Artigo da seção instituições Coleção Adolpho Leirner

Coleção Adolpho Leirner

Artigo da seção instituições
Artes visuais  
Data de aberturaColeção Adolpho Leirner: 1962

A Coleção Adolpho Leirner de arte construtiva brasileira tem início em 1962, com a aquisição de Em Vermelho (1958), de Milton Dacosta (1915-1988). Compreende obras de artistas que influenciam designers e programadores visuais brasileiros. Por exemplo, do grupo concreto de São Paulo, o grupo Ruptura; do Ateliê Abstração; do grupo Frente, do Rio de Janeiro; do neoconcretismo; e de artistas abstrato-geométricos dos anos 1950 e 1960. As obras da coleção são emprestadas para exposições coletivas que tematizam este período da produção artística brasileira. Dentre elas, vale destacar a Arte Construtiva no Brasil: Coleção Adolpho Leiner, realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), em 1998, que expõe toda a coleção quando é considerada concluída por seu dono. Neste mesmo ano, é lançado um livro homônimo. Com coordenação editorial da pesquisadora Aracy Amaral (1930), reúne textos críticos sobre a coleção e os principais artistas que a compõem. 

Em 2007, a Coleção Adolpho Leirner é vendida para o Museum of Fine Arts de Houston, Estados Unidos, passando a integrar o departamento curatorial de arte latino-americana. A venda causa polêmica: artistas e curadores manifestam-se contra a saída desse acervo do país. A crítica e curadora de arte Ligia Canongia reconhece as tentativas de venda da coleção a museus brasileiros e lamenta o descaso público com a cultura.  

Em 2009, a coleção é exibida pela na Europa, na exposição Dimensions of Constructive Art in Brazil: The Adolpho Leirner Collection, no museu Haus Konstruktiv, em Zurique, Alemanha.
 

Análise

A Coleção Adolpho Leirner destaca-se por ser uma das raras coleções privadas de recorte preciso e coerente. Essas características fazem com que seja comparada a uma coleção pública. De fato, há a preocupação em selecionar e manter as principais obras dos artistas representativos de um período específico – a arte construtivista brasileira – exercendo função de amostragem histórica. Além disso, a Coleção Adolpho Leirner destaca-se pelo pioneirismo. O colecionador apoia artistas de seu tempo, motivado pelo gosto pessoal, pouco preocupado com as oscilações dos valores de mercado. Dentre eles, muitos ainda não descobertos pela crítica ou por instituições museológicas. Mais tarde, no entanto, são apontados como precursores de tendências.

O período que a coleção enfoca é de fundamental para o entendimento da história da arte brasileira. Considerado por muitos críticos como o momento de maior efervescência da arte nacional, marca a ruptura com a tradição figurativa e o surgimento da arte abstrata, corrente na qual o construtivismo se insere. A cisão entre estas duas correntes não é apenas de divergência quanto à linguagem plástica. O que está em jogo é o papel do artista na sociedade e seu posicionamento político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, o Brasil se redemocratiza e a consequente abertura externa e interna permite maior proximidade com debates artísticos internacionais. Segundo o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar (1930-2016), “uma das tendências do pós-guerra era a rejeição do nacional (que lembrava o nacionalismo fascista) e a aspiração a uma linguagem estética comum a todos os povos. A arte abstrata se ajustava perfeitamente a essa aspiração universalista” [1]

Apesar de os expoentes da abstração no Brasil compartilharem essa opinião, não formam um bloco homogêneo. A Coleção Adolpho Leirner é reconhecida por dar conta dessa amplitude de manifestações da arte construtiva no Brasil. Alguns grupos estão mais próximos das heranças das vanguardas europeias, outros, propõem soluções diversas, mais experimentais. Isso é percebido na comparação entre os grupos Ruptura e Frente. O primeiro, paulista, sob a liderança do artista Waldemar Cordeiro (1925-1973), possui proposição rigorosa de arte concreta. É influenciado pelo artista suíço Max Bill (1908-1994), cuja obra Unidade Tripartida vence a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. Já seu contemporâneo carioca, o grupo Frente, organiza-se ao redor da figura de Ivan Serpa (1923-1973). Reúne artistas ligados pelo desejo de experimentação que, em seguida, dá origem ao neoconcretismo.

A Coleção apresenta obras dos expoentes desses dois grupos, dos integrantes do Ateliê Abstração e de artistas que desenvolvem projetos construtivos independentes. É o caso de Alfredo Volpi (1896-1988) e Sergio Camargo (1930-1990). De acordo com a pesquisadora Ana Maria Belluzzo, o motivo central das obras da coleção Adolpho Leirner é, sem dúvida, a vontade de ordem, manifesta em propósitos construtivos e em formas geométricas, intelectuais, desprendidas de nexos naturais. Pureza e clareza, qualidades só aparentemente simples, caracterizam até mesmo as obras ornamentais da coleção.

Alguns dos destaques do conjunto são os trabalhos de Waldemar Cordeiro, Abraham Palatnik (1928-2020), Hélio Oiticica (1937-1980), Lygia Clark (1920-1988), Alexandre Wollner (1928-2018) e Willys de Castro (1926-1988).

 

Notas

1. GULLAR, Ferreira. O grupo Frente e a reação neoconcreta. In: AMARAL, Aracy (Org.). Arte construtiva no Brasil – Coleção Adolpho Leirner. São Paulo: DBA, 1998. p. 146.

Outras informações da instituição Coleção Adolpho Leirner:

  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (12)

  • ALZUGARAY, Paula. Para todo mundo ver. IstoÉ, São Paulo, 27 nov.2009. Artes Visuais. Disponível em: http://www.istoe.com.br/reportagens/15266_PARA+TODO+MUNDO+VER. Acesso em: 5 dez. 2011.
  • AMARAL, Aracy (org.). Arte construtiva no Brasil - Constructive art in Brazil. Tradução Izabel Murat Burbridge. São Paulo: Companhia Gráfica Melhoramentos: DBA Artes Gráficas, 1998. (Coleção Adolpho Leirner).
  • Arte construtiva no Brasil: Coleção Adolpho Leirner. São Paulo: MAM, 1998. Exposição realizada no período de 02 out. a 20 dez. 1998.
  • BELLUZZO, Ana Maria. Ruptura e arte concreta. In: AMARAL, Aracy (org). Arte construtiva no Brasil - Constructive art in Brazil. Versão para o inglês Izabel Murat Burbridge. São Paulo: Companhia Gráfica Melhoramentos: DBA Artes Gráficas, 1998. (Coleção Adolpho Leirner).
  • CANONGIA, Ligia. Depoimento completo de Ligia Canongia a Fabio Cypriano. Canal Contemporâneo, 21 mar. 2007. Disponível em: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/001179.html. Acesso em: 28 abr. 2017.
  • CYPRIANO, Fabio. Venda da coleção de Leirner gera protesto. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21 mar. 2007. Ilustrada. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2103200707.htm.  Acesso em: 28 abr. 2017.
  • ÉPOCA. O Prazer de colecionar. Época, São Paulo, ano 1, n. 19, p. 88-89,  28 set. 98.Cultura.
  • FOLHA de S.Paulo. Coleção Adolpho Leirner será exibida pela primeira vez na Europa, Folha de S.Paulo, São Paulo, 05 nov. 2009. Ilustrada. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u648146.shtml. Acesso em: 5 dez. 2011.
  • GULLAR, Ferreira. O grupo Frente e a reação neoconcreta. In: AMARAL, Aracy (org). Arte construtiva no Brasil - Constructive art in Brazil. Versão para o inglês Izabel Murat Burbridge. São Paulo: Companhia Gráfica Melhoramentos: DBA Artes Gráficas, 1998. (Coleção Adolpho Leirner).
  • INTERNATIONAL Center for the arts of the Americas at The Museum of Fine Arts. Adolpho Leirner Collection and Archive. Houston, EUA. Disponível em: https://icaa.mfah.org/s/en/page/adolpho-leirner-collection-and-archive. Acesso em: 09 out. 2020.
  • LEIRNER, Adolpho. Colecionar é uma busca. In: AMARAL, Aracy (org). Arte construtiva no Brasil - Constructive art in Brazil. Versão para o inglês Izabel Murat Burbridge. São Paulo: Companhia Gráfica Melhoramentos: DBA Artes Gráficas, 1998. (Coleção Adolpho Leirner).
  • MOLINA, Camila. Uma seleção de preciosidades do art déco brasileiro. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 ago. 2008. Caderno 2, D5.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COLEÇÃO Adolpho Leirner. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao637171/colecao-adolpho-leirner>. Acesso em: 17 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7