDO, Antonio. “Esquema de Machado de Assis”. In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades. 1968. p. 15-32
  • CORDEIRO, Verbena Maria Rocha. Memórias Póstumas de Brás Cubas: Trilhas de leitura. Signo. Santa Cruz do Sul, v.33 nº especial, p.121-127, jul., 2008. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/signo/article/view/614. Acesso em: 3 maio 2022.
  • FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de; MARUXO Jr., José Hamilton. Língua portuguesa : linguagem e interação. 3. ed. São Paulo: Ática, 2016.
  • FISCHER, Luís Augusto. “Notas sobre a edição”, in ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 2019.
  • KOCH, Ana Maria. Intertextualidade em Memórias póstumas de Brás Cubas. 2004. 555 f. Tese (Doutorado em Letras).Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre 2004.
  • SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1938.

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