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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Macunaíma, O Herói sem Nenhum Caráter

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.09.2019
1928
Reprodução fotográfica Horst Merkel

Macunaíma, O Herói sem Nenhum Caráter, 1928
Mário de Andrade
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú

Publicada em 1928, Macunaíma é considerada uma das obras mais importantes de Mário de Andrade (1893-1945). A história do “Herói sem Nenhum Caráter” (subtítulo) condensa boa parte do ideário do primeiro modernismo brasileiro. O movimento inicia-se com a Semana de Arte Moderna de 1922, da qual Mário de Andrade é um dos principais expoentes. 

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Publicada em 1928, Macunaíma é considerada uma das obras mais importantes de Mário de Andrade (1893-1945). A história do “Herói sem Nenhum Caráter” (subtítulo) condensa boa parte do ideário do primeiro modernismo brasileiro. O movimento inicia-se com a Semana de Arte Moderna de 1922, da qual Mário de Andrade é um dos principais expoentes. 

Na década de 1920, publica livros importantes, como o lírico Pauliceia Desvairada (1922) e o romance Amar, Verbo Intransitivo (1927). Com seus companheiros de geração, pretende mudar a arte brasileira que, até 1922, configura-se devedora de movimentos estéticos europeus. Os autores modernistas buscam incorporar às suas obras elementos da cultura popular brasileira e características das vanguardas europeias para construir uma arte nacional. Assim, Mário e seus pares realizam uma profunda pesquisa essa cultura e Macunaíma é resultado dela. O livro une procedimentos literários modernos a temas e modos de composição populares. Assim como as principais obras modernistas dos anos 1920, Macunaíma é uma reflexão sobre o Brasil e seus rumos na modernidade. 

No romance, Macunaíma é um índio negro que nasce na tribo tapanhumas, na região de Uraricoera. Desde pequeno, mostra-se muito preguiçoso – a primeira frase que diz, aos 6 anos, é: “Ai, que preguiça!”. A frase torna-se uma espécie de refrão repetido pela personagem em toda a narrativa. O enredo concentra-se na vida adulta de Macunaíma em busca do muiraquitã, pedra preciosa deixada para o herói por Ci, a Mãe do Mato. Macunaíma vive uma série de aventuras para recuperar tal amuleto, que vai parar nas mãos de Venceslau Pietro Pietra, um gigante colecionador de pedras preciosas que mora em São Paulo. 

Para compor o enredo, Mário inspira-se nas histórias relatadas por índios americanos, registradas no livro Vom Roraima zum Orinoco, do etnólogo alemão Kroch-Grunberg (1872-1924). Outras matrizes de Macunaíma encontram-se nos modos populares de composição, como no bumba meu boi e nos cantadores nordestinos. Assim, o autor procura elaborar uma linguagem nacional, incorporando a oralidade brasileira e ignorando as normas gramaticais do português lusitano. Além disso, Mário conjuga as modalidades arcaicas de ficção a elementos modernos, como a colagem e a montagem. Dessa maneira, não é possível designar com precisão o gênero literário ao qual Macunaíma corresponde. O próprio autor, ciente dessa dificuldade, caracterizou sua narrativa como uma rapsódia, processo criador da música popular que une estruturas e temas diferentes para compor uma obra maior. 

O experimentalismo formal de Macunaíma gera polêmica logo após sua publicação. Algumas críticas de jornais e revistas da época consideram a narrativa radical, até mesmo de mau gosto; outras, caracterizam o livro como plágio, devido às inúmeras inspirações de que Mário se vale para compor a obra. Em 1955, é publicado o primeiro estudo mais detalhado  sobre a rapsódia: Roteiro de Macunaíma, de Manuel Cavalcanti Proença (1905-1966). Nessa obra o crítico identifica as diversas matrizes da narrativa, indicando aspectos de outras obras literárias que nela são retrabalhados. 

Na década de 1970, o escritor Haroldo de Campos (1929-2003) publica outro estudo importante acerca da obra, Morfologia do Macunaíma. Ele articula a estrutura da rapsódia às ideias elaboradas pelo folclorista russo Vladimir Propp (1895-1970), contemporâneo de Mário de Andrade, propondo que a rapsódia brasileira siga as leis dos contos maravilhosos. A crítica Gilda de Mello e Souza (1919-2005) publica O Tupi e o Alaúde (1979), e discute a abordagem unívoca de Campos. Segundo ela, Campos tenta adequar a estrutura de Macunaíma a um modelo crítico preestabelecido (no caso, a metodologia de Propp). Gilda procura demonstrar que Macunaíma filia-se tanto às formas de composição da cultura popular quanto à tradição europeia do romance de cavalaria. Desse modo, a narrativa oscila entre a valorização de referências nacionais e a adesão a moldes europeus. 

Pela complexidade de suas formas e temas, Macunaíma é uma das obras-primas do modernismo brasileiro. Recebe críticas severas de alguns escritores da geração de 1930, que procuram elaborar obras menos estilizadas do ponto de vista da linguagem. Apesar disso, pode-se dizer que Macunaíma é referência central para prosadores e poetas das gerações seguintes. Na década de 1960, os movimentos literários de caráter experimental, como a poesia concreta,  retomam procedimentos da prosa radical de Macunaíma – como a conjugação de elementos modernos e arcaicos – programaticamente. 

A influência da rapsódia de Mário de Andrade não se limita à literatura, mas inscreve-se em diversos âmbitos da cultura nacional. Em 1969, o diretor Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) adapta a obra para o cinema. A adaptação atinge repercussão internacional. A história de Macunaíma torna-se uma espécie de folclore nacional.

Macunaíma filia-se no movimento modernista, tornando-se um de seus principais representantes na literatura. Mário constrói uma obra que busca elementos nacionais sem deixar de buscar referências externas. A obra, aberta ao revisionismo permite um olhar crítico sobre as principais ideias que configuram o modernismo paulista.

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