Artigo da seção obras O Quinze

O Quinze

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoO Quinze: 1930 | Rachel de Queiroz
Livro
Imagem representativa do artigo

Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Rachel de Queiroz (1910-2003) publica O Quinze (1930) com apenas 20 anos de idade. O romance surpreende a crítica pela prosa bem construída e a autoridade da voz de uma escritora tão jovem, sem outra experiência que a de leitora. 

Dois anos antes da estreia de Rachel, o escritor José Américo de Almeida (1887-1980) lança o romance A Bagaceira (1928), que discorre sobre a seca, o retirante, a luta pela sobrevivência, tal qual O Quinze. A temática da seca ganha espaço no fim do século XIX, abordada, no Nordeste, por romancistas como Domingos Olímpio (1850-1906), Rodolfo Teófilo (1853-1932) e, embora não publicado em vida, Manuel de Oliveira Paiva (1861-1892). A abordagem, no entanto, só ganha força crítica no século XX, contribuindo para isso o livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909). O que distingue a obra de Rachel de Queiroz, nesse contexto, é a construção de uma narrativa em que o drama humano, as relações sociais, a seca e suas consequências surgem renovados em linguagem mais enxuta e fluida do que a produzida anteriormente.

Graciliano Ramos (1892-1953) fica espantado com a qualidade literária do texto de Rachel e chega a duvidar (como tantos outros na época) que se tratasse realmente de uma jovem. Diz ele: 

O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e visto o retrato no jornal, balancei a cabeça: 

– Não há ninguém com este nome. É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado1.

Dividido em 26 capítulos curtos, cada um subdividido ou com cortes no desenvolvimento, o romance tem a seca como pano de fundo e motor das ações dos personagens. Transporta o leitor para as dificuldades de um longo período de estiagem. O ano de 1915, a que o título do romance se refere, é marcado por uma das secas mais terríveis ocorridas no Ceará, momento em que o governo – para evitar saques, invasões e impedir o êxodo para a capital – cria no Alagadiço (a oeste de Fortaleza) o primeiro campo de concentração para “alojar” famílias de retirantes.

É num desses campos, trabalhando como voluntária, que a neta de dona Inácia, Conceição, reencontra o empregado da fazenda de sua avó, Chico Bento, e sua família. Sem esperança na chegada da chuva, Conceição convence a avó a sair da fazenda no Logradouro. Já Chico Bento é obrigado a migrar com a família. Apesar de terem o mesmo destino, o romance mostra como se distinguem os caminhos: enquanto neta e avó seguem viagem de trem, rápida e confortavelmente, Chico Bento vive com a mulher e os filhos a sina de lutar pela sobrevivência.

A trajetória de Conceição é tão importante quanto a de Chico Bento. Desde o começo, ela se revela mulher instruída, com ideias avançadas para um meio tão rústico, dominado por homens. Dona Inácia incomoda-se com certos modos da neta: como o hábito de ler, não condizente com a tradição de casar, cuidar do marido e ter filhos. O ponto de vista de Conceição sobre o universo masculino, representado pela figura de Vicente, que prefere continuar em sua fazenda a se deslocar para a cidade, é fundamental no romance. Conceição não é o objeto da narrativa, mas o sujeito.

No momento da publicação, essa mudança de perspectiva que a figura de Conceição representa não é o que se destaca em O Quinze. Questões da linguagem, cuja articulação traz elementos da tradição oral e a abordagem renovada do tema da seca têm foco no olhar da crítica. Segundo Alceu Amoroso Lima (1893-1983), Rachel não torna artificial aquilo que surge naturalmente do tema ou por causa dele. Agripino Grieco (1888-1973), por sua vez, ressalta a marca de originalidade no tratamento do tema da narrativa. Para ele, a escritora “conduziu, talvez sem pretendê-lo, uma ofensiva contra os lugares-comuns da seca e do dramático cearense e, não realizando meeting em favor dos flagelados, realizou algo de mais humano”. Nos comentários de ambos, Conceição fica em segundo plano.

Benjamin Abdala Júnior (1943) destaca em Conceição o elemento utópico e ideológico de uma postura que não aceita para si “nem os papéis masculinos de seu ambiente, nem os femininos”. Em outra leitura, Davi Arrigucci Júnior (1943) ressalta o universo a partir do qual se abre para o leitor uma nova percepção dos acontecimentos e enfatiza o modo pelo qual o mundo interior da personagem relaciona-se com o exterior. Com efeito, segundo o crítico, “o leitor se defronta sobretudo com os seus estados de ânimo e suas reflexões e raramente com algum ato exterior seu”.

A vitalidade de O Quinze deve-se à reviravolta que promove em relação aos livros que, antes dele, também tematizam a seca. Para tanto, pelo menos três elementos são decisivos. Primeiro, a composição de uma linguagem que passa ao largo do pitoresco, incorporando a oralidade. Segundo, a mudança de perspectiva que a personagem Conceição representa, com autonomia avançada para o meio em que vive. Terceiro, a possibilidade de descobrir, pelo ponto de vista da protagonista, um mundo mais amplo, em que o sertão, interiorizado, passa a ser ele mesmo o vasto mundo.

Notas

1. RAMOS, Graciliano. Caminho de pedras. In: Linhas tortas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1962.

Ficha Técnica da obra O Quinze:

Fontes de pesquisa (9)

  • ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Utopia e ideologia em O Quinze, de Rachel de Queiroz. In: De voos e ilhas: literatura e comunitarismos. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
  • ALMEIDA, José Américo de. A bagaceira. 15. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
  • ARRIGUCCI JR., Davi. O sertão em surdina (ensaio sobre O Quinze). In: Literatura e sociedade, São Paulo, n. 5, 2000.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 37. ed. São Paulo: Cultrix, 2000.
  • GALVÃO, Walnice Nogueira. Estreia deu forma a novo regionalismo. In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 nov. 2010.
  • GRIECO, Agripino. Evolução da prosa brasileira. Rio de Janeiro: Ariel Editora, 1933.
  • LIMA, Alceu Amoroso. Estudos, 5ª série. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933.
  • QUEIROZ, Rachel de. Cadernos de literatura - nº 4. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1997.
  • RAMOS, Graciliano. Caminho de pedras. In: Linhas tortas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1962.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Quinze. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15359/o-quinze>. Acesso em: 24 de Jun. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7