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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Difilm

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.03.2022
1965 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
1974 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
A Difilm – Distribuidora de Filmes Ltda. – é uma empresa de produção e distribuição de filmes fundada em 1965 por jovens cineastas do grupo ligado ao Cinema Novo e produtores experientes. Considerada uma das principais iniciativas da distribuição cinematográfica brasileira, a Difilm é criada como uma entidade híbrida, que atua como distribuidora...

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A Difilm – Distribuidora de Filmes Ltda. – é uma empresa de produção e distribuição de filmes fundada em 1965 por jovens cineastas do grupo ligado ao Cinema Novo e produtores experientes. Considerada uma das principais iniciativas da distribuição cinematográfica brasileira, a Difilm é criada como uma entidade híbrida, que atua como distribuidora comercial e coprodutora cinematográfica. Sua fundação busca resolver dificuldades de financiamento e comercialização do cinema independente brasileiro. 

Dirigidos a um público politicamente engajado e aberto a inovações estéticas, os filmes do Cinema Novo não encontram espaço nos canais tradicionais de distribuição e exibição. O grupo percebe a necessidade de controlar a comercialização de suas próprias obras diante do domínio do mercado pelos filmes hollywoodianos.

Crítico da influência do cinema e, consequentemente, da cultura estadunidense no Brasil, o líder do Cinema Novo, o diretor Glauber Rocha (1939-1981), adverte que espectadores de toda parte são condicionados a padrões técnicos e morais veiculados por Hollywood. O cineasta atribui o sucesso de alguns filmes nacionais à cópia da técnica e da arte estadunidenses que deturpam a realidade nacional. Para o diretor brasileiro, desinformado de seu próprio país, o espectador brasileiro se choca com as obras brasileiras de denúncia social que não reproduzem a linguagem cinematográfica convencional. Segundo Glauber, o mercado distribuidor só se interessa pela produção que lhe oferece lucratividade alta e segura, desprezando as obras de linguagem moderna e revolucionária do Cinema Novo. O diretor atribui ao produtor e diretor Luiz Carlos Barreto (1928) a percepção do longo prazo necessário para modificar os conceitos morais e artísticos do público brasileiro e, por causa disso, a necessidade de se criar uma estrutura autossuficiente de distribuição dos filmes nacionais. Essa percepção leva Barreto a articular a criação da Difilm. 

Entre 1965 e 1968, onze sócios integram a Difilm: Marcos Faria (1935-1985), Cacá Diegues (1940), Leon Hirszman (1937-1987), Roberto Farias (1932-2018), Rivanides Farias, Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), Paulo César Saraceni (1932-2012), Luís Carlos Barreto, Walter Lima Júnior (1938), Zelito Viana (1938) e Glauber Rocha. O produtor Jarbas Barbosa (1927-2005) que inicialmente considera entrar no grupo, declina da ideia por não acreditar na viabilidade econômica do projeto. Os sócios majoritários da Difilm são também sócios de produtoras, como a Mapa Filmes (no caso de Glauber Rocha e Zelito Viana), a LCB Produções Cinematográficas (Luís Carlos Barreto), a Saga Filmes (Marcos Faria e Leon Hirzsman), a Filmes do Serro (Joaquim Pedro de Andrade) e a RF Farias Produções Cinematográficas (irmãos Reginaldo, Roberto e Rivanides Farias). O material dessas cinco empresas e o financiamento do extinto Banco Nacional garantem o início das atividades comerciais da Difilm.

Localizada no centro comercial cinematográfico do Rio de Janeiro, a Difilm despacha filmes para os outros estados brasileiros beneficiada pela facilidade de transporte da região. Chega a lançar mais de trinta títulos e a instalar uma filial em São Paulo. Marcos Faria e Rivanides Farias se encarregam de investigar o mercado cinematográfico, reconhecendo as potencialidades comerciais da cinematografia brasileira do período. Os dois primeiros filmes são comercializados em 1965: O Vigilante e os cinco valentes, de Ary Fernandes (1931-2010), e Luta nos pampas, de Alberto Severi. Expressão das contradições da empresa, a Difilm lucra com obras de linguagem mais tradicional desses lançamentos, mas também aproveita a boa inserção do Cinema Novo nos circuitos do “cinema de arte” no exterior para exportar seus filmes.

Embora os primeiros filmes não se enquadrem nas propostas artísticas do grupo cinemanovista, a Difilm é responsável pela comercialização e pelo lançamento de longa-metragens de estreia de diretores do movimento, alguns também coproduzidos pela empresa, como Menino de engenho (1965), de Walter Lima Júnior, O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, e O bravo guerreiro (1969), de Gustavo Dahl (1938-2011). Entre os filmes que marcam a historiografia do cinema nacional, a Difilm também se destaca pelo lançamento do primeiro longa-metragem colorido do Cinema Novo – Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman – e por uma das principais obras de Glauber Rocha – Terra em transe (1967).

Sob o ponto de vista comercial, uma das intervenções mercadológicas mais bem-sucedidas da distribuidora não se relaciona ao Cinema Novo: trata-se do filme Roberto Carlos em ritmo de aventura (1967), dirigido por Roberto Farias. Com enorme bilheteria, o diretor considera que a renda pela distribuição e exibição da sua obra sustenta as perdas da Difilm com outros filmes. As crises políticas e econômicas que atingem o país no final da década de 1960 impactam a empresa e provocam a cisão entre seus membros. Em 1969, os sócios se separam e a Difilm fica sob a tutela de Luís Carlos Barreto. A distribuidora permanece ativa até 1974, mas descaracterizada de seu projeto inicial, com o grupo cinemanovista aproximando-se da Embrafilme, distribuidora de filmes estatal fundada em 1969.

A experiência cultural e política da Difilm marca a cinematografia brasileira na década de 1960, expressando as contradições do projeto cinemanovista que propõe inovações estéticas e engajamento político, mas que se alia a uma cinematografia de linguagem convencional pela necessidade de estabelecer o mercado distribuidor e exibidor de seus filmes. Essa experiência se mostra fundamental para o amadurecimento comercial e industrial do cinema brasileiro nas décadas seguintes.

Obras 3

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Fontes de pesquisa 6

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  • GATTI, André Piero. “Difilm: distribuidora do Cinema Novo”. In: ________. A Distribuição comercial cinematográfica. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 2008.
  • GIANNASI, Ana Maria. O Produtor e o processo de produção dos filmes de longa-metragem brasileiros. 2007. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, São Paulo, 2007. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-21072009-201018/publico/146006.pdf. Acesso em: 14 ago. 2021.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; SCHVARZMAN, Sheila. Nova história do cinema brasileiro. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018.
  • RAMOS, José Mario Ortiz. Cinema, Estado e lutas culturais. São Paulo: Brasiliense, 1983.
  • ROCHA, Glauber. “O Cinema Novo e a aventura da criação”. In: _________. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. p. 127-150.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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